quinta-feira, 30 de agosto de 2012

EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Resposta a Maurício Anísio)



Caro Maurício:

Na Bíblia, onde não pode haver qualquer mácula, vemos uma historieta meiga, bem propícia ao que pretendemos explanar. Sabe-se que tal relato não constava nos primeiros manuscritos – o que, de algum modo, baldeia a imagem límpida que alguns têm deste livro – mas a história é demasiado boa para ser descartada. Tão boa que foi inserida nos relatos sacros. Graças a ela, cristãos do mundo inteiro vão aos prostíbulos para higienizá-los e alcançam sucesso. Num certo sentido, limpa a imagem negativa que muitos têm de Deus. 

Refiro-me ao relato da pecadora levada (e lavada) aos pés de Jesus.
Tratava-se de uma mulher cujo currículo era um lamaçal, uma forte candidata ao apedrejamento. Líderes políticos e religiosos de então se aglomeraram em torno de Jesus querendo exterminá-la. Foi um comício improvisado. A passeata chegou ao seu destino e o grande orador foi forçado a discursar. Ali foi pronunciada a célebre sentença, tão aludida hoje nas CPIs, quando algum nobre parlamentar é pego nalguma contravenção:

“Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra.”

Todos se entreolharam estupefatos. Ninguém ousaria dar uma de Davi naquele momento. Gigantesco, o Golias da consciência esmagava a todos. Sabiam, no  íntimo, que eram fichas-suja diante de Deus.
Entendemos hoje, na perspectiva de nossos olhos cristianizados, que eles não estavam tão revoltados quanto parecia com a sujeira da Geni bíblica. Antes, pretendiam também sujar a ficha de Jesus, reduzi-lo, por uma ação, à condição deles.

Neste mesmo livro imaculado, resultante da junção de diversos outros considerados puros, lemos que Deus, o Onisciente e Onipresente, olhou dos céus e fez uma vistoria entre os humanos.
Sabedor da importância das decisões políticas deve ter iniciado sua investigação pelos congressos e câmaras de então.
E o que concluiu Deus, com base na constatação irrefutável de seus olhos santos?
Que não havia um justo, sequer um.

Eleitores e eleitos de então eram todos fichas-suja, infelizmente.
De lá pra cá, com a invenção dos micros e teles cópios; com a descoberta de níveis e fatores de sujeira que escapam ao olho humano, tornamo-nos cada vez mais cônscios das imundícies próprias e alheias. O entendimento cada vez mais pleno do que significa democracia, faz-nos hoje olhar enojados para coisas que receberam aplausos no passado.

Todavia, o que seria a perfeição? Vivemos e nos movemos em um aquário gigante a que chamamos mar da linguagem onde termos como este fazem parte da rotina de pensamentos e diálogos, mas existem exclusivamente nele, sem qualquer correspondência no mundo objetivo. Utopia e perfeição vivem entrelaçadas e restringem-se a rabiscos, emissões de som e à imaginação.

Homens de fibra como você, caro Maurício, batalharam por um mundo perfeito e por fim descobriram que ele apenas poderia se tornar menos injusto, e não tão menos injusto quanto gostariam que fosse.
À semelhança do filósofo Diógenes, vem você com a luz das boas ideias piscando no seu cérebro, à procura de um candidato verdadeiramente honesto, totalmente ficha limpa, dentro do barril de limitações em que você voluntaria e involuntariamente  foi colocado. Decerto, sabe de antemão, sua busca será tão infrutífera quanto a de Diógenes, o Cínico.

Quanta sujeira se revelou nos movimentos da esquerda radical, “higienizadíssima”, a ponto de George Orwell, com total acerto, escrever o clássico A Revolução dos Bichos, onde quem domina são os porcos!
Não é com pouco esforço que se mantém um suíno limpo. Ele tem propensão à sujeira, gosta da lama, involuntariamente a produz.

Obsoleto está o tempo em que acreditávamos na infalibilidade de líderes religiosos e políticos.  
À semelhança do Cristo, (provável único ficha-limpa em toda a história, mas que recusou candidatar-se), você doou (parte de) sua vida pela salvação do Brasil. Semelhantemente, sempre lhe incomodou a hipocrisia - tão reinante naquele instante em que líderes políticos e religiosos se mancomunavam para apedrejar a prostituta.
Ao despir o caráter dos potenciais apedrejadores, o Ungido apresentou razões para que a pecadora tivesse uma melhor aceitação na sociedade, gerando, inclusive, precedentes para que esta se tornasse eleita e dos prostíbulos passasse aos altares. Hoje, bispos de olhos vermelhos, apedrejados pela consciência, ajoelham-se aos pés daquela que algumas vezes se ajoelhou por motivos nada nobres, estando, portanto, apta  a fazer assepsia em quem se sente na “fossa”.
De certo modo é isto o que você faz, pois à medida que cresce aos nossos olhos a sujeira dos que nos pareciam limpos, diminui a podridão daqueles a quem queremos apedrejar.

Resta-nos, pois, uma indagação bastante válida:
O que fazer num mundo em que somos obrigados a fazer escolhas, diante da perspectiva da não-existência da perfeição, uma vez que instintivamente a buscamos?
A solução está em escolher, dentro de nossas posses e possibilidades, aquilo que mais se aproxima do que idealizamos. Eu e você nunca pudemos comprar o transporte perfeito. Talvez tenhamos adquirido aquele de nossos sonhos, mas não o perfeito. Veículos perfeitos ainda não foram inventados. Desconfio que o maior magnata não esteja absolutamente feliz com os carrões que possui.

Quando levamos nosso veículo defeituoso à oficina, não buscamos um mecânico sem defeito, mas o melhor. Há mecânicos que se sujam muito, cuja oficina chega a repugnar. Há outros que até se vestem de branco, embora saibam não ser este o melhor uniforme. Se o mecânico, após o serviço, deixa nosso veículo imundo, faz-se reprovável. Se de algum modo ele é descuidado com a higiene do nosso veículo e da oficina, mas trabalha bem, talvez o busquemos outras vezes. Melhor que um muito cuidadoso que não conserta direito. No entanto, preferiríamos um menos sujo que consertasse bem.

E o que dizer do cônjuge perfeito? Elegemos alguém que apenas se aproximava do ideal, para depois descobrir que este estava muito aquém do que almejávamos.
Nossa busca pelo menos imperfeito deve persistir. Há níveis de sujeira, sim. Uns voluntariamente se jogam na lama, ao passo que outros tiveram suas vestes salpicadas.
Devemos eleger o edil menos ardiloso, o prefeito menos imperfeito, o deputado menos imputável, o senador mais são e o presidente menos digno do presídio.

Embora alguns que conhecem sua bela trajetória, dileto Maurício, diante de tais indagações achem que nadou, nadou e morreu à beira da praia, vejo-o como alguém que cruzou mares dantes não navegados. Certamente foi surpreendido por ondas traiçoeiras, dentro de seu próprio partido e aprendeu a não confiar em enseadas que lhe pareciam tranquilas. Tenho certeza que você, marinheiro experiente, jamais ousaria empreender uma viagem de 4 anos em uma embarcação que apresenta sinais de fissuras. Tampouco escolheria para cozinheiro, nesta viagem, o mestre-cuca menos cioso dos princípios higiênicos.

Finalizo, retornando à  ilustração inicial desta delongada missiva:
Depois que os pretensos santos se retiraram, Jesus disse à pecadora: “Vai e não peques mais”.
É necessário que busquemos eleger pessoas com o menor nível de sujeira, dispostas a limpar-se, que não achem prazer em se espojar na lama. Gente que busque a perfeição no exercício do seu mandato, mesmo sendo consciente de que esta não existe.

Penso que maculei minha resposta aos olhos de muitos, ao ousar transpor os limites textuais socialmente determinados por leitores apressados. Mas espero do alto de minha pequenez ter respondido à altura.

Um forte abraço, amigo Maurício, diante de quem respeitosamente nos curvamos, por sua história tão limpa!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O ENTORTADOR DE GARFOS - Gilberto Cardoso dos Santos



Arte feita por Wilard Monteiro

Wilard é  bom de garfo
e tem talentosa mão
deixou o garfo imprestável
mas deu-lhe a nobre missão
de na estante brilhar
passando a alimentar
a nossa imaginação.

Superou a Uri Geller
o grande paranormal
que a talheres envergava
usando a  força mental
mas nada de artístico fez
pois lhe faltava, talvez,
mais destreza manual.


Na briga dele e da mãe
ninguém meta a colher
Ele disse: Eu vou tentar
seja o que Deus quiser
e a mãe findou  aprovando
pois ver o filho brilhando
qual é a mãe que não quer?







sábado, 18 de agosto de 2012

NOTA DE CEM, NOTA DE DOIS, OU A MISTURA DE VALORES - Gilberto Cardoso dos Santos





Fui ao Alberto Maranhão com dois amigos. Ia felicíssimo por estar ali pela primeira vez e - vejam vocês que privilégio - para assistir uma peça de minha autoria!

Levei cem reais para ajudar na gasolina e em eventuais necessidades.      O amigo disse: “Depois a gente acerta. Guarde seu dinheiro”

Voltei com os cem; fui pra feira, de manhã, meio sonolento, com a nota dobrada junta com outras de dois.
Resultado: Quando fiz a última compra notei que a havia deixado com algum dos feirantes. Confundi-a com uma de menos valor!

Esforcei-me para rememorar onde estivera. Fui ao primeiro feirante, honestíssimo, que lamentou o ocorrido. Disse: “Pode ter certeza: Se tivesse deixado aqui eu devolveria.”
Fui ao segundo e também não a havia deixado com ele. “Só quero o que é meu, cidadão. Deve ter deixado noutra banca.”

Na outra banca também não estava. Lá encontrei uma vendedora triste. Acabara de perder dez reais. Achava que a dera num troco, por engano. Não sabia ao certo o que havia acontecido, mas faltavam dez reais, em suas contas. Tentei consolá-la, vendo a  tristeza e revolta  que a envolvia:

“Veja como são as coisas, minha senhora. Sempre que acontecem tragédias conosco, se procurarmos bem veremos uma situação pior. A senhora perdeu dez, eu perdi cem.  Nesse instante por aí há alguém chorando porque puseram um revolver em sua cabeça e levaram toda sua grana. Outro está sofrendo por causa de um filho sequestrado.”  E perorei com um pensamento do qual gosto muito:

“Estava triste porque não tinha sapatos, até que encontrei alguém que não tinha pés.”

Aparentemente o consolo serviu; percebi mudanças positivas em seu semblante. Pelo menos pra mim funcionou.

Na próxima banca também não estava, e tive oportunidade, de ouvir relatos de outros que passaram por situação semelhante. Um disse "Os danado fazem umas notas muito parecidas. A de vinte também parece muito com a de cinquenta, já notou isso? Se o cara não tiver cuidado..." e finalizou com um gesto obsceno, batendo uma mão na outra.  “Oh, cidadão... se tivesse ficado comigo – exclamou o vendedor penalizado -  estava nas suas mãos!”

Já ia desistir da busca quando me lembrei de um local onde comprara dois reais de manga. “Ah, acho que foi lá!” E saí às pressas, confiante na possibilidade de voltar a aninhar com carinho maternal na quentura do bolso a adorável fugitiva.

Falei baixinho com o vendedor, com todo tato, preocupado em não dar-lhe a impressão de que desconfiava de sua hombridade. 

“Acho que foi aqui que deixei uma nota de cem, quando comprei os dois reais de manga. Você deve ter colocado no bolso sem perceber a diferença, como eu. São muito parecidas, não são?”

O vendedor me olhou, baixou os olhos, colocou a mão em meu ombro e disse:

“Amigo, na hora que eu o atendi, chegou uma senhora e você saiu sem me pagar.”

Havia sinceridade nos seus olhos. Emudeci. Fui à carteira, tirei os dois reais que me restavam, paguei, desculpei-me e fui embora.

Ao chegar em casa, fui estacionar a moto e encostei a perna nua no cano quente. Perguntei aflito à esposa, sempre cheia de receitas nas horas trágicas:

- Você sabe o que se deve fazer quando se encosta a perna num cano quente, para evitar que a coisa piore?

- Sei – disse-me ela – a primeira coisa que se deve fazer é afastar a perna do cano para não continuar queimando.

Ri, naquele momento nada apropriado, e convidei-a com a filha para relatar-lhes a tragédia dos cem.
Foi a vez de rirem muito, às minhas custas. Perguntei-lhes por que riam. Disseram que eu estava com uma cara engraçada.

Aproveitei para tirar lições.

- O que aprendemos com isso, Débora e Maria?

- Ter mais cuidado com o dinheiro? – arriscou Maria – Prestar mais atenção no que faz?”

Filosofei, tentando extrair uma moral:

“Aprendemos que quando uma pessoa preciosa se mistura com alguém de menos valor, corre o risco de ser confundida. Assim como não é bom se misturar notas de cem com as de dois, precisamos ter cuidado com as nossas companhias.”

A mulher aprovou o que eu disse, e a filha aplaudiu.

É como diz o ditado: “Não há males que não tragam bens”. Fiz minha família feliz nesse dia e produzi mais um texto.

A mulher sempre quer ter a última palavra, e  acrescentou:

- Publique um livro com essas histórias que vez por outra lhe acontecem e logo logo poderá recuperar os cem.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

SOBRE O ESPETÁCULO Romeu e Julieta, Do Amor que Shakespeare Não Conheceu. - Gilberto Cardoso dos Santos


Romeu e Julieta, Do Amor que Shakespeare Não Conheceu
Não usarei os termos "ri litros", comuns nas análises facebuquieanas juvenis, nem o exagerado "quase me acabo de rir". Todavia, saí do Candinha com vontade de encontrar algum dos talentosos colunistas do blog  BLOG DA APOESC   para comentar positivamente a respeito da peça. Logo deparei-me com os hamletianos amigos Marcos Cavalcanti e Nailson Costa. 

Os três fomos unânimes em elogiar o espetáculo Romeu e Julieta, Do Amor que Shakespeare Não Conheceu. Aliás, Marcos até nos desafiou a escrevermos dando nosso parecer sobre o amor. Lembrando aquelas rusgas infantis em que um diz "Pise aqui pra você ver!" e o outro diz "Pise você primeiro", digo que gostaria de ver o nosso Don Juan de Marco(s) Cavalcanti dando algumas passadas nesse campo minado. Em seguida o seguiríamos, atentando bem para as suas pegadas.


Um outro amigo a quem convidei não compareceu pelo fato de estar cansadíssimo e por suspeitar que aquilo seria apenas um pretexto para evangelização. Concordei com ele, mas fui pela fé. Poderia ser que estivéssemos enganados.

E estava, a despeito dos muitos hinos cantados antes do espetáculo. Melodias agradáveis.

Valeu a pena conferir a bem-humorada análise da famosa obra de Shakespeare. Foi bom, também, reencontrar alguns amigos e ex-alunos.

Imagino que se com mais frequência tivéssemos espetáculos desta natureza a cultura em Santa Cruz "bombaria". Leva os jovens à reflexão.

Concordo com a "nota" que Nailson postou em seu Facebook:

10, quer dizer 9,5, a nota para a peça teatral Rome e Julieta agora há pouco. Teatro superlotado, plateia educada, e texto cômico muito bem dirigido e interpretado pela galera do Shalom, de Natal. Valeu a pena! Quem não foi, perdeu! Tirei 0,5 pt em função de não ter um sistema de som para captar as falas, e isso prejudicou muito quem ficou lá atrás. No mais, valeu. 

Nota dada e aceita, eterno professor Nail... som! Cinco pontinhos a menos para o que não soou bem.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

BATE-PAPO FILOSÓFICO NO IESC - Gilberto Cardoso dos Santos


Gilvan Oliveira, Marcos, Gilberto, Dênisson e  professor Alexandre

Na última sexta-feira (27.07.2012), tivemos um agradável debate filosófico organizado por Gilvan Oliveira, professor de Filosofia. A troca de ideias ocorreu em uma das salas do IESC, e teve como público alvo alunos do ensino médio.
Eu, Marcos Cavalcanti, Dênison (seminarista) e o professor de física e  matemática daquela instituição tivemos o privilégio de contar com a atenção e boa-vontade dos alunos presentes, que se mostraram inteligentes, participativos e bem informados. O debate começou às 10:40 e ultrapassou as 12 h.
Naquele ambiente tão favorável ao diálogo, senti-me como se estivesse no Aerópago, naquele tempo em que a escola significava uma reunião de pessoas que se ajuntavam para filosofar.

Marcos buscou uma melhor interação com os estudantes. Para verificar se havia real entendimento do que dizia, permitia que os alunos  finalizassem suas frases. Exemplos de sua fala:

Os primeiros cinco livros da Bíblia formam o Penta...

teuco!, completavam os alunos.

Nossa vida deve ser regida pela Ética e pela Cidadã...

nia!, finalizavam em coro.

Fez uma breve explanação sobre a história da religião e aconselhou a todos que lessem a Bíblia, principalmente o Velho Testamento, a fim de conhecerem melhor o deus judaico-cristão.

Apesar dos reclames estomacais (já eram doze e meia), quando tocou para que encerrássemos a conversa não foram poucos os alunos que lamentaram e ficaram dando claros sinais de que estavam gostando. 

Apesar da oposição de ideias, não houve mortos nem feridos; saímos dali tão tranquilos quanto antes.
 Os alunos, simpaticíssimos, faziam questão de aplaudir aos debatedores e ao que estava sendo exposto; enviaram por escrito diversas perguntas e observações que, infelizmente, devido a exiguidade do tempo, não foram respondidas. Decerto o professor Gilvan não há de deixá-los sem respostas.
 Os dois docentes do IESC, organizadores do debate, mostraram-se muito queridos pelos alunos. Parecem estar fazendo um excelente trabalho.
                               O professor Alexandre defendeu suas ideias tomando por base a Física e a Matemática. Ex-seminarista, disse-nos que abandonou a vocação quando percebeu que a igreja não fornecia respostas para suas perguntas. Para ele, não existem coincidências na matemática. Ilustrou seu modo de pensar com o desastre do Titanic e citando uma das histórias que o levam a ter fé, intitulada Deus no Porta-Malas.
 Dênisson, de quem já tive o privilégio de ser professor, mostrou-se culto e preparado para defender seu ponto-de-vista. Fez questão de esclarecer que não viera ali para converter ninguém e encarou a polêmica com bom-humor.

 Marcos estava felicíssimo, por se achar num ambiente onde já foi educador e que se mostrou tão favorável ao confronto de ideias.


Nossas escolas e instituições em geral lucrariam muito, acho, caso encontros dessa natureza fossem promovidos dentro do espírito que motivava os pensadores gregos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

FRANCIMÁRIO: UM HOMEM DE BOM CORAÇÃO



Estávamos na escola, em uma reunião, quando tocou o celular da diretora. Pelo silêncio que se seguiu e pesar em seu semblante, sentimos que se tratava de uma notícia triste. 

– Gente, disse-nos ela, lamento ter que lhes dar uma notícia muito muito triste: acaba de morrer Francimário!

Logo me perguntei “quem será Francimário?”, vendo a tristeza que se apossou de todos. Um colega esclareceu que era o irmão do professor Jocemário; alguém que já fora motorista do carro da DIRED e que também era caminhoneiro. Fiquei na mesma, sem saber de quem se tratava. A diretora passou a descrever as circunstâncias de sua morte: tinha se sentido mal enquanto dirigia e, tentando ir até o hospital; acabara batendo em um poste, e morrera imediatamente, vítima de ataque cardíaco.

Explicaram-me que se tratava de um mal de família. Uma familiar dele teria morrido enquanto dançava no clube. “Muito novo ainda”, lamentou alguém. “Era gente muito boa. Nota dez.”

Ao chegar em casa, abri o Facebook e lá estava a seguinte mensagem, publicada por Nailson Costa:

“Amigos, é com profundo pesar que lhes comunico o falecimento de um grande amigo meu de infância, o Sr. Francisco Francimário Praxedes, que veio a óbito agora há pouco, vitimado por um infarto fulminante. Francimário era servidor público estadual e, nas horas vagas, caminhoneiro. Gente muito boa! Amigo de fé e irmão camarada. Seu corpo ainda não se encontra em sua residência, situada na Rua Elóy de Souza, Centro. O sepultamento dar-se-á amanhã, às 16 horas no cemitério de Santa Cruz. Estou aqui com o meu coração cheio de dor, com um engasgo muito grande e uma vontade doida de chorar pra fora. Por esse motivo, excluí um texto cômico que publiquei agora há pouco. Amigo Francimário, obrigado por sua tão boa companhia na nossa infância querida e inesquecível. Deus abra as portas dos grandes salões celestiais e o receba de braços abertos. Adeus.”

Percebi, nas palavras de Nailson, tratar-se de alguém do bem, que deixaria enorme saudade.

Mais tarde, tais impressões foram corroboradas ao ler outra nota, publicada por Paulo Neto:

“Grande amigo Francimário... A gente nunca entende o porquê tem que chegar esse triste momento, porém, é nossa única certeza na vida. Tivemos o prazer de conhecer e compartilhar boas alegrias com seu jeito autêntico e extrovertido, só nos deixou bons exemplos de dignidade humana, pessoa de infinitas qualidades, homem trabalhador e disposto, honesto, humilde, bom pai e bom amigo. Vai em paz meu irmão, mais cedo ou mais tarde a gente se encontra na casa do Pai. Meus sentimentos à família.”

Abaixo, Paulo postou esta foto:



Senti um sobressalto ao vê-la, pois descobri tratar-se de alguém a quem eu já vira muitas vezes e até chegara a trocar algumas palavras. Infelizmente, digo-o agora, nunca me aproximei dele o quanto deveria. Certamente sua boa índole e exemplo teriam tido  boas influências em minha vida.

No outro dia, enquanto dava aula, a supervisora perguntou-me se eu não quereria ir ao enterro de Francimário. Não titubeei na resposta: "Sim!". 

Ao chegar na igreja, Luzenir Galvão, visivelmente emocionada, elogiava o falecido como se com ele falasse, dando destaque à sua paciência, educação, atenção e disposição para servir.
Chegara ao fim da cerimônia fúnebre. A igreja estava lotadíssima.

Ao som de “Segura na mão de Deus”, belamente tocada e cantada, e, posteriormente, de “Como é grande o meu amor por você”, uma enorme fila passou a circular em torno do caixão para o último adeus.
Ví alguns conhecidos  chorando. Ao perguntar se tinham algum grau de parentesco, respondiam-me: “Não. Éramos apenas grandes amigos.”

Zulmira, ex-funcionária da DIRED com emoção e à meia voz, falou-me de sua paciência, gentileza e de quão bom motorista era.

Dizem-nos que quem quiser ser bom morra ou se mude, mas percebi claramente que não era este o caso de Francimário. As pessoas de fato gostavam dele. As muitas lágrimas me disseram isto.
.
Fui ao cemitério onde seria enterrado, mas ao chegar lá vi que o féretro ainda estava distante. Parei para trocar umas ideias com o coveiro local e sua esposa. Estes, por força do ofício, são “duros” em relação a quem morre. De tanto encarar a morte, familiarizaram-se com ela. Enquanto fumava, a mulher foi me explicando que chegavam a enterrar 3 por dia, às vezes. Ela limpava os túmulos, tirava o mato das covas e aguava as flores daqueles que a contratavam para tal. Muitas vezes, disse-me ela, fazia isto à noite.

De repente, porém, passou a falar sobre o morto que aguardávamos. Ao pronunciar seu nome sua voz se quebrou e os olhos ficaram úmidos. Ví que seu esposo não iria cumprir apenas mais uma etapa de seu terrível ofício; naquela tarde, também enterraria um ente querido. 
Traçou-me ela, dentro daquilo que sua limitação vocabular permitia, uma imagem bem positiva do falecido, parecida com a que Nailson, Paulo Neto e tantos outros me haviam passado.

Sim. A família do coveiro também o conhecia e gostava muito dele.

Mais uma vez, lamentei  não ter parado para conhecê-lo melhor quando ainda em vida. A memória, então, me comunicou que em alguma das viagens  que fiz no carro da Dired, o tive como motorista. Nesta viagem, porém, não parei para ver nele algo mais que o fato de ser meu motorista naquele momento. Lamentável, digo-o agora.
A esposa do coveiro tentou resumir tudo em poucas palavras quando a informei que ele tinha apenas 47 anos
“Quem é bom Deus leva logo e quem é ruim fica na Terra.”

Ao companhar aquele enterro, concluí:

Francimário era um homem de bom coração que (infelizmente) não tinha o coração bom.

sábado, 21 de julho de 2012

MISSIVA À ESPOSA - Gilberto Cardoso dos Santos


Por trás deste médio homem, senhora Santos, uma grande mulher jaz na obscuridade por causa das orelhas à frente.

Emocionei-me ao ler o que escreveu  no texto MEU OURO, MEU TESOURO.

Se sorrio sempre, minha querida, e a faço gargalhar, é porque meu bom-humor encontra eco nos corredores de sua alma.

Há que haver contraste entre a maciez do pneu e a dureza da pista para que a viagem aconteça. Você, com pneus ou sem pneus, me amortece e vivifica.

A verdade é que conviver consigo e com sua família é muito prazeroso. Suas irmãs e irmão são ovelhas. Sua benedita mãe está mais para flor que para ofídio.

Você é sábia, prudente, bela, uma companhia agradabilíssima. Seu bom gosto e inteligência tiveram plena revelação quando me escolheu.

Após o aprazível banquete oferecido pelos amigos, veio você e me surpreendeu com tão deliciosa sobremesa.

Não sou seu tesouro, e sim o rico baú em que se encontra. Se sou seu ouro, é porque tenho uma ourives generosa, que me lapida com carinho e faz vistas grossas para as escórias.

A promessa de um seguro de vida foi razão mais que suficiente pra que escrevesse tais encômios. Em  memórias póstumas continuarei a ruminar esta mensagem e enaltecerei tudo que fez.


sábado, 14 de julho de 2012

PUXÃO DE ORELHAS DA SENHORA SANTOS - Gilberto Cardoso dos Santos



A senhora Santos deu-me um puxão de orelhas. Eu estava na sala, nem precisou deslocar-se da cozinha (eis a vantagem de casar-se com um homem todo-ouvidos). Ecoou as palavras de Marcos:

 "Seu blog não é cultural?! Não é sério?! Não tem necessidade de anonimato..."

Em seguida puxou-me para si, alisou-me o cabelo; fez-se convincente.
O computador fica perto da cozinha, território onde ela reina. 
Devo obedecer. Não deixarei que  anônimos, ainda que do bem, atrapalhem nossa relação.
Apesar de todo cuidado que temos tido até agora na filtragem dos comentários, diminuirei a possibilidade de anonimatos. 
Alguns que bem conhecemos,  postam como anônimos e assinam seus posts (Aldenir Dantas, por exemplo). Assim procedem por ser mais fácil, prático. Espero que entendam a nova medida, pois não há porque cortar um pé, mesmo que feio e trôpego, quando há outros tratamentos possíveis.
Joana, Ana, Maria Auxiliadora, Pedro, Ailton, Jailson, Alberto, Sião e tantos outros com quem tanto ansiamos entrar em contato por sempre a nós se dirigirem positivamente, entenderão, espero, esta medida corretiva e continuarão a nos alegrar com suas participações.

INSTRUÇÕES ÀS PESSOAS DO BEM, COMPREENSIVAS, QUE NOS LEEM:

Se tiver e-mail do Google, escolha a opção Conta do Google, ao postar.

Veja:


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Em URL digite seu site da web, se você tiver. Se você não tiver coloque seu endereço no Orkut, Facebook ou ponha um e-mail ou Twitter. Clique em continuar e pronto.


"Desenhando" mais ainda esta explicação, veja como ficaria meu Facebook neste comentário: 


Para isto, fui na página do Facebook e cliquei em cima de meu nome. Em seguida copiei o link que apareceu na barra de endereços.

Os senhores anônimos que se sentirem chateados com esta medida, sintam-se à vontade para reclamar utilizando algum dos meios alistados acima.

Abraços e até mais. A senhora Santos me chama.






quinta-feira, 12 de julho de 2012

MEU TÍTULO DE CIDADÃO - Gilberto Cardoso dos Santos


Tornou o comandante: Eu por grande soma de dinheiro adquiri este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de nascimento. - Atos 22:28


Lembrei-me hoje de Atos 22:28 ao ser comunicado por Adriano Bezerra, via celular, que Gilvandelma, da Câmara de Vereadores local, estava à minha procura para entregar a carta-convite que me me levará à concessão do título de cidadão. Recordei-me, também, de um trecho da entrevista com Marta Ferraroque nos disse:

"Gostaria de agradecer a todas as autoridades da cidade e os seus cidadãos por me dar o título de cidadã. Um título que nunca na vida eu sonhei receber."

Minhas palavras não difeririam muito das de Marta. Para mim é uma honra, não tendo prata nem ouro, como disse Pedro (Atos 3:6),  ser agraciado com tal reconhecimento. 

Pedro finalizou com uma adversativa alvissareira: "Mas o que tenho isto te dou". Fiquei me questionando sobre as possíveis coisas que dei Santa Cruz nestes anos todos em que aqui resido. Basicamente, dei aulas e trouxe conhecimento a muitos de seus cidadãos legítimos, alguns dos quais encontro hoje na esfera política, religiosa e a alguns que optaram pela área empresarial. Outros tornaram-se funcionários como eu, enfermeiros, advogados... (um outro dia, estando na barbearia de Joelson, um a quem não reconheci passou pelo recinto e logo retornou para dizer-se profundamente grato pelo que lhe ensinei, acrescentando que se tornara bancário); à semelhança do que Pedro fez com o pedinte, aprumei alguns versos de pé quebrados que correram a la Rubinho Barrichelo nas páginas de alguns cordeis e me trouxeram certa notoriedade; dei à cidade o espaço virtual chamado Blog da APOESC e através do "APOESC Recitando o Sertão" ajudei a abanar a fumegante chama da cultura local.

Se a ex-vereadora Odete e todos aqueles que votaram pela minha indicação viram isto como sendo mais importante que prata e ouro, é sinal que ainda há na esfera política quem reconheça o devido valor da arte e da educação.

O comandante, no texto bíblico, disse que adquirira seu título por grande soma de dinheiro. Como Paulo, posso orgulhar-me de não ter dependido disto e mais ainda por nem ter precisado nascer aqui. Se fosse depender disto, jamais me tornaria(m) cidadão.

A cerimônia ocorrerá amanhã à noite, no Teatro Candinha Bezerra, a partir das 19h. De qualquer modo me faria presente a esta cerimônia, pois  o senhor Aderson Leão, da clínica Trairi, também receberá tal título e havia me convidado. Obviamente quando vi no envelope o "Ao Ilustríssimo Senhor Gilberto Cardoso dos Santos", senti uma motivação a mais para comparecer àquela casa de espetáculos, pois não é todo dia que a nós se dirigem utilizando termos tão respeitosos. Ali, serei parte de uma constelação. Vagalumearei timidamente mas com muita felicidade  por entre as estrelas do legislativo.

Ali espero encontrar os brilhantes colaboradores deste blog: Hélio Crisanto, Teixeirinha, Eduardo Paulo, Alessandro Nóbrega, André, Débora Raquiel, João Maria, Lindonete, Nailson, Joseni, Aldenir, Adriano, Camilo Henrique, Ivanilson, Marcos Cavalcanti, Maciel, Marcelo, João Estevam, Rita Luna, Dr. Epitácio e demais porventura penalizados por minha deficiente memória.

A presença de vocês certamente muito contribuirá para abrilhantar este momento único.

domingo, 8 de julho de 2012

O DEUS COM QUEM NÃO SE BRINCA (resposta a Marcos Cavalcanti)



Foto: Marcos Cavalcanti, Gilberto Cardoso

Caro Marcos:

Vaselinarei cada explicação ao “Com Que Deus Não se Brinca?”  na esperança de que estas penetrem com mais suavidade em seu entendimento. Polêmico é o tema do qual tratamos, sujeito a inúmeras interpretações. Sobre o pão duro da matéria buscarei ser como maionese, visando garantir nossa permanência na mesa dos que degustam nossas palavras - dignos de todo o respeito - e trazer melhor sabor a esta saudável porém insípida discussão. Buscarei proceder com aquela mesma atitude respeitosa por você manifestada no sepultamento de Monsenhor Raimundo ao discursar positivamente sobre o ilustre finado umedecendo com lágrimas sinceras o papel em que escrevera seu discurso. Sabedores de suas (des)crenças, todos nos comovemos com a demonstração de respeito e tolerância manifestados na ocasião e passamos a admirá-lo mais ainda. Monsenhor Raimundo, a quem você se dirigiu depois de morto com palavras untadas de poesia como se este pudesse ouvi-lo (dando margem a quem não o conhecesse de pensar tratar-se de uma oração), manifestou, em igual medida, tolerância para com os ateus quando admitiu a possibilidade de que alguém viesse a salvar-se mesmo sendo descrente; para ele importava mais a conduta que a profissão de fé.

Em Com Deus não se brinca quis me referir à concepção cristã do ser supremo. Quando falamos em Deus, inevitavelmente nos referimos ao Deus que pertence à cultura da qual tratamos ou na qual vivemos. Se porventura eu escrevesse em Cabul para um blog afegão sobre palavras ditas por um sheik pouco antes de um naufrágio ocorrido no mar arábico envolvendo pessoas provenientes da Indonésia, meus leitores muçulmanos, ao lerem a palavra “deus” entenderiam estar me referindo a Alá. O Titanic, na noite de seu naufrágio, conduzia uma tripulação dominantemente cristã. Inclusive, teriam cantado o hino  "Nearer, my God, to Thee" (hino cristão protestante), por ocasião do desastre.

O deus a quem faço referência é o Deus da Bíblia. No Novo Testamento, Deus é sinônimo de tudo que é bom. Lemos:

Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” (1 João 4:8).

Muitos estranham a metamorfose que captam na imagem de Deus a partir de Jesus. Alguém disse: “No Velho Testamento temos um Deus que mata; no Novo Testamento vemos um Deus que morre.”

Apesar dos morticínios, mesmo no VT Deus é apresentado como tendo as características de um ser justo, amoroso, imparcial e profundamente preocupado com a felicidade humana. Um profeta escreveu:

Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.”(Jeremias 31:3)

Creio que esta imagem seja crucial para um deus ou para qualquer ser que governe. Até líderes e ditadores famosos que eu e você abominamos sentem a necessidade de manter um conceito próprio contrastante com seus atos. O bom-senso nos diz que um deus perfeito, desejável ou líder ideal, deva ter tais características. Os escritores da Bíblia, mesmo relatando coisas chocantes ao nosso entendimento como matança de crianças (Números 31:17), insistiam na imagem de um Ser bondoso, justo e misericordioso.

O problema é que as ideias de justiça, misericórdia e amor, na prática, são fortemente influenciadas pela formação, características psicológicas de cada um e pela cultura em que se está inserido. Manter escravos, matar e praticar o olho por olho eram perfeitamente compatíveis com a crença em Deus no tempo de Davi. Hoje, isso receberia a condenação de qualquer cristão.

Quando comunistas ateus e inquisidores medievais praticaram suas atrocidades, sentiam-se em perfeita consonância com os ideais de justiça, imparcialidade e amor à espécie humana apregoados pelas ideologias que abraçaram.

Um grande pregador cristão, Dwight Moody, aconselhava que seus fieis lessem a Bíblia como quem come peixe, com todo cuidado para não se engasgar. Eu acho que o pregador estava certo em sua observação: quem quiser manter a fé tem que proceder assim. Tal como Pedro não deveria atentar para os vendavais da incredulidade (Mat 14:30) sob pena de afogamento espiritual, os que se debruçarem sobre a Bíblia com olhar de urubu jamais “subirão como as águias” (Isaías 40:31)  É desse modo que o mundo cristão tem procedido. Buscam aquelas  partes que salientam aspectos positivos sobre o ser supremo, os versículos que estimulam a fé e a devoção.

A ideia de um deus com quem não se deve brincar vem de versículos como os de 2 REIS 2:23-24:

 “Deus é amor, mas também é fogo consumidor”, dizem religiosos, cientes dos muitos relatos em que expressões de blasfêmia resultaram em tragédias. O que tentei foi, a partir dos próprios argumentos fornecidos pela Bíblia e pelos  que usam a ilustração do Titanic, chamar a atenção para possibilidade de se pensar diferente.

Finalizo dizendo: perdoem-me os zelosos da fé que se viram censurados em seus comentários ofensivos à pessoa de Marcos. Apesar das diferenças radicais, ele e Monsenhor Raimundo foram bons amigos até o fim. Não tentem tomar as dores de Deus. Se ele é o ofendido, deixem que Ele mesmo resolva à sua maneira, extraindo água da rocha ou enviando raios.
Meditem nestas belíssimas palavras de Padre Zezinho:

“Eu sei que da verdade não sou dono
Eu sei que não sei tudo sobre Deus
Às vezes quem duvida e faz perguntas
É muito mais honesto do que eu.”



quinta-feira, 5 de julho de 2012

COM DEUS NÃO SE BRINCA - Gilberto Cardoso dos Santos



“Nem Deus pode afundar o Titanic”

A frase acima, supostamente dita por um dos condutores ou marinheiro do maior navio ate então construído, tem sido citada à exaustão nos últimos cem anos em púlpitos cristãos do mundo inteiro como um alerta aos que duvidam do Poder Supremo.
É difícil não despertar temor, medo, no coração daqueles que creem. Muitos, aliás, foram incentivados a temer a Deus por causa dessa história.

A verdade, porém, segundo Richard Howells – expert na história do naufrágio – é que não há provas conclusivas a respeito deste relato; a história teria sido criada pelo imaginário popular após o naufrágio. Nunca, afirmou ele, a White Star Line disse que o navio era invulnerável.

Verdade ou mentira, sempre me soou estranho que Deus, sinônimo de Amor e de Justiça – o mais perfeito dos seres e fonte benfazeja de todos os outros – fosse capaz de se deixar levar por tais ímpetos de destruição. Confesso que quando  ouvia esta história da boca de algum líder religioso, era como tentar engolir um maxixe quente. Ficava pensando em cerca de 1500 embarcadas e nos muitos familiares destes que ficaram em terra; pessoas que não o provocaram, que não disseram nada parecido com isso, mas, como estavam “no mesmo barco”, acabaram sendo penalizados.

Isto o faria parecer alguém imaturo, perigosamente impulsivo. Imagine o mais adulto e antigo dos seres procedendo tolamente como criança! Temperamento sanguíneo!
Ora, isso não combinaria com seu caráter. Imaginemos a cena: um ameninado qualquer da terra, jactancioso, diz: “Não tem quem afunde esse navio... nem Deus!” E Deus, a quem nada escapa, franze o sobrecenho e diz: “Ah, é? Pois eu vou mostrar a esse sujeito quem é que manda aí!” e logo, valendo-se de  monstruoso iceberg,  "prova" para o resto da humanidade quem é o tal. 

Segundo afirmam muitos propagadores dessa história, a frase teria sido dita por brincadeira, o que faria parecer bem mais irrazoável a reação divina. Nós nos sentimos pouco à vontade com pessoas mal-humoradas. Alguma vez um amigo o alertou sobre a inconveniência de brincar com alguém que esquenta com facilidade? - Cuidado, disse. - Ele não gosta de brincadeira -  Creio que sua impressão sobre a pessoa citada não foi das melhores.

Isso faz Deus parecer com  indivíduos imprevisíveis que todos conhecemos; assemelha-o a governantes despóticos, prontos a esmagar quaisquer sinais de insolência. Religiosos fanáticos inquisidores poderiam dizer convincentemente que de fato foram feitos à Sua imagem e semelhança.

Em sendo verdade, justificaria a censura religiosa e perseguição aos escarnecedores. Como deixar à vontade pessoas que blasfemam contra Deus? Professores, pais e autoridades deveriam tentar controlar tudo oque se diz. O ocorrido com o Titanic estaria aí para nos alertar. De repente, alguém em um grande shopping lotado de gente diria: "Duvido alguém derrubar este edifício!" E Deus, sentindo-se provocado, mandava um raio e deixava milhares de famílias destroçadas.

Será que Deus iria querer destruir toda uma multidão de filhos por causa de um único rebelde? Aliás, nem se todos fossem rebeldes. Tal visão talvez tenha pouco a ver com a de um Deus que criou o homem à sua imagem e semelhança e muito a ver com a de um Deus criado à imagem e semelhança do homem.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A MISSA INVISÍVEL - Gilberto Cardoso dos Santos



Na calçada, devidamente paramentado, todas as noites, voltado para a rua, celebra missa para uma plateia inexistente.
Deram-lhe uma batina, provavelmente reciclada de uma peça  de roupa feminina. Veste-a, e, empunhando um microfone desconectado – de brinquedo, talvez – fala coisas pouco inteligíveis. Botou na cabeça que tem uma missão sacerdotal a cumprir. Pensa-se que pense ser um padre, mas, quem sabe, não se julgue bispo. cardeal ou papa?  Frágil jovem que se agiganta aos próprios olhos e faz-se santo de Deus.
Executa gestos solenes e discursa com convicção uma mensagem pouco inteligível, extraída do livro de sua insanidade. Hinos conhecidos são deformados por sua voz anasalada e rebelde às notas. Curva-se respeitosamente diante de uma imagem inexistente, representativa do invisível. Em seguida, pega um pão que outros não veem e, por força de oração, transforma-o no corpo de Cristo. Estende-o às diversas bocas inexistentes daqueles que não se aglomeraram para ouvi-lo. Sua mímica bem feita, própria de quem crê na materialidade do que imagina, leva nosso pensamento a colocar um pão em sua mão e a dar forma a alguém da multidão com quem ele fala ao entregar a hóstia. Sob a parca luminosidade da rua onde mora, os poucos transeuntes que ocasionalmente passam vislumbram o frágil pregador em sua insignificância física, dirigem-lhe breves olhares indiferentes e distanciam-se alheios à solenidade da ocasião.
Nas janelas e portas das casas ao redor, vê-se o piscar das tevês que mantêm a todos presos em seus lares. A apatia parece tomar conta de tudo.
É de admirar a constância com que ele se posta naquela calçada, noite após noite, enquanto o resto da família, já afeita ao barulho de seus discursos, aproveita para ver a novela.

domingo, 27 de maio de 2012

SEPARANDO QUEM ESCREVE DO QUE ESTÁ ESCRITO- Gilberto Cardoso dos Santos



Quando lemos, é sempre bom fazermos um esforço para separar aquele que escreve daquilo que está escrito. O autor, necessariamente, não tem a ver com o eu-poético de seu poema ou com o eu lírico de sua crônica.
Lembremos do que disse Fernando Pessoa, 

"poeta é um fingidor
Finge tão completamente. 
Que chega a fingir que é dor. 
A dor que deveras sente."

A dor ou alegria que o poeta expressa necessariamente não é a sua. Saint-Exupery, o autor, é diferente da criança que fala em o Pequeno Príncipe.
O escritor tem o dom de empatizar  com os seres ao seu redor expressando o que de fato sentem ou emprestando-lhes qualidades inexistentes.

Exemplos?

Quem convive com Marcos Cavalcanti sabe que ele é, comumente, uma pessoa bem-humorada, feliz, que nem de longe pensa em suicídio. Para alguns que não  o conhecem  e leem o seu VIAGENS AO ALÉM-TÚMULO é um ser depressivo, negativista, triste. Isso ocorre devido a confusão entre autor e eu-poético. Numa poesia ele pode dizer "Vem, ó morte", enquanto na vida real vive fugindo dela.

Quem faz ou declama um poema de amor  não significa que esteja apaixonado.  José Paulo Paes escreveu poesias em que nitidamente se escuta uma voz feminina. Isso não significa que ele seja mulher ou gay. Quando Drummond, o itabirano, escreveu "Itabira é apenas uma fotografia na parede, mas como dói", poderia estar falando de uma dor que deveras sentia (apenas para relembrar Fernando Pessoa) ou não. Poderia até nem ter  fotografia da terra natal em sua parede.

Será que no dia anterior à escrita do poema O BICHO Manuel Bandeira realmente esteve perante um pátio imundo? Pode ser que sim, pode ser que não. Mesmo que tenha vivenciado isso, continua a necessidade de diferenciar quem escreve do que está escrito.

Sabe aquelas máscaras que têm a forma exata do rosto que representam? Mesmo sendo tão parecidas (algumas simulam muito bem o tecido humano) continuam sendo apenas máscaras.

Vez por outra aparecem comentários no blog que refletem um pouco essa confusão, salvo  casos em que a pessoa evidentemente está brincando. Daí a razão de ser deste alerta. Desnecessário, talvez.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

A DERRUBADA DA QUADRA - Gilberto Cardoso dos Santos













Num gol do progresso insano
A quadra foi derrubada
E quem perdeu na jogada
Foi o sentimento humano
No ar ficou o vazio
E o enorme desafio
De erguer algo diferente
Este cultural fracasso
Se assemelha a um golaço
Que humilha o time da gente.

Silenciou a pancada
De Rizomar carimbando
Sem saber principiando
A atual derrubada
Em quem ali já jogou
Algo por dentro quebrou
Quando bateu o guindaste
Se jogadores choraram
Vizinhos comemoraram
Vejam que grande  contraste!











Crédito das fotos: Débora Fernanda




domingo, 15 de abril de 2012

UMA PARTE QUE VALE PELO TODO - Gilberto Cardoso dos Santos



A letra acima é da autoria de Chico César e se intitula BÉRADÊRO; foi gravada com uma melodia que não soa muito apetecível ao gosto popular e, além disso, sem quaisquer instrumentos. Trata-se de uma espécie de aboio. Daí, com certeza, a razão do pouco sucesso que fez/faz entre as massas. Há, todavia, muitos como eu que com ela se encantam. Acho que transborda  tutano de poesia em cada verso. Cada linha constitui parte de um favo cheio do mais precioso mel.
Mas há uma parte que dispensaria todas as outras, dois versos que falam fundo ao meu coração:
"E a cigana analfabeta
lendo a mão de Paulo Freire".

Não sei com precisão o que estes versos me falam, mas sei que me dizem muito. Assim age a linguagem da poesia.
Por causa  desta sentença, eu e Hélio a incluímos em nosso repertório. Aliás, tivemos oportunidade de cantá-la na Casa do Béradêro, lá em Catolé do Rocha no espaço construído para conservar a memória de Chico César entre seus conterrâneos.
Para nós é uma parte que vale pelo todo. Sabe aqueles minutos que fazem valer o dia; aquela cena do filme que faz valer a pena o tempo gasto assistindo-o; aquela música que justifica a compra do cd? Este é o verso que faz valer a música. Se esta canção fosse uma enrugada ostra, este verso seria a pérola. Leia-a (ou ouça-a em áudio da música Béradêro ) e se encante com a genialidade desta composição.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

SOBRE A CRISE DÁGUA - Gilberto Cardoso dos Santos


Imagem meramente ilustrativa

Nestes dias de sequidão, em que alguns estão sendo forçados a cumprir a tradição de não tomar banho nos dias santos, a campanha de Monsenhor Raimundo "ÁGUA SIM, VOTO SIM; ÁGUA NÃO, VOTO NÃO" volta a ter sentido e a influir na decisão das pessoas.

Hoje alguém da família passou por minha casa com uma grande trouxa de roupas: Ia tentar lavá-las em Japi.

Não podemos lavar as mãos (como fazer isto, sem água?) diante desta situação.
É como me disse Maurício Anísio:

"A responsabilidade para resolver o problema é: do Prefeito municipal, da Governadora do Estado, dos Deputados (estaduais e federais) que foram votados em nossa cidade e dos Senadores. A essas autoridades, e tão somente a elas, cabe a responsabilidade conjunta para encontrar definitivamente a solução para esse problema. Acusar um ou outro, individualmente, (ou excluir alguém da responsabilidade) não acho que seja o caminho correto. Me parece mais um rancor individual do que a procura da solução."

Seja sinceramente ou por pura estrategia, aprendemos com nosso pais a lançar a culpa sobre os outros: Deus culpou a Adão e este culpou a Eva que, por sua vez, culpou a serpente. Na verdade, todos tinham sua parcela de culpa.

Nós, o povo, também precisamos dizer: "Por nossa culpa, nossa grande culpa (pois temos pecado muitas vezes por pensamentos, atos e omissões), este problema tem se estendido por dias e dias e tem se transformado em meses.". Além disso, como já o denunciou Teixeirinha em DIAMANTE LÍQUIDO, temos feito um mau uso da água (quando a temos). É a hora, em seus minutos finais, de refletir sobre a crise que o mundo atravessa quanto a isso.

Quem não quiser ver seus verdes votos amarelecendo e quiser ter uma boa colheita no próximo pleito, saiba que é hora de arregaçar as mangas. O povo clama com sede. Como Moisés, extraiam água nem que seja das pedras, pois a água não vem mas as cobranças continuam vindo, altíssimas, por sinal.

Não tenham dúvida: os que nada fizerem para resolver este problema, poderão se dar mal nas urnas e os que trouxerem a solução (ou derem a impressão que resolveram) poderão ser beneficiados.

domingo, 1 de abril de 2012

1º de ABRIL NO WALFREDO GURGEL - Gilberto Cardoso dos Santos


Primeiro de abril, que sofrimento
Naquele corredor nauseabundo
Gente a chorar o seu pesar profundo
Enquanto aguarda um pronto-atendimento

Primeiro de abril, tudo verdade
Escuto gritos das enfermarias
Funcionários riem pelas vias
Já tão afeitos à calamidade

Com meu amor naqueles corredores
Sinto-me mal em meio a tantas dores
Quisera ouvir alguém dizer-me: “Gil,

Não acredite no que está vendo
Pois nada disso está acontecendo
Tudo é mentira, Primeiro de Abril!”