domingo, 8 de julho de 2012

O DEUS COM QUEM NÃO SE BRINCA (resposta a Marcos Cavalcanti)



Foto: Marcos Cavalcanti, Gilberto Cardoso

Caro Marcos:

Vaselinarei cada explicação ao “Com Que Deus Não se Brinca?”  na esperança de que estas penetrem com mais suavidade em seu entendimento. Polêmico é o tema do qual tratamos, sujeito a inúmeras interpretações. Sobre o pão duro da matéria buscarei ser como maionese, visando garantir nossa permanência na mesa dos que degustam nossas palavras - dignos de todo o respeito - e trazer melhor sabor a esta saudável porém insípida discussão. Buscarei proceder com aquela mesma atitude respeitosa por você manifestada no sepultamento de Monsenhor Raimundo ao discursar positivamente sobre o ilustre finado umedecendo com lágrimas sinceras o papel em que escrevera seu discurso. Sabedores de suas (des)crenças, todos nos comovemos com a demonstração de respeito e tolerância manifestados na ocasião e passamos a admirá-lo mais ainda. Monsenhor Raimundo, a quem você se dirigiu depois de morto com palavras untadas de poesia como se este pudesse ouvi-lo (dando margem a quem não o conhecesse de pensar tratar-se de uma oração), manifestou, em igual medida, tolerância para com os ateus quando admitiu a possibilidade de que alguém viesse a salvar-se mesmo sendo descrente; para ele importava mais a conduta que a profissão de fé.

Em Com Deus não se brinca quis me referir à concepção cristã do ser supremo. Quando falamos em Deus, inevitavelmente nos referimos ao Deus que pertence à cultura da qual tratamos ou na qual vivemos. Se porventura eu escrevesse em Cabul para um blog afegão sobre palavras ditas por um sheik pouco antes de um naufrágio ocorrido no mar arábico envolvendo pessoas provenientes da Indonésia, meus leitores muçulmanos, ao lerem a palavra “deus” entenderiam estar me referindo a Alá. O Titanic, na noite de seu naufrágio, conduzia uma tripulação dominantemente cristã. Inclusive, teriam cantado o hino  "Nearer, my God, to Thee" (hino cristão protestante), por ocasião do desastre.

O deus a quem faço referência é o Deus da Bíblia. No Novo Testamento, Deus é sinônimo de tudo que é bom. Lemos:

Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” (1 João 4:8).

Muitos estranham a metamorfose que captam na imagem de Deus a partir de Jesus. Alguém disse: “No Velho Testamento temos um Deus que mata; no Novo Testamento vemos um Deus que morre.”

Apesar dos morticínios, mesmo no VT Deus é apresentado como tendo as características de um ser justo, amoroso, imparcial e profundamente preocupado com a felicidade humana. Um profeta escreveu:

Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.”(Jeremias 31:3)

Creio que esta imagem seja crucial para um deus ou para qualquer ser que governe. Até líderes e ditadores famosos que eu e você abominamos sentem a necessidade de manter um conceito próprio contrastante com seus atos. O bom-senso nos diz que um deus perfeito, desejável ou líder ideal, deva ter tais características. Os escritores da Bíblia, mesmo relatando coisas chocantes ao nosso entendimento como matança de crianças (Números 31:17), insistiam na imagem de um Ser bondoso, justo e misericordioso.

O problema é que as ideias de justiça, misericórdia e amor, na prática, são fortemente influenciadas pela formação, características psicológicas de cada um e pela cultura em que se está inserido. Manter escravos, matar e praticar o olho por olho eram perfeitamente compatíveis com a crença em Deus no tempo de Davi. Hoje, isso receberia a condenação de qualquer cristão.

Quando comunistas ateus e inquisidores medievais praticaram suas atrocidades, sentiam-se em perfeita consonância com os ideais de justiça, imparcialidade e amor à espécie humana apregoados pelas ideologias que abraçaram.

Um grande pregador cristão, Dwight Moody, aconselhava que seus fieis lessem a Bíblia como quem come peixe, com todo cuidado para não se engasgar. Eu acho que o pregador estava certo em sua observação: quem quiser manter a fé tem que proceder assim. Tal como Pedro não deveria atentar para os vendavais da incredulidade (Mat 14:30) sob pena de afogamento espiritual, os que se debruçarem sobre a Bíblia com olhar de urubu jamais “subirão como as águias” (Isaías 40:31)  É desse modo que o mundo cristão tem procedido. Buscam aquelas  partes que salientam aspectos positivos sobre o ser supremo, os versículos que estimulam a fé e a devoção.

A ideia de um deus com quem não se deve brincar vem de versículos como os de 2 REIS 2:23-24:

 “Deus é amor, mas também é fogo consumidor”, dizem religiosos, cientes dos muitos relatos em que expressões de blasfêmia resultaram em tragédias. O que tentei foi, a partir dos próprios argumentos fornecidos pela Bíblia e pelos  que usam a ilustração do Titanic, chamar a atenção para possibilidade de se pensar diferente.

Finalizo dizendo: perdoem-me os zelosos da fé que se viram censurados em seus comentários ofensivos à pessoa de Marcos. Apesar das diferenças radicais, ele e Monsenhor Raimundo foram bons amigos até o fim. Não tentem tomar as dores de Deus. Se ele é o ofendido, deixem que Ele mesmo resolva à sua maneira, extraindo água da rocha ou enviando raios.
Meditem nestas belíssimas palavras de Padre Zezinho:

“Eu sei que da verdade não sou dono
Eu sei que não sei tudo sobre Deus
Às vezes quem duvida e faz perguntas
É muito mais honesto do que eu.”



quinta-feira, 5 de julho de 2012

COM DEUS NÃO SE BRINCA - Gilberto Cardoso dos Santos



“Nem Deus pode afundar o Titanic”

A frase acima, supostamente dita por um dos condutores ou marinheiro do maior navio ate então construído, tem sido citada à exaustão nos últimos cem anos em púlpitos cristãos do mundo inteiro como um alerta aos que duvidam do Poder Supremo.
É difícil não despertar temor, medo, no coração daqueles que creem. Muitos, aliás, foram incentivados a temer a Deus por causa dessa história.

A verdade, porém, segundo Richard Howells – expert na história do naufrágio – é que não há provas conclusivas a respeito deste relato; a história teria sido criada pelo imaginário popular após o naufrágio. Nunca, afirmou ele, a White Star Line disse que o navio era invulnerável.

Verdade ou mentira, sempre me soou estranho que Deus, sinônimo de Amor e de Justiça – o mais perfeito dos seres e fonte benfazeja de todos os outros – fosse capaz de se deixar levar por tais ímpetos de destruição. Confesso que quando  ouvia esta história da boca de algum líder religioso, era como tentar engolir um maxixe quente. Ficava pensando em cerca de 1500 embarcadas e nos muitos familiares destes que ficaram em terra; pessoas que não o provocaram, que não disseram nada parecido com isso, mas, como estavam “no mesmo barco”, acabaram sendo penalizados.

Isto o faria parecer alguém imaturo, perigosamente impulsivo. Imagine o mais adulto e antigo dos seres procedendo tolamente como criança! Temperamento sanguíneo!
Ora, isso não combinaria com seu caráter. Imaginemos a cena: um ameninado qualquer da terra, jactancioso, diz: “Não tem quem afunde esse navio... nem Deus!” E Deus, a quem nada escapa, franze o sobrecenho e diz: “Ah, é? Pois eu vou mostrar a esse sujeito quem é que manda aí!” e logo, valendo-se de  monstruoso iceberg,  "prova" para o resto da humanidade quem é o tal. 

Segundo afirmam muitos propagadores dessa história, a frase teria sido dita por brincadeira, o que faria parecer bem mais irrazoável a reação divina. Nós nos sentimos pouco à vontade com pessoas mal-humoradas. Alguma vez um amigo o alertou sobre a inconveniência de brincar com alguém que esquenta com facilidade? - Cuidado, disse. - Ele não gosta de brincadeira -  Creio que sua impressão sobre a pessoa citada não foi das melhores.

Isso faz Deus parecer com  indivíduos imprevisíveis que todos conhecemos; assemelha-o a governantes despóticos, prontos a esmagar quaisquer sinais de insolência. Religiosos fanáticos inquisidores poderiam dizer convincentemente que de fato foram feitos à Sua imagem e semelhança.

Em sendo verdade, justificaria a censura religiosa e perseguição aos escarnecedores. Como deixar à vontade pessoas que blasfemam contra Deus? Professores, pais e autoridades deveriam tentar controlar tudo oque se diz. O ocorrido com o Titanic estaria aí para nos alertar. De repente, alguém em um grande shopping lotado de gente diria: "Duvido alguém derrubar este edifício!" E Deus, sentindo-se provocado, mandava um raio e deixava milhares de famílias destroçadas.

Será que Deus iria querer destruir toda uma multidão de filhos por causa de um único rebelde? Aliás, nem se todos fossem rebeldes. Tal visão talvez tenha pouco a ver com a de um Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança e muito a ver com a de um Deus criado à imagem e semelhança do homem.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A MISSA INVISÍVEL - Gilberto Cardoso dos Santos



Na calçada, devidamente paramentado, todas as noites, voltado para a rua, celebra missa para uma plateia inexistente.
Deram-lhe uma batina, provavelmente reciclada de uma peça  de roupa feminina. Veste-a, e, empunhando um microfone desconectado – de brinquedo, talvez – fala coisas pouco inteligíveis. Botou na cabeça que tem uma missão sacerdotal a cumprir. Pensa-se que pense ser um padre, mas, quem sabe, não se julgue bispo. cardeal ou papa?  Frágil jovem que se agiganta aos próprios olhos e faz-se santo de Deus.
Executa gestos solenes e discursa com convicção uma mensagem pouco inteligível, extraída do livro de sua insanidade. Hinos conhecidos são deformados por sua voz anasalada e rebelde às notas. Curva-se respeitosamente diante de uma imagem inexistente, representativa do invisível. Em seguida, pega um pão que outros não veem e, por força de oração, transforma-o no corpo de Cristo. Estende-o às diversas bocas inexistentes daqueles que não se aglomeraram para ouvi-lo. Sua mímica bem feita, própria de quem crê na materialidade do que imagina, leva nosso pensamento a colocar um pão em sua mão e a dar forma a alguém da multidão com quem ele fala ao entregar a hóstia. Sob a parca luminosidade da rua onde mora, os poucos transeuntes que ocasionalmente passam vislumbram o frágil pregador em sua insignificância física, dirigem-lhe breves olhares indiferentes e distanciam-se alheios à solenidade da ocasião.
Nas janelas e portas das casas ao redor, vê-se o piscar das tevês que mantêm a todos presos em seus lares. A apatia parece tomar conta de tudo.
É de admirar a constância com que ele se posta naquela calçada, noite após noite, enquanto o resto da família, já afeita ao barulho de seus discursos, aproveita para ver a novela.

domingo, 27 de maio de 2012

SEPARANDO QUEM ESCREVE DO QUE ESTÁ ESCRITO- Gilberto Cardoso dos Santos



Quando lemos, é sempre bom fazermos um esforço para separar aquele que escreve daquilo que está escrito. O autor, necessariamente, não tem a ver com o eu-poético de seu poema ou com o eu lírico de sua crônica.
Lembremos do que disse Fernando Pessoa, 

"poeta é um fingidor
Finge tão completamente. 
Que chega a fingir que é dor. 
A dor que deveras sente."

A dor ou alegria que o poeta expressa necessariamente não é a sua. Saint-Exupery, o autor, é diferente da criança que fala em o Pequeno Príncipe.
O escritor tem o dom de empatizar  com os seres ao seu redor expressando o que de fato sentem ou emprestando-lhes qualidades inexistentes.

Exemplos?

Quem convive com Marcos Cavalcanti sabe que ele é, comumente, uma pessoa bem-humorada, feliz, que nem de longe pensa em suicídio. Para alguns que não  o conhecem  e leem o seu VIAGENS AO ALÉM-TÚMULO é um ser depressivo, negativista, triste. Isso ocorre devido a confusão entre autor e eu-poético. Numa poesia ele pode dizer "Vem, ó morte", enquanto na vida real vive fugindo dela.

Quem faz ou declama um poema de amor  não significa que esteja apaixonado.  José Paulo Paes escreveu poesias em que nitidamente se escuta uma voz feminina. Isso não significa que ele seja mulher ou gay. Quando Drummond, o itabirano, escreveu "Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói", poderia estar falando de uma dor que deveras sentia (apenas para relembrar Fernando Pessoa) ou não. Poderia até nem ter  fotografia da terra natal em sua parede.

Será que no dia anterior à escrita do poema O BICHO Manuel Bandeira realmente esteve perante um pátio imundo? Pode ser que sim, pode ser que não. Mesmo que tenha vivenciado isso, continua a necessidade de diferenciar quem escreve do que está escrito.

Sabe aquelas máscaras que têm a forma exata do rosto que representam? Mesmo sendo tão parecidas (algumas simulam muito bem o tecido humano) continuam sendo apenas máscaras.

Vez por outra aparecem comentários no blog que refletem um pouco essa confusão, salvo  casos em que a pessoa evidentemente está brincando. Daí a razão de ser deste alerta. Desnecessário, talvez.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

A DERRUBADA DA QUADRA - Gilberto Cardoso dos Santos













Num gol do progresso insano
A quadra foi derrubada
E quem perdeu na jogada
Foi o sentimento humano
No ar ficou o vazio
E o enorme desafio
De erguer algo diferente
Este cultural fracasso
Se assemelha a um golaço
Que humilha o time da gente.

Silenciou a pancada
De Rizomar carimbando
Sem saber principiando
A atual derrubada
Em quem ali já jogou
Algo por dentro quebrou
Quando bateu o guindaste
Se jogadores choraram
Vizinhos comemoraram
Vejam que grande  contraste!











Crédito das fotos: Débora Fernanda




domingo, 15 de abril de 2012

UMA PARTE QUE VALE PELO TODO - Gilberto Cardoso dos Santos



A letra acima é da autoria de Chico César e se intitula BÉRADÊRO; foi gravada com uma melodia que não soa muito apetecível ao gosto popular e, além disso, sem quaisquer instrumentos. Trata-se de uma espécie de aboio. Daí, com certeza, a razão do pouco sucesso que fez/faz entre as massas. Há, todavia, muitos como eu que com ela se encantam. Acho que transborda  tutano de poesia em cada verso. Cada linha constitui parte de um favo cheio do mais precioso mel.
Mas há uma parte que dispensaria todas as outras, dois versos que falam fundo ao meu coração:
"E a cigana analfabeta
lendo a mão de Paulo Freire".

Não sei com precisão o que estes versos me falam, mas sei que me dizem muito. Assim age a linguagem da poesia.
Por causa  desta sentença, eu e Hélio a incluímos em nosso repertório. Aliás, tivemos oportunidade de cantá-la na Casa do Béradêro, lá em Catolé do Rocha no espaço construído para conservar a memória de Chico César entre seus conterrâneos.
Para nós é uma parte que vale pelo todo. Sabe aqueles minutos que fazem valer o dia; aquela cena do filme que faz valer a pena o tempo gasto assistindo-o; aquela música que justifica a compra do cd? Este é o verso que faz valer a música. Se esta canção fosse uma enrugada ostra, este verso seria a pérola. Leia-a (ou ouça-a em áudio da música Béradêro ) e se encante com a genialidade desta composição.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

SOBRE A CRISE DÁGUA - Gilberto Cardoso dos Santos


Imagem meramente ilustrativa

Nestes dias de sequidão, em que alguns estão sendo forçados a cumprir a tradição de não tomar banho nos dias santos, a campanha de Monsenhor Raimundo "ÁGUA SIM, VOTO SIM; ÁGUA NÃO, VOTO NÃO" volta a ter sentido e a influir na decisão das pessoas.

Hoje alguém da família passou por minha casa com uma grande trouxa de roupas: Ia tentar lavá-las em Japi.

Não podemos lavar as mãos (como fazer isto, sem água?) diante desta situação.
É como me disse Maurício Anísio:

"A responsabilidade para resolver o problema é: do Prefeito municipal, da Governadora do Estado, dos Deputados (estaduais e federais) que foram votados em nossa cidade e dos Senadores. A essas autoridades, e tão somente a elas, cabe a responsabilidade conjunta para encontrar definitivamente a solução para esse problema. Acusar um ou outro, individualmente, (ou excluir alguém da responsabilidade) não acho que seja o caminho correto. Me parece mais um rancor individual do que a procura da solução."

Seja sinceramente ou por pura estrategia, aprendemos com nosso pais a lançar a culpa sobre os outros: Deus culpou a Adão e este culpou a Eva que, por sua vez, culpou a serpente. Na verdade, todos tinham sua parcela de culpa.

Nós, o povo, também precisamos dizer: "Por nossa culpa, nossa grande culpa (pois temos pecado muitas vezes por pensamentos, atos e omissões), este problema tem se estendido por dias e dias e tem se transformado em meses.". Além disso, como já o denunciou Teixeirinha em DIAMANTE LÍQUIDO, temos feito um mau uso da água (quando a temos). É a hora, em seus minutos finais, de refletir sobre a crise que o mundo atravessa quanto a isso.

Quem não quiser ver seus verdes votos amarelecendo e quiser ter uma boa colheita no próximo pleito, saiba que é hora de arregaçar as mangas. O povo clama com sede. Como Moisés, extraiam água nem que seja das pedras, pois a água não vem mas as cobranças continuam vindo, altíssimas, por sinal.

Não tenham dúvida: os que nada fizerem para resolver este problema, poderão se dar mal nas urnas e os que trouxerem a solução (ou derem a impressão que resolveram) poderão ser beneficiados.

domingo, 1 de abril de 2012

1º de ABRIL NO WALFREDO GURGEL - Gilberto Cardoso dos Santos


Primeiro de abril, que sofrimento
Naquele corredor nauseabundo
Gente a chorar o seu pesar profundo
Enquanto aguarda um pronto-atendimento

Primeiro de abril, tudo verdade
Escuto gritos das enfermarias
Funcionários riem pelas vias
Já tão afeitos à calamidade

Com meu amor naqueles corredores
Sinto-me mal em meio a tantas dores
Quisera ouvir alguém dizer-me: “Gil,

Não acredite no que está vendo
Pois nada disso está acontecendo
Tudo é mentira, Primeiro de Abril!”

quinta-feira, 15 de março de 2012

RESSURREIÇÃO DE MACHADO DE ASSIS - Gilberto Cardoso dos Santos




Machado escreveu em 1873:

[...] Não há atualmente teatro brasileiro, nenhuma peça nacional se escreve, raríssima peça nacional se representa. As cenas teatrais desse país viveram sempre de traduções, o que não quer dizer que não admitissem alguma obra nacional quando apareciam. Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

O trecho é parte do ensaio NOTÍCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA INSTINTO DE NACIONALIDADE. Como um todo, bem ilustraria o que se dá nos dias de hoje e nos conduziria à convicção de que, como dizia Salomão, nada há de novo debaixo do sol. Ele lamentava, por exemplo, que os clássicos nesse tempo fossem pouco lidos e conhecidos. Machado, hoje um clássico - autor de um romance que figura na lista dos cem melhores da literatura universal - certamente ficaria assustado caso pudesse saber que a realidade não mudou praticamente nada de 1873 para cá.

Se o autor de Resurreição porventura ressurgisse, provavelmente seria glamourosamente conduzido à ABL - academia que o tem como patrono. Ali, teria a chance de conhecer ilustres imortais que lhe entregariam exemplares de obras devidamente autografadas. Imagino-o folheando Marimbondos de Fogo, da autoria do contista, ensaísta, poeta e romancista José Sarney (conhecido em todo o Brasil não por dotes literários, mas por outros motivos), de quem receberia convite para ir à tribuna do Congresso. Tal livro seria devorado com o maior interesse; Machado pensaria: “Se foi conduzido à academia tendo escrito tão pouco, deve ser um escritor fantástico!” Mal acabaria sua decepção com aquele que é capaz de qualquer coisa, (até mesmo de ocupar a cadeira de Tobias Barreto na ABL), teria que ver obras gentilmente ofertadas (ou vendidas, graças a alguma virtude desenvolvida no caminho de Santiago) por Paulo Coelho e talvez como Verônika ele decidisse morrer. Ficaria surpreso com o sucesso estrondoso de O Alquimista que vendeu mais nesta década que Machado em quase 3 séculos. Com Santiago, o protagonista, Machado empreenderia viagem em busca do tesouro literário escondido na obra-prima magra do mago. Iria, certamente, arrepiar-se com deslizes linguísticos difíceis de perdoar e, por fim, à semelhança do que ocorre com o personagem central, descobriria que onde julgava haver algo áureo não há tesouro algum; que deveria retornar às obras de seu tempo onde, finalmente, encontraria algo satisfatório. Ao ler Drummond, Quintana, Veríssimo (pai e filho), e Fernando Sabino, se surpreenderia ao saber que estes nunca tenham sido imortalizados. Ao conferir o estatuto da academia, para ver se as regras haviam mudado, veria que ali ainda consta o requisito “ter publicado, em qualquer gênero da Literatura, obras de reconhecido mérito e valor literário”.

Depois de animada conversa com o imortal senador Marco Maciel, autor de obras memoráveis por mim ignoradas e de um breve passeio com Ivo Pitanguy (feito imortal não pelo que fez com a caneta, mas com o bisturi), talvez Machado tivesse um surto de zelo naquele tão profanado templo da cultura, semelhante àquele que levou Cristo a se munir de um chicote e sair derrubando tudo e expulsando gente. Não sei se ele permaneceria com vida ao saber da medalha que Ronaldinho Gaúcho recebeu devido, talvez, às muitas bolas e camisetas que autografou.

No trecho inicialmente citado, uma parte merece destaque:

Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

Ora, Machado, se vivesse hoje entenderia quão enganado estava ao pensar que em seu tempo o gosto público chegara ao ápice da degradação. Imagine se assistisse um pouco do Big Brother, dramalhão supostamente improvisado que se nega a assumir seu caráter de espetáculo (pois tenta passar por representação fiel da realidade), sórdido drama protagonizado por maus atores e atrizes, cheios nos músculos e nádegas, vazios nas mentes. Veria que estes mamulengos da mídia, um milhão de vezes mais que os aproveitadores de sua época, estariam a levar a população ao último grau de decadência e perversão. Além disso, ao ouvir Michel Teló e saber por um transeunte metido a engraçado que este tem sido escutado por todos, menos por Luíza que está no Canadá, talvez concluísse que as cantigas burlescas de seu tempo eram, na verdade, obras primas da literatura universal comparadas a estas que escapariam dos paredões de som (tão em moda atualmente) e feririam seus tímpanos.

Enfim, diante do que veria nas novelas, no Big Brother, filmes, livros, músicas e espetáculos teatrais de nosso tempo, Machado concluiria que nunca na história desse país (saudoso Lula...) tanto se falou aos sentidos e aos instintos inferiores. A que conclusão senão esta poderia chegar o magno escritor comparando a nudez e perversão sexual de hoje com os braços à mostra que lhe renderam uma crônica? O ser humano, veria ele, em qualquer época, tende mais a dar vazão ao  lado animal, mesmo que isso atente contra o progresso intelectual.

Assustado com o que veria, desejaria retornar à tumba. “Hoje sim”, concluiria, “o gosto público tocou o último grau da decadência e da perversão”; hoje poderia reescrever o NOTÍCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA  mudando apenas as datas. Todavia, diante do que vemos, o texto pareceria demasiado brando. Machado esquentaria um pouco mais os neurônios ao falar das imbecilidades de nosso tempo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A (IN)UTILIDADE DA POESIA - Gilberto Cardoso dos Santos)

Perguntaram ao admirável poeta Manoel de Barros: O que é a poesia? Ele respondeu: “Poesia é a virtude de ser inútil.” e acrescentou: “Há várias maneiras de dizer nada. A poesia é uma delas. Em uma das raras entrevistas que concedeu, Manoel de Barros disse que noventa por cento do que escreveu foi inventado, só dez por cento é mentira.
Com o aval de Manoel acrescentaríamos: A poesia é este algo inútil tão útil à humanidade. A poesia dá ao homem a oportunidade de ver o mundo e os seres por ângulos diferentes e até inexistentes. Empresta e arranca das palavras sentidos que causam espanto. O poeta recicla a linguagem comum, converte sons ordinários em notas extraordinárias. É um dizer nada de maneira encantadora. É um falou e tudo se fez, um chamar as coisas que não são como se fossem. A poesia é uma subversão da gramática e dos sentidos: o poema passarinha (grande Quintana) sobre os obstáculos que a linguagem bem comportada impõe. “Escreve-se para chegar ao nada”, disse Autran Dourado. A poesia é um inutensílio, no dizer de Leminski.
Em nossa rádio online, procure a faixa Assaltaram a gramática, na qual o poeta Wally Salomão fala de poetas e da poesia.
Enfim, feliz Dia da Poesia, leitores e poetas, para quem todos os dias é dia de poesia!

Vejam um pouco do documentário premiado sobre Manoel de Barros:


Para ver mais:

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

FÉRIAS OLEOSAS - Gilberto Cardoso dos Santos



Nestas férias, resolvi pesquisar sobre saúde. Vocês sabem como é: quarenta e sete anos, é bom começar a prevenir. Descobri, para nossa surpresa e desconfiança, que o ovo pode ser comido à vontade. O que o torna prejudicial é a fritura. Todavia, se frito em óleo de coco não causa mal nenhum. O óleo de coco, que protagonizará esta crônica, é uma verdadeira panaceia. Riquíssimo em ácido láurico, fortalece o sistema de defesa do organismo. Mesmo depois de usado numa fritura, pode ser reutilizado. Qualquer outro óleo que se utilize em frituras é prejudicial. Esqueçam óleo de canola, girassol ou algodão. Azeite de oliva é bom, mas só cru.

Saí em busca de um vendedor de óleo de coco e quase não pude achar. O único que encontrei depois de muita procura me disse que fazia sempre, mas não dava pra quem queria; no momento tinha apenas uns dois dedos. "Quer?" "Quero!" E comprei por 5 reais. Mas aquilo não dava pra nada, pois minha mulher se empolgara com a coisa e queria tomar umas duas colheres por dia, conforme ouvira um especialista aconselhar, para prevenir enfermidades diversas e para ficar magérrima como Giselle Bünchen. Ela lembrou-me da avó que utilizava o óleo para amolecer feridas, para estirar os cabelos... mas advertia: não pode ser bebido! Então decidi: eu mesmo extrairia o óleo. Primeiro fui ao Google, que é o mais entendido no tema atualmente. Lá encontrei a receita. "Muito simples", pensei, e fui à rua atrás de cocos.

Comprei dois grandes, cheios d’água. A receita dizia que com quanto mais água melhor. Não deveriam ser muito secos. Quando falei do propósito, o vendedor me disse que óleo de coco é um santo remédio, mas que não é todo mundo que consegue fazer. Tem que ter a cabeça boa, disse ele, e sua afirmação foi confirmada por uma senhora que se achava ao lado. Disse que se a pessoa não tiver a cabeça boa, usa um bocado de coco e no final não dá nada. “É uma ciência”, arrematou o vendedor. Fiquei sem saber o que eles queriam dizer com cabeça boa e saí dizendo a mim mesmo: “Se cabeça boa for o que estou pensando, vou me tornar o maior produtor de óleo de coco da região!”

Fui à procura do rapa coco. Havia de dois tipos: um com cabo de madeira, normal, e outro de alumínio em formato de peixe. Ainda podia optar entre rapa coco com ou sem furo para passagem da raspa. Optei pelo de alumínio por parecer-me mais resistente. Pensei nos muitos cocos que a partir daquele teria que raspar para obter o precioso óleo. Pechinchei com o vendedor e enquanto pedia o abatimento chegou um senhor, também mangaieiro; este me contou a história de alguém desenganado pelos médicos, que tomara óleo de coco e ficara totalmente curado. Ainda hoje tá vivo! “Abaixo de Deus, meu filho, não há remédio melhor! Pra problemas nas partes, na prosta, é tiro e queda!”. Um senhor ao lado, ao ouvir a menção a Deus, tirou o chapéu e confirmou o dito.

Quando estava pagando o rapa coco, chegou a mulher do vendedor. Fui informado por este que a mulher dele também produzia óleo de coco, mas que o óleo dela era muito caro. Acrescentou: Essa mulher não tem a cabeça boa, professor. Pra fazer um litro de óleo ela gasta uns cem cocos! A mulher não gostou do que ouviu e replicou: “É não, abestalhado. É que o óleo é pouco mesmo. Vai fazer pra tu ver!” O pior veio depois quando o mangaieiro disse por quanto havia vendido o rapa coco. A mulher disse que ele é que não tinha a cabeça boa e ficava falando dela. Daquele jeito eles iriam à falência. Onde já se viu, o rapa coco tinha sido comprado por um preço alto e ele estava me entregando quase de graça. Ele retrucou que aqueles rapa cocos estavam boiando fazia tempo. Era melhor vender que deixar encostado. Ela disse: Foi mesmo que dar o rapa coco a ele. “Pronto!”, disse o vendedor. "Faz de conta que eu dei de presente a ele nesse começo de ano." Para desfazer o clima e dando uma de quem não tinha nada a ver com o “peixe” – resistindo firmemente ao impulso de devolver o rapa coco ou à ideia de pagar alguma diferença - perguntei o valor do óleo e ela me ofereceu uma garrafinha de nada – um protótipo - por vinte reais. Saí em silêncio enquanto o vendedor dizia: “Eu não disse que o óleo dela era caro, professor?”

Na verdade eu estava muito feliz ante a possibilidade de extrair meu próprio óleo, em condições higiênicas desejáveis e a baixo custo. Ah, faltou um detalhe: antes tive que comprar um liquidificador – elemento imprescindível conforme vi na receita. O nosso não prestava mais pra nada. Chegando em casa, dei início à grandiosa tarefa de produzir o miraculoso líquido que, junto a outros cuidados que estou tendo, me permitirá ultrapassar a casa dos cem completamente saudável, com o vigor de um adolescente. Parti o primeiro coco, enorme, mas estava podre, tive que descartá-lo. Fui para o segundo e deu certo. Com o peixe de alumínio nas mãos, pus-me a raspar a deliciosa polpa branca quando, de repente, graças à minha inabilidade, ao invés de raspar o coco raspei o pulso direito (sou canhoto). Os dentes metálicos do peixe deixaram quatro rastros vermelhos e lá se foi a higiene pretendida pois parte da polpa ficou ensanguentada. "E agora?", pensei. Fui ao frasquinho onde estavam os dois dedos de óleo adquiridos a duras penas e apliquei algumas gotas no pulso, pois aprendera que pra ferimentos não há melhor. Depois de isolar a parte sulcada, retomei a árdua tarefa, ciente de seu alto grau de periculosidade. Ainda bem que eu tinha um coco de reserva, comprado na semana anterior (um só me parecia insuficiente). Parti este terceiro apreensivo, mas vi que ele já estava largando o óleo naturalmente. Pareceu-me no ponto.

No liquidificador coloquei a rapa com a água recolhida dos próprios cocos e esbagacei tudo. Escorri o leite numa peneira, coloquei o bagaço num pano e espremi até fazer caretas. Era o leite pingando e o suor caindo. Agora, vinha a parte pior: ter que esperar quarenta e oito horas, conforme prescrevia a receita, para que, incubados num lugar completamente escuro, os componentes do coco se separassem naturalmente. Passei o sábado e o domingo na maior ansiedade. Eu queria fazer aquilo sozinho. Não permitiria que alguém metesse a mão em meu precioso óleo pelo qual até sangue verti. No domingo à tardinha fui à vasilha, guardada “debaixo de sete chaves” na despensa. Despi-a com delicadeza, como um recém-casado despindo a esposa. E o que vi na vasilha de vidro? Duas camadas. Uma enorme, líquida, tendo por cima uma baba branca, fininha, que me pareceu ser algum bagaço de coco que escapara pelas malhas do tecido. Tirei aquela baba. Minha esposa, sabedora dos múltiplos usos do coco, pediu para tentar fazer algo com ela. Quem sabe, se levada ao fogo não daria uma farofa?

Na vasilha ficou uma quantidade enorme de líquido. Pensei comigo: Agora vem a penúltima parte da receita. Vou colocar o líquido numa garrafa plástica e deixar passar um tempo. Depois de mais 3 ou 4 horas o óleo se separará da água e eu terei o precioso remédio para muitos dias. A última etapa seria colocar a garrafa plástica com os líquidos separados no congelador para que se solidificassem. Por fim, deveria cortar o recipiente rente à faixa do óleo e ufa: em temperatura ambiente deixaria que o óleo extraído a duras penas voltasse à sua forma natural. Nessa bendita noite, tão cheia de expectativas, minha sogra (mulher que conhece coco como a palma da mão. Quenga, por exemplo, ela diz conhecer à distância) veio jantar conosco e provou da deliciosa farofa preparada por sua filha. Eu também comi e achei-a um manjar dos deuses. Pena que era tão pouca! Quando a amada sogra – única da espécie que me faz ter ofiofilia - foi à geladeira e viu a garrafa no congelador, perguntou o que era. Minha esposa explicou o processo todo, a história da baba que eu tinha descartado... “Vote!”Exclamou a Micrurus corallinus, “e ele vai fazer o óleo com quê?” Em seguida explicou que o óleo se achava justamente na baba que eu havia pretendido jogar fora.
Bem, o que restou disso tudo? Muitas risadas naquela noite, que atrapalharam nosso sono; quatro riscos no pulso, parecidos com marcas deixadas por unhas de gato; uma garrafa Peti com uma substância que minha esposa vai tentar transformar em farofa ou vinagre de coco e um desejo enorme de saber onde posso comprar o óleo virgem, barato, produzido sem cozimento.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

SONETO ACRÓSTICO DE UM PAI FELIZ - Gilberto Cardoso dos Santos








Débora, em seu primeiro dia (15.02.1998)

Escrito para o aniversário de Débora em 15.02.2012

Dileta filha a quem amo tanto
É muito bom ter uma filha assim
Bondosa e meiga, cheia de encanto
O que melhor a vida deu pra mim.

Recordo os dias bons que já tivemos
As alegrias que você nos deu
Foram momentos que não esquecemos
Entesourados estão no meu eu.

Raros os pais que assim podem falar:
Nada nós temos para reclamar
A sua vida só trouxe alegrias

Nunca esqueça: muito a amamos
Dias felizes, é o que desejamos
Agora e sempre, todos os seus dias.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

NÃO BASTA SER ÁGUA - Gilberto Cardoso dos Santos







Virou moda consumir água mineral, seja pela praticidade, seja pelo sabor ou pela ideia de tratar-se de uma água melhor. No nosso caso específico, a constante falta d'água acaba contribuindo para que tenhamos esse gasto extra.
Todavia, todos faríamos muito bem se, além de consumir água mineral, parássemos pra dar uma olhadinha no rótulo da que consumimos. Ali, como ocorre com as carteiras de cigarro, há informações obrigatórias para as quais quase não atentamos. Algumas marcas que não atendem aos padrões as colocam, ainda que constrangidos, mas não devem se preocupar muito pois raramente alguém tem noção da importância do que ali está escrito e para pra ler as letras miudíssimas.
No rótulo acima, escolhido aleatoriamente para ilustrar a presente matéria, lemos:
“Conservar em local seco, fresco e evitar exposição aos raios solares. Mantenha longe de produtos que exalem odores fortes.”
Aqui temos o primeiro dos graves problemas com a água cara que eu e você consumimos. Vejo passar perto de minha casa carros cheio de garrafões, com as carrocerias descobertas. Provavelmente essa água vem da capital exposta ao sol e aqui prossegue enquanto o representante vai de supermercado em supermercado, de mercadinho em mercadinho. Certamente você já viu motos conduzindo água mineral e bujão lado a lado, seja num carroção, seja na própria moto. E isso sob sol causticante. Aliás, a dobradinha bujão/água mineral é muito comum. Passam diante de nós tais recipientes aos solavancos, postos lado a lado e se tocam, ainda que de leve, apesar da exigência de que a água ideal não tenha cheiro (água sem gás com gás!). Na outra semana, enquanto o carro passava por minha porta em direção ao mercadinho próximo, liguei para o proprietário e solicitei a ele que apresentasse tal problema ao vendedor. Ele me agradeceu e disse que apresentaria o problema ao entregador. Também é comum encontrarmos garrafões ao sol, em porta de estabelecimentos comerciais por falta de espaço ou para fazer propaganda.
Qual o problema com o sol? Por que os engarrafadores são obrigados a colocar tal aviso? É que o sol em contato com o plástico provoca na água a liberação de xenoestrogênio, uma substância perigosa que surgiu como efeito colateral do desenvolvimento tecnológico, capaz de provocar câncer e diminuição na libido. Tal substância, depois que se aloja no organismo dá trabalho a sair. Literalmente, é preciso derramar muito suor para que isso ocorra. Mesmo assim, sua eliminação não ocorre cem por cento e muitos são os males que podem provocar.
Como se não bastasse, o garrafão de plástico – originário de substâncias tóxicas, petrolíferas - interfere no sabor da água, principalmente depois de exposto ao sol. Experimente tomar água em garrafa de vidro e notará diferença no gosto.
Outra coisa a se levar em conta ao comprar água é o pH, ou potencial Hidrogeniônico da água. O pH da água ora analisada é de 5,16.
A saúde do corpo está diretamente relacionada ao seu pH. Quem consegue mantê-lo no nível correto mantem-se imune a muitas enfermidades e tem tudo para viver mais. Como nosso corpo, dominantemente, é composto por água, é necessário que demos a maior atenção àquilo que ingerimos. Não basta ser água. Não basta ser H2O!
Lemos no rótulo, desta vez em letras grandes negritadas: “NÃO CONTÉM GLÚTEN
Para a maioria de nós tal informação passa despercebida e não tem qualquer importância. Todavia, é importantíssimo que a nossa alimentação diária esteja livre dessa substância. Após ingerida, ela transforma-se numa espécie de cola, gruda nas paredes intestinais e provoca, entre outros males, o aumento da gordura na região do abdômen. Se eu disser que ela também pode provocar enxaqueca e depressão, acreditem. Nesse quesito a DAFÉ merece fé.
Acho dispensável aqui me estender sobre o quanto temos prejudicado o meio-ambiente com os recipientes plásticos de água mineral que atiramos fora.
Por fim, melhor que consumir água mineral dentro das condições acima expostas (já que não temos acesso direto a fontes límpidas e cristalinas), é consumir a água que nos vem pela torneira.
De acordo com a Portaria 518/04 do Ministério da Saúde a faixa recomendada de pH na água distribuída deve estar entre 6,0 a 9,5. A nossa está entre 6,0 e 9,0.
Alguém poderá retrucar que o sabor da água que nos chega (quando chega) pela torneira é desagradável, não se compara com o da mineral. Bem, ela nos chega pronta para ser bebida (apesar do cloro, dúbio em seus efeitos) mas, para resolver isso, você poderá adquirir um filtro de barro, um daqueles que antigamente tínhamos em casa (custa menos de 50 reais um), apresentado por pesquisadores americanos como o mais eficiente de todos. Há também os filtros que você pode acoplar à torneira da cozinha e as velas e filtros de carvão ativado que são de extrema eficiência na eliminação de odores, bactérias, metais pesados e de cloro. Para alguém que esteja pensando “isso deve ser caro”, pense no quanto você economizará ao longo de um ano deixando de comprar água engarrafada.
Portanto, senhores e senhoras consumidores de H2O, juntem-se a mim, de algum modo, no combate a esse problema que afeta a todos. Se queremos continuar a consumir água mineral, passemos a ler os rótulos das que consumimos ainda que, para isso, tenhamos que adquirir uma lupa; exijamos que ela seja trazida em condições ideais da fonte até o estabelecimento comercial e do estabelecimento comercial até nossa casa. Afinal, é a nossa saúde e a daqueles a quem somos fiéis até debaixo d’água que está em jogo.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O ÓDIO À POLÍTICA - Gilberto Cardoso dos Santos

Ensinaram-me, quando adolescente, que  deveria manter-me longe das discussões políticas. É provável que o leitor também, alguma vez, tenha sido incitado a não se meter em controvérsias partidárias. Eu e você já nos cansamos de ouvir muitos que,  manifestando profundo asco, dizem: “Odeio política!”
De fato, quando pensamos nos desmandos comuns às três esferas  do poder, somos possuídos pela indignação. As muitas decepções que tivemos sempre que apostamos neste ou naquele candidato, leva-nos a olhar com asco para a política. Todos “são farinha do mesmo saco”, como bem metaforiza a sabedoria popular.  A expressão bíblica “não há um justo, nenhum sequer”, tirada de seu contexto,  parece perfeitamente aplicável ao mundo da política. Pensar em política, para a maioria, é pensar em hipocrisia, em corrupção, em bandalheiras, em injustiça social, em mentiras. A palavra POLÍTICA fica ao nível de termos que provocam ojeriza.
No entanto, quando bem se analisa, percebe-se que ninguém, de fato, odeia a política. Odeia-se, sim, os maus políticos, as tramóias partidárias, as medidas tomadas ao arrepio da lei, as inomináveis flexões que são feitas a artigos constitucionais para garantir a impunidade de apadrinhados.  Odeia-se, em suma, a politicalha e jamais a política. O homem, como observou o filósofo  Aristóteles, é um ser político e social. A vida em sociedade exige-lhe ter tal característica. Rui Barbosa, no célebre texto em que busca diferenciar política de politicalha, afirma: “A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis”.  Já a politicalha, diz ele, “é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis.”
Quem discordará e se oporá a tais definições? Quando falamos mal do jogo sujo, dos conchavos partidários, do desvio de verbas e do riso hipócrita daqueles que só nos buscam em tempo de campanha, é de politicalha que estamos falando. Sabe a raiva que eu e você sentimos  daqueles que retiram o voto para que determinada CPI não ocorra, e isto por causa de pressões daqueles que, no passado, já foram exemplo de moralidade? É de politicalha que estamos tratando aqui, não de política. Quando vemos baixarias nos debates públicos, é politicalha o que estamos vendo.
A política, na verdade, beneficia a todos e se faz imprescindível à vida em sociedade. O problema é que fomos induzidos a misturar o genuíno com o falso, a confundir a verdade com a mentira, a reagir negativamente, como numa experiência pavloviana, a tudo que esteja relacionado a tal termo, devido tanto e tanto convivermos  com a politicalha. Mantenhamos a política ao menos como ideal utópico, inatingível em seu sentido absoluto mas em parte alcançável. Sufixemos, com letras garrafais e em negrito , tudo que seja  classificado como política mas que bem mereça rimar com tralha. Busquemos, como sugeriu Rui, contribuir para a higienização do país, do estado e da comunidade, praticando e promovendo a verdadeira política. Nada de odiá-la. Nós sempre a amaremos, a desejaremos e precisaremos dela.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CONVÉM QUE ELE CRESÇA - Gilberto Cardoso dos Santos

Na Bíblia, um profeta se agiganta, arrasta multidões.
Mas alguém a quem  o visionário exalta  começa a crescer e a ofuscá-lo.

Amigos e seguidores  têm a sensação de que o novato está tentando passar a perna em seu guia. Buscam-no queixosos. - Desse jeito, mestre, teu trabalho vai de água abaixo - dizem, em outras palavras.

O profeta, ao invés de manifestar preocupação, replica:
- Convém que ele cresça e que eu diminua.

Choque para seus seguidores, repreensão para os  religiosos de hoje. 
Onde esta palavra é lida, dá-se o contrário: "Convém que ele diminua e que eu cresça".

Este "ele", pode referir-se ao Cristo ou àqueles em que o Cristo estaria.  Parceiros de fé. "Convém que eu brilhe mais no púlpito". "Quero que a verdade resplandeça, mas que seja por meu intermédio."

Se tal filosofia de vida  não poupa sequer os irmãos e se manifesta onde se crê que Deus esteja presente, é de se esperar que se estenda às relações políticas, familiares e de trabalho de tais pessoas. De fato, é o que vemos.

"Ah, incrédulos, sabei que não poupo sequer a meus irmãos, quanto mais a vós. Convém que eu cresça."

Na  máfia dos sanguessugas,  mais da metade da propina estava em mãos de parlamentares evangélicos. O sangue do cordeiro foi espezinhado. A mensagem era: "Convém que meu patrimônio cresça, não importa a que preço."

Púlpitos eletrônicos, mensagens diversas, mirabolantes. Todas, porém, com um só fim: Convém que as outras igrejas diminuam e a minha cresça. "Traidor!", gritou recentemente um famoso televangelista referindo-se ao rival que pagou o dobro para tomar seu espaço na mídia. Não se trata de conflitos entre frágeis ovelhas, mas briga de cachorro grande.

E o que dizer daqueles que eu e você conhecemos mais de perto - aqueles que se alimentam do sangue do próximo e se dizem cobertos pelo sangue sagrado?

Qual Rômulo e Remo, buscam as tetas da loba do poder e se dizem ovelhas; andam imponentes e risonhos, com um halo imaginário de santidade; são orgulhosos e indignos de confiança.

Na Bíblia deveriam constar mensagens opostas às que lemos, pois os religiosos costumam fazer exatamente o inverso do que ela ensina.

Decerto há exceções, mas quão raras são!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ACERTO DE CONTAS - Gilberto Cardoso dos Santos

Em busca de uma imagem para ilustrar este texto, encontrei a seguinte, seguida da explicação "POLÍCIA DIZ QUE FOI ACERTO DE CONTAS"

"Foi acerto de contas."
Com essa expressão, dá-se explicação para crimes praticados por jovens mal escolarizados, pouco hábeis com cálculos matemáticos, exterminadores de outros que não aprenderam a calcular bem as consequências de seus atos.
Acerto de contas? Pergunto-me. Que somas e multiplicações malucas são essas que resultam em subtração de vidas? Chama-se acerto ao que na prática é um desacerto.
Juros exorbitantes, decerto. Pagamentos imorais.
Essa ideia de "pagar" pelos erros com a própria vida é bem antiga. Tem raízes bíblicas. Se no passado foi fonte de tantos prejuízos para a humanidade, imagine hoje em que há tão grande inversão de valores e a vida vale tão pouco.
Quando se "acerta" uma conta passa-se de cobrador a devedor. E agora, como saudar o débito com a Justiça e com a família do que pagou à força, daquele que saudou a conta com o que tinha de mais precioso? Bem, contas vão sendo pagas e outras vão sendo criadas.
O "perdoai as nossa dívidas", criado para o cotidiano acerto de contas com Deus, precisa agora ser dirigido a seres humanos desumanos e autodivinizados (feitos deuses, digo, por se acharem no direito de dar cabo à vida).
Enquanto houver tais acertos, viveremos em meio a desacertos.
Tal matemática não é exata. O saldo devedor, quando debitado, sempre ficará aquém do resultado pretendido.
Tal expressão "acerto de conta", tem o dom de manter na calma a sociedade. "Foi acerto de contas? Ah, tá." A explicação é mais que suficiente. Cobradores e devedores que se entendam. Decerto havia droga na história... ah! com certeza. Briga de gangues. Era um ladrãozim. Tinha mais jeito não. Policiais em pequeno número, desvalorizados e despreparados para enfrentar a criminalidade crescente, tentam, sem perder a compostura, dar algum consolo aos familiares chorosos. No fundo, porém, suspiram aliviados com um a menos para lhes dar trabalho.
"Eles não somam", diriam alguns. São parcelas insignificantes. Todos têm consciência de que o resultado desta conta não está certo, mas os fins justificam os meios.
Desse modo, o descaso social, a corrupção política e a falta de investimentos vão permitindo a matemática macabra, deixando que vidas sejam subtraídas. De modo algum isso incomodará a sociedade, desde que no final se descubra que se tratou apenas de mais um acerto de contas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

IGREJA DA MATRIZ - Gilberto Cardoso dos Santos


Igreja da Matriz
reduto de crianças
oásis de esperanças
de um povo infeliz

Gigante imponente
dedão arquitetônico
mostrando-nos, lacônico,
um mundo diferente.

Destaque na paisagem
reinante em imponência
gerando reverência
num povo de passagem...

vão-se as gerações
e as gerações vindouras
no espaço que tu douras
te enchem de orações.

Jamais te faltarão
as vozes piedosas
de mulheres idosas
clamando em oração

Jamais há de faltar
o riso de garotos
ainda tenros brotos
entregues ao altar

a tua umidade
de lágrimas e batismos
fertiliza os abismos
da subjetividade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

PRESEPADAS DO CAPETA NO SHOW DA FÉ - G. C. dos Santos


       ORIGEM DA FOTO: BLOG DO WASHINGTON GERALDO CARDOSO


Eu, G.C. dos Santos, estive no Show da Fé de Romildo Ribeiro Soares, ocorrido em 2011 no Ginásio Marcílio Furtado. Como poderia deixar de ver, ainda que movido por curiosidade e não por fé, o show daquele que figurou nas páginas da Veja como o homem que mais aparece na TV e que, pela primeira vez, se achava entre nós? Visto de perto e sem o auxílio das estratégias de filmagem, pareceu-me menor e menos imponente.

Quando entrei, ele ainda não se achava no palco. Um outro pastor tentava estimular a generosidade dos fiéis vendendo dvds que falam da importância de contribuir com a obra de Deus, uma contribuição que gera contribuição. "Vinte reais", dizia ele, e gracejou: "Se você não tiver uma nota de vinte, não tem problema. Nós aceitamos duas de dez." Naquele clima de bom-humor, abriam-se os sorrisos e os bolsos.
Quando Romildo assumiu o palco, houve um verdadeiro frenesi. Esperto e já experimentado no contato com aqueles que o veem como um embaixador do céu, iniciou com uma seção de fotos para, em seguida, com os ânimos mais acalmados, iniciar sua conversa com a plateia. Conversa, digo, porque ele fala com todos como se falasse apenas com um. É de uma naturalidade impressionante. Com muita facilidade consegue penetrar nas almas e bolsos dos fieis.
Isto é o que entendidos em oratória chamam de técnica de dissolver multidões. Jesus a teria usado no episódio em que quiseram apedrejar

a pecadora. O indivíduo, antes de sentir-se parte do grupo, está a ouvir o missionário em tom quase confidencial, coloquial, como se fossem amigos há longo tempo, conversando a sós. Além disso, ele não cansa o ouvinte com sermões longos. Entre uma reflexão e outra, faz apelos de caráter financeiro.

Autoridades municipais estiveram presentes no palco com ele. Pediu que pusessem a mão na cabeça e ordenou em oração que todos seus pecados fossem perdoados; todas as enfermidades foram repreendidas; tumores receberam ordem para se retirar de imediato. Caso tenha valido a prece, saíram completamente limpos, reciclados, saudáveis, prontos para liderar o povo.

Mas algo triste, dissonante, ocorreu. Uma mulher endemoninhada começou a gritar e a esbravejar na entrada do ginásio. O missionário, ao invés de libertá-la, delegou a responsabilidade a obreiros locais. A atenção no ginásio ficou dividida entre o missionário e a possessa. Optei pela mulher, que se contorcia toda e rangia os dentes.
Em vão, pastores, obreiros e obreiras tentaram expulsar o intruso. Às vezes ele parecia sair - ou saía - mas logo retornava com todo gás. Fiquei bem próximo, acompanhando tudo. Não detectei qualquer sinal de fingimento na mulher. Se era farsa, estávamos diante de uma atriz perfeita, digna da Record. Parecia algo bem real. Vi o suor escorrendo dos obreiros e obreiras, a humilhação diante da multidão, a ineficácia de suas preces e gritos. Uma obreira da Assembléia gritou a plenos pulmões no ouvido da mulher, mas o demônio parecia surdo.
A indiferença de Romildo diante daquela cena grotesca também me chamou a atenção. Pôs-se a cantar com a multidão, como a querer abafar os sonidos horrorosos que a possessa emitia. Não pediu que a trouxessem até ele nem foi ao seu encontro. O tempo se arrastava e o milagre não acontecia. Romildo pediu que fechassem os olhos enquanto um outro pastor oraria e, como sempre ocorre em suas palestras, saiu de fininho do palco durante a oração. Quando os irmãos disseram amém e abriram os olhos, o homem havia desaparecido!

Uma criança, filha desta mulher, chorava em meio ao burburinho. Doeu-me ver tudo aquilo, a mulher exposta ao ridículo, às vezes semidesnuda, jogada ao solo, protagonizando um vexame que parecia interminável.
Como já passasse do meio-dia, precisei retirar-me. Saí, mas o demônio ficou.

Na manhã seguinte, encontrei um ex-gay, hoje convertido ao pentecostalismo, que estivera no evento, e troquei com ele algumas palavras:
- O que achou do culto de ontem?

- A-do-rei! Foi uma ma-ra-vi-lha! O missionário tem muita unção, não é?
- (...) E o demônio que estava naquela mulher, saiu?
- Saiu não, professor. Quer dizer... saía, mas voltava. Eu acho que aquela mulher já esteve envolvida com catimbó, tem o corpo preso. Antes de ser crente tem que levar ela no centro espírita pra quebrar as correntes.
Depois vi na TV, no canal da denominação, a gravação desse culto. Quantas bênçãos foram mostradas! Naturalmente não iriam passar tudo que ali ocorreu, mas só o que interessava à fé.
Uma das coisas que gostaria de ter visto e não ví foi esse episódio com a endemoninhada.