segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A NADA FÁCIL ARTE DE EDUCAR - Gilberto Cardoso dos Santos


A NADA FÁCIL ARTE DE EDUCAR - Gilberto Cardoso dos Santos


Vi uma entrevista de um famoso pianista, cantor e compositor americano, concedida a Amaury Júnior. 

Foi perguntado ao sexagenário artista a quais pessoas ele agradecia por tão bem sucedida carreira. Sua resposta foi curta, sem titubeios: “Agradeço a minha mãe”.

Ante o aparente espanto do entrevistador, explicou: “Minha mãe me botava pra praticar, praticar, praticar... Eu odiava aquilo, detestava música! Mas ela insistia pra que praticasse ao piano. Se não fosse por ela eu não estaria aqui sendo entrevistado por você, não teríamos o que conversar. Talvez hoje eu trabalhasse numa loja de roupas, seria qualquer outra coisa... Portanto, tudo que sou devo a ela”.

Aquela entrevista, assistida por acaso, deixou-me pensativo sobre a difícil arte de educar. Qual o limite entre o não e o sim, pergunto-me. Até que ponto, devemos considerar os desejos, a felicidade imediata, disposições e indisposições de nossos filhos naquela idade em que o que mais importa é a diversão? Seria o correto, como fez aquela mãe, desagradar no presente para produzir um bem futuro? Teria hoje ele tão reverente sentimento de gratidão (observem que não citou ninguém, além dela!) caso ela o tivesse deixado à vontade e tivesse dito “Está bem, filho, se não quer fazer os exercícios, não tem problema”? 

Creio que através da disciplina – amarga naquele momento - aquela mãe o conduziu à autodisciplina. Consequentemente, esmerou-se na arte de tocar. Entre os momentos áureos de sua carreira, consta o dia em que tocou para o presidente Barack Obama.

Que orgulho daquela genitora ao longo da vida ao ver seu bebezão brilhando nos palcos, hiper feliz e bem sucedido! Será que valeu a pena para aquela mãe ser odiada durante o período em que insistia com o filho? Doía imaginar que em seu íntimo o filho a adjetivava de CHATA, mas aquela mãe diria que SIM, valeu a pena!

Será que valeu a pena sacrificar parte da infância para submeter-se aos desejos da mãe? O pianista responderia SIM, indubitavelmente. Para Rosely Sayão, famosa psicóloga, "Educar pressupõe sempre desagradar à criança".Todavia, não dá para ser taxativo, não há uma receita única. Qual nível de chatice se mostrará benéfico à criança? Em que medida e em que áreas deveríamos ser democráticos? Decerto é inspirador o testemunho do pianista  e com certeza útil a quem mima em excesso. Mas cada ser é único, cada caso é um caso. O que funciona com um pode não dar certo com outro. 

domingo, 6 de agosto de 2017

A ALA VIP DO FESTIVAL (Gilberto Cardoso dos Santos)



A ALA VIP DO FESTIVAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

Construíram um curral vip
Lá em Serra de São Bento
Um bom trabalho de equipe
Que visa o afastamento
Da alta sociedade
Decerto uma novidade
Que trouxe constrangimento.

Visando, sim, o sossego
De quem possui cartão VISA
Ou MASTER, sem muito apego
Que de destaque precisa
A astúcia empresarial
No espaço municipal
Ao status improvisa.

No festival de Inverno
Da bela cidadezinha
Gente de gravata e terno
Que anda dentro da linha
Poderia, sossegada,
Beber bebida importada
Longe de quem nada tinha.

Claro que deve ser chato
Ver um e outro chegando
Pessoas sem fino trato
De você se aproximando
Pra pedir ou pra roubar
Por isso é bom se isolar
Mesmo que caro pagando.

Há quem critique quem fez
Mas há quem ache normal
Neste mundo só têm vez
Os donos do capital.
Ache bom ou ache ruim
Em todo canto é assim
Há divisão social.

Afinal, a insegurança
Leva ao isolamento
Quem muito tem na poupança
Quer melhor atendimento
Um tratamento mais terno
No Festival de Inverno
Lá de Serra de São Bento.

Nada contra ou a favor
Mas muito pelo contrário
Determina-se o valor
Pelo fator monetário
Acontece em todo canto
Não deve causar espanto
A quem só ganha um salário.

Eu se for de fora fico
Porém vou juntar dinheiro
Quero dar uma de rico
Neste lugar prazenteiro
Retirarei da maleta
Uma expressiva gorjeta

Pro garçom hospitaleiro.

sábado, 1 de julho de 2017

PRECE AO DEUS DOS BRASILEIROS - Gilberto Cardoso dos Santos



PRECE AO DEUS DOS BRASILEIROS
(Gilberto Cardoso dos Santos (gcarsantos@gmail.com)


Senhor Deus dos enganados! 
Desperta-nos, Jesus Cristo!
É sonho ou realidade
Tanto horror que temos visto?!
Juízes, feito monarcas
Sugam as riquezas parcas
Da explorada nação
Repulsivas são as ondas
Que nos chegam hediondas
Do mar da corrupção.

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizem que és brasileiro
Temos bancada evangélica
Teu nome está no dinheiro
Com a mão na Bíblia Sagrada
Juram que não farão nada
Contra a Constituição
Mas é tudo hipocrisia
Teu nome lhes propicia
Domínio e ostentação.

Senhor Deus dos castigados
Pelo próprio egoísmo!
Na política demonstramos
Nosso analfabetismo
Tu, que te indignaste
E do templo expulsaste
Mercenários, vendilhões
Varre nossa consciência
Dá-nos luz e mais prudência
Em tempo de eleições!

Senhor dos desenganados
Milhões de vezes traídos!
Com paciência de Jó
Temos sido oprimidos
Em um beco sem saída
A nação desfalecida
Não enfrenta o opressor.
Põe de pé os derrubados
Que acham que estão deitados
Em berço de esplendor!

Santa Cruz, 01/07/2017


terça-feira, 30 de maio de 2017

A ingratidão no banco (dos réus) - Gilberto Cardoso dos Santos



A ingratidão no banco (dos réus)

Vez por outra algo inesperado acontece e quebra nossa rotina, leva-nos a reações inesperadas. Hoje, por exemplo, quando ia saindo do banco – assustado com a onda de violência que assola o país - fui abordado por uma bela mulher que assim me abordou:
- Ei, psiu! 
Como não é todo dia que uma mulher nos dá psiu, retornei solícito para saber o que ela queria.
-Esse celular é seu? - completou ela. E exibiu um aparelho de tamanho médio. Não dava para saber se era top de linha, mas era um celular.
Tão atrativo era o aparelho que, apesar da capa cor-de-rosa, fiquei em dúvida se seria meu ou não. O fato é que é que eu havia deixado o meu em casa tomando carga e isso não me deixava alternativas.
Após pequena pausa e grande relutância, respondi que não era meu. E a jovem senhora, com o celular erguido como quem faria uma self, indagou em voz alta aos demais:
- Alguém aí é dono deste celular?
E nada de o dono ou dona aparecer; alguns menearam a cabeça negativamente e outros responderam com um monossilábico e relutante não. Mas ela insistiu na pergunta e finalmente uma respondeu ao longe:
- É meu!
Enquanto a suposta dona se aproximava, olhei para a mulher, aproximei-me dela e disse:
- Ei, minha senhora, parabéns pelo que fez! Outros não teriam tido essa preocupação que teve ou simplesmente teriam levado o celular “perdido”. Você mostrou claramente que é uma pessoa do bem, honesta e digna de toda admiração.
Ela surpreendeu-se com o elogio e sorriu. Finalmente, uma senhora magra puxando uma criança aproximou-se, estirou a mão e disse: - Sim! É meu!
A mulher entregou o celular, mas a dona não correspondeu às expectativas - pelo menos às minhas. Não expressou qualquer sinal de agradecimento. Afastou-se visivelmente irritada.
Saí do banco insatisfeito com o desfecho da história. A dona do celular saiu também em seguida, com aspecto transtornado, arrastando a filha.
Mesmo sem conhecê-la, perguntei-lhe o óbvio: - A mulher achou seu celular, não foi?
Respondeu ela:
- Sim, era meu. Foi a abestalhada dessa menina que deixou na mesinha. Parece que é doida, não presta atenção no que faz!
Disse isto e olhou enfurecida para a criança que ainda não completara uma década de vida.
Atrevidamente, perguntei-lhe:
- A senhora agradeceu à mulher?
Ela mostrou-se surpresa com a pergunta, deu uma travada nos movimentos faciais e após breve pausa disse-me que não. Tinha ficado tão agitada na hora que nem se lembrou de agradecer. E deu mostras de querer ir embora.
Como aparentava estar cônscia de seu erro, fui injuntivo:
- Volte lá; procure-a e agradeça pelo que ela fez.
- Ela parou, pareceu refletir, acatou minha “ordem” e disse:
- É mesmo, né? Eu vou lá.
Foi, mas parou ao pé da calçada do banco, justificando-se:
- Eu acho que não vou não. Nem prestei atenção nela. Não sei mais quem é.
Insisti, acossado por um zelo moral que não me é peculiar:
- Vá assim mesmo; pergunte aos que estão no banco; procure. É tão raro alguém fazer o que ela fez... Outro simplesmente teria pegado seu celular e levado. Pessoas assim merecem ser elogiadas.
E foi assim que ela, constrangidamente decidida, retornou ao banco com a menininha para agradecer.
Não fiquei para ver o desfecho que induzira. Saí dali imaginando que fizera a coisa certa e meditando na importância que a gratidão tem em nossas vidas, em seu potencial para promover o bem.
As pessoas têm fome de reconhecimento e merecem ser elogiadas principalmente quando procedem com altruísmo. É o mínimo que se pode dar a alguém que procede eticamente: um elogio.
Enquanto prosseguia e meditava nestas coisas, senti-me beliscado por uma dúvida: Por que será que a mulher perguntou justamente a mim se aquele celular de capa cor-de-rosa era meu? Será que achou que eu era gay? Mas afastei esta ideia boba e pus-me a meditar na cena daquela mulher chicoteando verbalmente a menininha; pensei na propensão que temos para a crítica; pomos ênfase nas reprovações e somos omissos na expressão de bons sentimentos.
Demonstrações de gratidão fazem bem não apenas a quem as recebe; quando escancaramos a porta para este sentimento, somos felizes. Louvar, elogiar, agradecer, são verbos que fazem muito bem. Quando buscamos razões para agradecer, vemos o lado otimista das coisas e assim, pensando positivamente, afugentamos sensações negativas. Para nós e para quem louvamos, a felicidade mostra-se mútua.
Quando em casa, resolvi por em prática o que ensinara à mulher. Mal cruzei o portão, elogiei à esposa pela arrumação da casa.
- É muito bom ter uma companheira como você: tão limpa, tão organizada, tão ciosa de suas coisas. Se eu fosse uma visita, ficaria encantado em entrar aqui.
Ela sorriu, mas a la Mona Lisa, meio enigmática.
Tomei banho e fui à mesa, almoçar. Taquei outro elogio:
- My love, é muito bom chegar em casa e encontrar a mesa tão belamente arrumada; uma comida com este visual. Bem-aventurado é o homem que tem uma esposa como você.
A mulher não resistiu:
- Me diga uma coisa, o que foi que você andou aprontando por aí? Por que você está me dizendo isso? Você não é assim! Você está agindo como marido quando apronta alguma coisa lá fora. Desembucha aí, o que você andou aprontando?
Não foi nada fácil convencê-la, e o almoço não transcorreu como planejei. Acabamos em uma leve rusga, mas valeu a pena. Ela estava certa em estranhar, pois aquilo não era comum no dia a dia!
Bem, se você perguntar a ela se isso de fato aconteceu, penso que vá negar e talvez esteja falando a verdade. Portanto, deixe pra lá sua curiosidade e contente-se com a lição. Como disse Esopo, “A gratidão é a virtude das almas nobres. Tentemos, a partir de hoje, seguir o conselho de Masaharu Taniguch: “Expresse gratidão com palavras e atitudes. Sua vida mudará muito de modo positivo.”


Vamos lá! Mãos e palavras à obra.

sábado, 8 de abril de 2017

A IMPORTÂNCIA DA MULHER EM OITAVÃO REBATIDO - Zé Ferreira e Gilberto Cardoso dos Santos


ZF

Caro Gilberto Cardoso
Você que é entendido
É poeta talentoso
E parece destemido
Peleja não repudio
Vim mexer com o seu brio
Lhe fazendo desafio
No oitavão rebatido.

GC

Poeta, estou por um fio
E sou um frouxo assumido
Um fumegante pavio
Um peito velho caído
O seu dom muito admiro
E nele até me inspiro
Mas não vou dar nenhum tiro
Neste oitavão rebatido.

ZF

A você eu me refiro
como um poeta aguerrido
Eu disse e nada retiro
Seu verso é bem conhecido
Deixe desse lenga-lenga
Esqueça um pouco de quenga
Vamos entrar na pendenga
Do oitavão rebatido.

GC

Voltemos nossa pendenga
Para um tema preferido
Poetizar uma arenga
Pra mim faz pouco sentido
Vamos meter a colher
Num tema bom, que é mulher
E seja o que deus quiser
Neste oitavão rebatido.

ZF

Seja como lhe aprouver
Pois no tema sugerido
Versar pra mim é mister
Pois nele estou imbuído
Começo no paraíso
Adão triste e indeciso
A mulher foi seu sorriso
No oitavão rebatido.

GC

Um mistério eu diviso
Jamais por mim entendido
Macho e fêmea foi preciso
Neste mundo evoluído
Um no outro se completa
Como o alvo e a seta
E assim nasce o poeta
Do Oitavão rebatido.

ZF

Mulher, essência dileta
Onde o poeta é nutrido
E no seu seio se aquieta
Logo depois de parido.
Só vive se amamentado
Só cresce se for cuidado
Só glosa nela inspirado
No Oitavão rebatido.

GC

Mulher é bicho sagrado
Que tem papel definido
O instinto que lhe foi dado
Torna o mundo colorido
Feito força do demônio
Pulsa no homem o hormônio
Que o leva ao matrimônio
No oitavão rebatido.

ZF

Qual gama de feromônio
Deixando o outro atraído,
Ocupa cada neurônio
Tira e dá o sentido.
De Deus é a melhor tela
Nesse mundo de procela
Só vivo por causa dela
No Oitavão rebatido.

GC

De fato uma mulher bela
Tem um poder desmedido
A nossa vida enovela
Alvo nos faz de Cupido.
É a força da natureza
Que nos atrai com beleza
Domina com sutileza
No oitavão rebatido.

ZF

A mulher é fortaleza,
É regaço pretendido
É pão que farta a mesa
É também jardim florido.
É conselho e é prudência
É amor e indulgência
Garra, labor, competência
No Oitavão rebatido.

GC

Não somente a aparência
Conta em um bom partido
Também a resiliência
E certo sexto sentido
Centuplicam seu valor
Fortalecem nosso amor
E a vida ganha esplendor
No oitavão rebatido.

ZF

A mulher tem meu louvor
Dela sou fã incontido
É o sal que dá sabor,
Música para o ouvido.
Quando ela está no meio
Se acaba o aperreio
Embeleza o que é feio
No oitavão rebatido

GC

Na Bíblia Sagrada leio
Que Davi, o escolhido
Diversas mulheres veio
A ter, por Deus permitido.
Ele, que matou Golias,
Entregue a muitas orgias
Quis a mulher de Urias
No oitavão rebatido.

ZF

É certo que as marias
Têm, na historia, influído
De sequela e avarias
Nada ficou esquecido
Eva, Dalila e Helena
Betsabah, Madalena
Médici , Ana Bolena
No oitavão rebatido.

GC

Catarina de Siena
Controlou sua libido
E se deu de forma plena
A Jesus, noivo querido.
Santa Rita até casou
Porém viúva ficou
E a Jesus se entregou
No oitavão rebatido.

ZF

Maria Stuart reinou
Logo após ter nascido
Margaret governou
Com firmeza o Reino Unido
Outros feitos se inclua
Valentina "foi à lua"
Marilyn Monroe posa nua
No Oitavão rebatido.

GC

Marilyn, cruzando a rua
Teve seu vestido erguido
A sua barra flutua
Pelo vento é impelido
Famosa, a fotografia,
Ao divórcio levaria
Por milhões se venderia
No oitavão rebatido.

ZF

O rol, no Brasil, diria
Das beldades é comprido
Citar até gostaria
Mas deixo subentendido.
Mulher brasileira é linda
Inteligente e ainda
Tem talento que não finda
No Oitavão rebatido.

GC

Temos Elisa Lucinda
Que me deixa seduzido
É poetisa e nos brinda
Com um olhar atrevido
Na Itália Cicciolina
A quem nosso olhar bolina
À distância nos fascina
No oitavão rebatido.

ZF

Agradeço à mão divina
Por ter, a mulher, tecido
E, do homem, a pobre sina
Ter, com ela, enriquecido.
Sem a mulher, vejo o mundo
como um poço sem fundo
Onde não fico um segundo
No oitavão rebatido.

GC

O velhinho moribundo
Sente-se fortalecido
E lança um olhar profundo
Ao ver um peito crescido
Um atrativo traseiro
E oferece dinheiro
Somente pra dar um cheiro
No oitavão rebatido.

ZF

Tem homem interesseiro
De intento pervertido
Vendo a mulher, por inteiro,
Com um olhar distorcido
Elas  não são objeto
Carecem só de afeto
Desejam família e teto
No oitavão rebatido.

GC

A mulher é um projeto
Poético incompreendido
É um poema completo
Soneto bem construído.
À humanidade transcende
No homem uma chama acende
A ela o meu ser se rende
No oitavão rebatido.

ZF

No salto ela ascende
E o pódio é garantido
Que meu verso a referende,
Leve o respeito devido.
Na sala, cozinha ou cama
Foi mulher a gente ama
Glosa pra ela e declama
No oitavão rebatido.

GC

Lady Di, famosa dama
Agitou o Reino Unido
Protagonizou um drama
Largamente difundido
De teor passional
O seu charme foi fatal
Para a Família Real
No oitavão rebatido.

ZF

No tema fenomenal
Aqui tão bem discutido
Chego ao trecho final
Sem havê-lo exaurido.
Dessa singela abordagem
Levo uma bela imagem
E deixo minha homenagem
No oitavão rebatido.

GC

Fizemos uma viagem
Com tema predefinido
Transmitindo uma mensagem
Que deixa o ser comovido
Nestas estrofes pensamos
Naquelas que mais amamos
E o tema não esgotamos
Neste oitavão rebatido.

ZF
  
E por aqui nós ficamos.
Espero termos cumprido,
Nas estrofes que deixamos,
O ideal pretendido.
Grande poeta Gilberto
A sua mão eu aperto
Prazer em tê-lo, decerto
Nesse oitavão rebatido.

GC

Estas estrofes oferto
A todas que nos têm lido
Sem sentimento encoberto
Também fico agradecido
Ao poeta Zé Ferreira
Que atapetou a ladeira
Para a mulher brasileira
Neste oitavão rebatido.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Resenha da Antologia O CORDEL DA NOSSA GENTE (Gilberto Cardoso dos Santos)




Livro: Antologia O CORDEL DA NOSSA GENTE
Organizadores e revisores: Francisco Queiroz, José Acaci e Marcos Medeiros (Membros da ANLiC)
Gênero: Cordel (Antologia)
Edição: Offset Gráfica e Editora - 2017
Páginas: 133

A antologia O CORDEL DA NOSSA GENTE, do qual tive a honra de participar com mais 30 autores, surpreendeu-me positivamente. A ANLiC (Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel), caprichou na filtragem que fez de conteúdos e nos aspectos gráficos da obra. A diversidade de temas abordados, os estilos, a maestria de textos que perfeitamente atendem aos requisitos de “rima, métrica e oração”, tem potencial de agradar a todos os amantes do gênero. Trata-se de 31 cordéis, representativos da feição que adquiriu nos dias atuais - escritos por autores preocupados em adaptá-los aos novos tempos sem descuidar dos aspectos essenciais ao gênero, estabelecidos pela tradição. Trata-se, de fato, como sinaliza o titulo, do cordel de nossa gente.
A seguir, uma breve análise de cada um dos poemas que compõem esta obra, de acordo com a ordem em que aparecem no livro:

CARNAVAL EM CORDEL (Adilson Costa – Recife/ PE). Este é o primeiro cordel da antologia. Nele, o autor tem como tema o carnaval em seu estado (PE) e no restante do país. O eu poético, como em passes de magia, parece transitar livremente de uma expressão carnavalesca a outra, nos principais estados brasileiros.  É um cordel que expõe os encantos desta festividade nacional, apresentada sob uma ótica positiva. Nele, o autor não se;  limita a descrever, mas entremeia seu texto com percepções poéticas bastante lúcidas e traça paralelos entre a literatura de cordel e o carnaval.

O CANDIDATO (Agostinho Santos – Caicó/RN). O segundo cordel traz como tema a politicalha brasileira. De forma bem-humorada, o autor apresenta o que ocorre durante as campanhas – as estratégias utilizadas para enganar o eleitor. Aliás, cada estrofe inicia-se com o verso: “Quando é tempo de eleições”.

AS AVENTURAS DE TINA - A borboletinha feliz (Carlos Aires – Bezerros – PE). Trata-se de um cordel com temática voltada para a infância, endereçado às crianças, mas com potencial de despertar o interesse dos adultos, pois nele uma simpática borboletinha nos conta sua história de maneira cativante e nela podemos vislumbrar reflexos de nossa própria vida.

HEPATITE B, UM INIMIGO SILENCIOSO (Cláudia Borges – São Vicente/RN), de modo bem humorado, valendo-se de algumas expressões bem nossas e de uma didática brilhante, a autora busca conscientizar o leitor sobre os riscos que todos corremos quanto à Hepatite B. Trata-se de uma aula, mas de uma aula bem dada, com graça e leveza.

CARIRI DE “A” A “Z” – AS BELEZAS DO CARIRI PARAIBANO (Clotilde Tavares – Campina Grande/PB). Neste cordel, a autora expressa todo carinho que sente pela região onde nasceu; fala de suas origens culturais e familiares. Embora trate de aspectos geográficos e históricos do Cariri, a autora a isto não se limita: sua descrição transita entre o real e o imaginário. Do amor pela paisagem e cultura do Cariri, brota a força poética com que ela retrata lugares e personagens que se mantêm vivos em sua mente.

A CONTADORA DE HISTÓRIA E O CANARINHO CINZENTO – (Dalinha Catunda – Ipueiras/CE). Com habilidade, a poetisa entrelaça duas narrativas, a de um pássaro e a de sua tia, contadora de histórias. Trata-se de um gracioso e comovente cordel, capaz de prender a atenção de crianças e adultos.

SEMEIE BONS ATOS, FAÇA O SEU LUGAR MELHOR (Edcarlos Medeiros – Caicó/RN). Neste cordel, o poeta expõe, através de um sonho, a receita para que a vida em sociedade seja mais harmoniosa. O autor nos faz ver, com magistrais pinceladas poéticas, que nos aproximaremos mais e mais desse ideal à medida que nos fizermos sujeitos dessas transformações. Um cordel ideal para incentivar o exercício da cidadania.

AS AVENTURAS DE TILINO – Iniciação do Atirador de Baladeira (Francisco das Chagas – Pendências/RN). Com admirável habilidade, o autor descreve como se davam e ainda se dão as caçadas de baladeira no interior nordestino, através da narrativa de vida de Tilino, aprendiz do ofício. Trata-se de um cordel cuja leitura envolve o leitor do começo ao fim e o deixa com vontade de que o relato não termine ali.

XICO SANTEIRO (Gélson Pessoa – Santo Antônio do Salto da Onça/RN). Como grande divulgador da cultura popular, o poeta Gélson Pessoa escolheu um excelente nome para ser biografado. Com habilidade, o poeta nos apresenta a vida de um ilustre potiguar, mundialmente conhecido por suas habilidades na arte de esculpir. Sem dúvida, todo nordestino deveria conhecer a história deste potiguar brilhante e Gélson, ao optar por este tema, dá um importante passo que isso aconteça.

TEMPO DE FELIZ NATAL (Geni Milanez – Cerro Corá/RN). Um dos objetivos da literatura de cordel é o de registrar o modo de pensar próprio do povo – outro modo de interpretar o “da nossa gente” no título da obra. A autora, como legítima representante do Nordeste e da cultura cristã, tece belas reflexões a respeito desta que é a principal festa da cristandade.

LEMBRANÇAS (Geraldo Ribeiro Tavares -  Cajazeiras/PB). Neste cordel autobiográfico, o poeta nos conduz em seus devaneios poéticos sem preocupações com datas ou aspectos geográficos. Numa feliz escolha, o que lhe interessa é apresentar a essência do que viveu – sensações perdas e ganhos - e refletir sobre o sentido de sua existência.

A VINGANÇA DO POETA (Gilberto Cardoso dos Santos – Cuité/PB). Este cordel baseia-se em uma experiência tragicômica, vivenciada por mim e pelo poeta-cantador Hélio Crisanto. O leitor ligado às artes dificilmente não se identificará com a situação vivida. Trata-se de um cordel com potencial de provocar risos e necessárias reflexões sobre a (des)valorização do artista.

O FLAUTISTA ENCANTADO NO CONGRESSO NACIONAL – (Hélio Alexandre – Caicó/RN). O conto folclórico O flautista de Hamelin, mundialmente conhecido e tantas vezes reescrito, serve de base para a fábula produzia por Hélio Alexandre. Esta história fantástica, inteligentemente escrita, tem como protagonistas um flautista nordestino, dois repentistas, um vaqueiro aboiador e o famoso cordelista Antônio Francisco - imbuídos da missão de livrar a nação brasileira dos verdadeiros ratos, bem mais nocivos que os de Hamelin. Trata-se de uma crítica política bem tecida em versos que merecem leitura e releitura.

A HISTÓRIA DA ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LITERATURA DE CORDEL – Da ideia à fundação (Hélio Gomes Soares – Brejo de Areia – PB). Feliz foi a escolha feita pelo poeta ao optar por este tema. Ninguém melhor que ele – idealizador da ANLiC – para nos falar sobre esta instituição. Sem meias verdades, o autor nos apresenta os altos e baixos do processo de formação da academia e de sua importância para a cultura popular no Rio Grande do Norte. Trata-se de um relato bem feito, útil a todos que se interessam pelo cordel.

FORRÓ, NORDESTE E SÃO JOÃO (Hélio Pedro – Caicó/RN). Neste cordel, o autor discorre em setilhas bem construídas sobre duas tradições próprias e imbricadas da cultura nordestina. São-nos apresentadas as tradições e descritas crendices próprias das festividades juninas, tão influenciadas pela cultura judaico-cristã.

MOMENTOS DO POETA (Ivaldo Batista – Carpina/PE). Neste cordel, o poeta Ivaldo nos presenteia com divagações poéticas preciosas. De fato, como anunciado no título, cada estrofe representa um momento que, como caco de um mosaico, se junta ao todo e forma um belo quadro.

O POETA E O COQUEIRO, E A PAISAGEM DA SERRA ( Xexéu – Santo Antônio do Salto da Onça/RN). Com a habilidade que lhe é peculiar, o poeta se aventura em sextilhas cujos versos ultrapassam a fronteira das sete sílabas. De forma magistral, expõe suas reminiscências, desenha a paisagem com frases bem escolhidas, eivadas de poesia.

AS AVENTURAS DO REI BARIBÊ – ADAPTAÇÃO DE CONTO DE MALBA TAHAN (Joaquim Furtado – Fortaleza/CE). Fugindo à constatação de que “quem conta um ponto aumenta um ponto”, o autor nos brinda com uma belíssima história, oriunda da cultura árabe. Se em nada altera a narrativa, faz com que o conto ganhe em beleza, pois com precisão o adaptou às regras do cordel.

A ÁRVORE DA VIDA (José Acaci – (Macaíba/RN). Neste cordel duplamente fabuloso, Acaci nos conta a história de um poeta que, posto frente à necessidade de tomar decisões para toda a vida, fez escolha errada das opções que lhe foram oferecidas e colheu frutos amargos. Trata-se de um alerta acerca do perigo de se viver uma vida vazia, em função da aquisição de bens materiais, e de um alerta àqueles que vivem da arte e muitas vezes se deixam levar pela ambição e sacrificam seus dons no altar do mercenarismo.

A VIDA DO AGRICULTOR SEM-TERRA (Josenira Fraga – Guaramiranga/CE). Neste belo cordel, ouvimos a voz de um agricultor que nos fala de suas venturas e desventuras nas mãos de patrões exploradores. Retrata com clareza e encanto a situação do homem do campo, desassistido pela elite governante, vítima de coronéis inescrupulosos.

ÁGUA, - IMPORTÂNCIA, CONSUMO E DESPERDÍCIO (Juarez Araújo – Osasco/SP). Como o título deixa entrever, trata-se de um cordel que visa conscientizar acerca do desperdício de água em uma época em que a natureza tem sido vilipendiada pela ganância e desrespeito do homem aos recursos naturais. Ao longo do cordel, dicas são fornecidas sobre como evitar o uso indevido da água. Trata-se de um apelo poético digno de ocupar espaço nos conteúdos escolares.

SERTÃO MAGIA (Manoel Dantas – Caicó/RN). Neste texto encantador, o autor nos apresenta diferentes imagens e percepções próprias do sertão. As estrofes, aparentemente soltas, vão se juntando e formando um belo quadro, como uma colcha de retalhos bem tecida. Real e imaginário se entrelaçam nas estrofes e o resultado é positivo.

ABC DE EDUARDO CAMPOS (Marciano Medeiros – Santo Antônio/RN). Neste cordel esteticamente bem construído, o poeta Marciano, fiel às raízes do gênero, conta-nos a história de uma importante figura política do Nordeste, de grande impacto nas decisões nacionais e que quase chegou à presidência. Sua trajetória pessoal e política, bem como seu trágico fim, nos são contados com fidelidade em estrofes cuja primeira letra do verso inicial sempre corresponde à sequência do alfabeto.

DONA CORA E SEU BORÉ, UM CASAL FEITO NA FÉ (Marcos Medeiros – Natal/RN) O cordel de Marcos Medeiros traz-nos a bela história de um casamento bem sucedido, fundamentado na fé e na perseverança. Trata-se de um exemplo de união digno de ser propagado, que se contrapõe a esta época de “amores líquidos”, de relações flexíveis e pouco duráveis.

SOBRE SUSTENTABILIDADE (Moreira de Acopiara – Acopiara/CE). Neste admirável poema, o autor expõe a dimensão ética da sustentabilidade. Conforme explica, sustentabilidade abrange todos os aspectos da vida e a reciclagem, tão essencial em nossos dias, deve começar pelo ser humano. Cordel digno de ser levado às escolas de todo o país.

A POLÍTICA BRASILEIRA NO SÉCULO XXI (Rosa Regis – Mamanguape/PB). Trata-se de uma bela dissertação em versos sobre o caos políticos que todos vivenciamos. A autora reflete sobre os escândalos na política nacional e busca conscientizar o (e)leitor acerca da necessidade de escolher bem em quem votar para que de fato possamos ver o Brasil renovado. 

SERTÃO DA POESIA: VIVÊNCIAS E INSPIRAÇÕES DE PATATIVA DO ASSARÉ (Sírlia Lima – Mossoró/RN). Feliz foi a escolha feita pela cordelista - a de versejar sobre a vida de Patativa do Assaré, ícone da cultura popular e poeta-modelo. Em linguagem acessível, são-nos apresentados os principais fatos da vida deste legítimo representante do povo, cuja fama ganhou repercussão internacional.

A PELEJA DA AGULHA E DA LINHA - Um apólogo de Machado de Assis (Stélio Torquato – Fortaleza/CE). Ao transpor para o gênero cordel o famoso apólogo machadiano, o poeta optou por costurar bem os versos – nenhum fica sem rima – e o fez de modo brilhante. Se já era bom lê-lo na prosa afiada de Machado, melhor ainda agora, concatenado em versos bem construídos.

UM CANGUARETAMENSE FELIZ (Tamires Macena – Canguaretama/RN). Em estrofes autobiográficas, o autor mostra-se grato pela passagem de mais um aniversário que parece ocorrer num momento importante para os amantes do futebol – a copa do mundo; nomina amigos que partilham desta alegria, de suas origens etc. Trata-se de um eu poético embriagado pelo gozo de ser o que é: um canguaretamense amado por muitos, que tenta expor em versos tão grande felicidade.

ODE À LEITURA (Thomas Saldanha – Natal/RN). Feito em sextilhas de rima fechada, o poema “Ode à leitura”, tem por objetivo provocar o interesse pelos livros e promover o letramento. Em um país com elevado número de analfabetos funcionais, caracterizado pela superficialidade dos conhecimentos, nada melhor que a leitura como antídoto para a degradação cultural que assola o país. Importantíssimo apelo, portanto.

A LENDA DE PROMETEU NA MITOLOGIA GREGA (Tonha Mota – Taperoá/PB). Através deste poema que narra o mito de Prometeu, a autora transforma em cordel uma lenda grega muito bem avaliada na literatura universal, difundida em várias versões e sempre em pauta nos estudos da Psicanálise. Através dele, temos oportunidade de ver na cultura grega traços em comum com as narrativas judaico-cristãs, como, por exemplo, o relato do dilúvio.

A leitura desta antologia deixou-me como saldo um maior encanto pelo cordel. Trata-se de um gênero literário que evoluiu e atingiu níveis de perfeição no Nordeste, consolidando-se como instrumento de transformação social e fonte de diversão, como se pode constatar ao ler os que aqui foram agrupados. Posto em bibliotecas escolares e nas mãos de professores versáteis, esta obra há de se revelar um excelente recurso paradidático.



Resenhado por Gilberto Cardoso dos Santos, educador, poeta e prosador, formado em Letras, Especialista e Mestre em Literatura e Ensino pela UFRN.


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