quinta-feira, 15 de março de 2012

RESSURREIÇÃO DE MACHADO DE ASSIS - Gilberto Cardoso dos Santos




Machado escreveu em 1873:

[...] Não há atualmente teatro brasileiro, nenhuma peça nacional se escreve, raríssima peça nacional se representa. As cenas teatrais desse país viveram sempre de traduções, o que não quer dizer que não admitissem alguma obra nacional quando apareciam. Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

O trecho é parte do ensaio NOTÍCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA INSTINTO DE NACIONALIDADE. Como um todo, bem ilustraria o que se dá nos dias de hoje e nos conduziria à convicção de que, como dizia Salomão, nada há de novo debaixo do sol. Ele lamentava, por exemplo, que os clássicos nesse tempo fossem pouco lidos e conhecidos. Machado, hoje um clássico - autor de um romance que figura na lista dos cem melhores da literatura universal - certamente ficaria assustado caso pudesse saber que a realidade não mudou praticamente nada de 1873 para cá.

Se o autor de Resurreição porventura ressurgisse, provavelmente seria glamourosamente conduzido à ABL - academia que o tem como patrono. Ali, teria a chance de conhecer ilustres imortais que lhe entregariam exemplares de obras devidamente autografadas. Imagino-o folheando Marimbondos de Fogo, da autoria do contista, ensaísta, poeta e romancista José Sarney (conhecido em todo o Brasil não por dotes literários, mas por outros motivos), de quem receberia convite para ir à tribuna do Congresso. Tal livro seria devorado com o maior interesse; Machado pensaria: “Se foi conduzido à academia tendo escrito tão pouco, deve ser um escritor fantástico!” Mal acabaria sua decepção com aquele que é capaz de qualquer coisa, (até mesmo de ocupar a cadeira de Tobias Barreto na ABL), teria que ver obras gentilmente ofertadas (ou vendidas, graças a alguma virtude desenvolvida no caminho de Santiago) por Paulo Coelho e talvez como Verônika ele decidisse morrer. Ficaria surpreso com o sucesso estrondoso de O Alquimista que vendeu mais nesta década que Machado em quase 3 séculos. Com Santiago, o protagonista, Machado empreenderia viagem em busca do tesouro literário escondido na obra-prima magra do mago. Iria, certamente, arrepiar-se com deslizes linguísticos difíceis de perdoar e, por fim, à semelhança do que ocorre com o personagem central, descobriria que onde julgava haver algo áureo não há tesouro algum; que deveria retornar às obras de seu tempo onde, finalmente, encontraria algo satisfatório. Ao ler Drummond, Quintana, Veríssimo (pai e filho), e Fernando Sabino, se surpreenderia ao saber que estes nunca tenham sido imortalizados. Ao conferir o estatuto da academia, para ver se as regras haviam mudado, veria que ali ainda consta o requisito “ter publicado, em qualquer gênero da Literatura, obras de reconhecido mérito e valor literário”.

Depois de animada conversa com o imortal senador Marco Maciel, autor de obras memoráveis por mim ignoradas e de um breve passeio com Ivo Pitanguy (feito imortal não pelo que fez com a caneta, mas com o bisturi), talvez Machado tivesse um surto de zelo naquele tão profanado templo da cultura, semelhante àquele que levou Cristo a se munir de um chicote e sair derrubando tudo e expulsando gente. Não sei se ele permaneceria com vida ao saber da medalha que Ronaldinho Gaúcho recebeu devido, talvez, às muitas bolas e camisetas que autografou.

No trecho inicialmente citado, uma parte merece destaque:

Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo que fala aos sentidos e aos instintos inferiores?

Ora, Machado, se vivesse hoje entenderia quão enganado estava ao pensar que em seu tempo o gosto público chegara ao ápice da degradação. Imagine se assistisse um pouco do Big Brother, dramalhão supostamente improvisado que se nega a assumir seu caráter de espetáculo (pois tenta passar por representação fiel da realidade), sórdido drama protagonizado por maus atores e atrizes, cheios nos músculos e nádegas, vazios nas mentes. Veria que estes mamulengos da mídia, um milhão de vezes mais que os aproveitadores de sua época, estariam a levar a população ao último grau de decadência e perversão. Além disso, ao ouvir Michel Teló e saber por um transeunte metido a engraçado que este tem sido escutado por todos, menos por Luíza que está no Canadá, talvez concluísse que as cantigas burlescas de seu tempo eram, na verdade, obras primas da literatura universal comparadas a estas que escapariam dos paredões de som (tão em moda atualmente) e feririam seus tímpanos.

Enfim, diante do que veria nas novelas, no Big Brother, filmes, livros, músicas e espetáculos teatrais de nosso tempo, Machado concluiria que nunca na história desse país (saudoso Lula...) tanto se falou aos sentidos e aos instintos inferiores. A que conclusão senão esta poderia chegar o magno escritor comparando a nudez e perversão sexual de hoje com os braços à mostra que lhe renderam uma crônica? O ser humano, veria ele, em qualquer época, tende mais a dar vazão ao  lado animal, mesmo que isso atente contra o progresso intelectual.

Assustado com o que veria, desejaria retornar à tumba. “Hoje sim”, concluiria, “o gosto público tocou o último grau da decadência e da perversão”; hoje poderia reescrever o NOTÍCIA DA ATUAL LITERATURA BRASILEIRA  mudando apenas as datas. Todavia, diante do que vemos, o texto pareceria demasiado brando. Machado esquentaria um pouco mais os neurônios ao falar das imbecilidades de nosso tempo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A (IN)UTILIDADE DA POESIA - Gilberto Cardoso dos Santos)

Perguntaram ao admirável poeta Manoel de Barros: O que é a poesia? Ele respondeu: “Poesia é a virtude de ser inútil.” e acrescentou: “Há várias maneiras de dizer nada. A poesia é uma delas. Em uma das raras entrevistas que concedeu, Manoel de Barros disse que noventa por cento do que escreveu foi inventado, só dez por cento é mentira.
Com o aval de Manoel acrescentaríamos: A poesia é este algo inútil tão útil à humanidade. A poesia dá ao homem a oportunidade de ver o mundo e os seres por ângulos diferentes e até inexistentes. Empresta e arranca das palavras sentidos que causam espanto. O poeta recicla a linguagem comum, converte sons ordinários em notas extraordinárias. É um dizer nada de maneira encantadora. É um falou e tudo se fez, um chamar as coisas que não são como se fossem. A poesia é uma subversão da gramática e dos sentidos: o poema passarinha (grande Quintana) sobre os obstáculos que a linguagem bem comportada impõe. “Escreve-se para chegar ao nada”, disse Autran Dourado. A poesia é um inutensílio, no dizer de Leminski.
Em nossa rádio online, procure a faixa Assaltaram a gramática, na qual o poeta Wally Salomão fala de poetas e da poesia.
Enfim, feliz Dia da Poesia, leitores e poetas, para quem todos os dias é dia de poesia!

Vejam um pouco do documentário premiado sobre Manoel de Barros:


Para ver mais:

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

FÉRIAS OLEOSAS - Gilberto Cardoso dos Santos



Nestas férias, resolvi pesquisar sobre saúde. Vocês sabem como é: quarenta e sete anos, é bom começar a prevenir. Descobri, para nossa surpresa e desconfiança, que o ovo pode ser comido à vontade. O que o torna prejudicial é a fritura. Todavia, se frito em óleo de coco não causa mal nenhum. O óleo de coco, que protagonizará esta crônica, é uma verdadeira panaceia. Riquíssimo em ácido láurico, fortalece o sistema de defesa do organismo. Mesmo depois de usado numa fritura, pode ser reutilizado. Qualquer outro óleo que se utilize em frituras é prejudicial. Esqueçam óleo de canola, girassol ou algodão. Azeite de oliva é bom, mas só cru.

Saí em busca de um vendedor de óleo de coco e quase não pude achar. O único que encontrei depois de muita procura me disse que fazia sempre, mas não dava pra quem queria; no momento tinha apenas uns dois dedos. "Quer?" "Quero!" E comprei por 5 reais. Mas aquilo não dava pra nada, pois minha mulher se empolgara com a coisa e queria tomar umas duas colheres por dia, conforme ouvira um especialista aconselhar, para prevenir enfermidades diversas e para ficar magérrima como Giselle Bünchen. Ela lembrou-me da avó que utilizava o óleo para amolecer feridas, para estirar os cabelos... mas advertia: não pode ser bebido! Então decidi: eu mesmo extrairia o óleo. Primeiro fui ao Google, que é o mais entendido no tema atualmente. Lá encontrei a receita. "Muito simples", pensei, e fui à rua atrás de cocos.

Comprei dois grandes, cheios d’água. A receita dizia que com quanto mais água melhor. Não deveriam ser muito secos. Quando falei do propósito, o vendedor me disse que óleo de coco é um santo remédio, mas que não é todo mundo que consegue fazer. Tem que ter a cabeça boa, disse ele, e sua afirmação foi confirmada por uma senhora que se achava ao lado. Disse que se a pessoa não tiver a cabeça boa, usa um bocado de coco e no final não dá nada. “É uma ciência”, arrematou o vendedor. Fiquei sem saber o que eles queriam dizer com cabeça boa e saí dizendo a mim mesmo: “Se cabeça boa for o que estou pensando, vou me tornar o maior produtor de óleo de coco da região!”

Fui à procura do rapa coco. Havia de dois tipos: um com cabo de madeira, normal, e outro de alumínio em formato de peixe. Ainda podia optar entre rapa coco com ou sem furo para passagem da raspa. Optei pelo de alumínio por parecer-me mais resistente. Pensei nos muitos cocos que a partir daquele teria que raspar para obter o precioso óleo. Pechinchei com o vendedor e enquanto pedia o abatimento chegou um senhor, também mangaieiro; este me contou a história de alguém desenganado pelos médicos, que tomara óleo de coco e ficara totalmente curado. Ainda hoje tá vivo! “Abaixo de Deus, meu filho, não há remédio melhor! Pra problemas nas partes, na prosta, é tiro e queda!”. Um senhor ao lado, ao ouvir a menção a Deus, tirou o chapéu e confirmou o dito.

Quando estava pagando o rapa coco, chegou a mulher do vendedor. Fui informado por este que a mulher dele também produzia óleo de coco, mas que o óleo dela era muito caro. Acrescentou: Essa mulher não tem a cabeça boa, professor. Pra fazer um litro de óleo ela gasta uns cem cocos! A mulher não gostou do que ouviu e replicou: “É não, abestalhado. É que o óleo é pouco mesmo. Vai fazer pra tu ver!” O pior veio depois quando o mangaieiro disse por quanto havia vendido o rapa coco. A mulher disse que ele é que não tinha a cabeça boa e ficava falando dela. Daquele jeito eles iriam à falência. Onde já se viu, o rapa coco tinha sido comprado por um preço alto e ele estava me entregando quase de graça. Ele retrucou que aqueles rapa cocos estavam boiando fazia tempo. Era melhor vender que deixar encostado. Ela disse: Foi mesmo que dar o rapa coco a ele. “Pronto!”, disse o vendedor. "Faz de conta que eu dei de presente a ele nesse começo de ano." Para desfazer o clima e dando uma de quem não tinha nada a ver com o “peixe” – resistindo firmemente ao impulso de devolver o rapa coco ou à ideia de pagar alguma diferença - perguntei o valor do óleo e ela me ofereceu uma garrafinha de nada – um protótipo - por vinte reais. Saí em silêncio enquanto o vendedor dizia: “Eu não disse que o óleo dela era caro, professor?”

Na verdade eu estava muito feliz ante a possibilidade de extrair meu próprio óleo, em condições higiênicas desejáveis e a baixo custo. Ah, faltou um detalhe: antes tive que comprar um liquidificador – elemento imprescindível conforme vi na receita. O nosso não prestava mais pra nada. Chegando em casa, dei início à grandiosa tarefa de produzir o miraculoso líquido que, junto a outros cuidados que estou tendo, me permitirá ultrapassar a casa dos cem completamente saudável, com o vigor de um adolescente. Parti o primeiro coco, enorme, mas estava podre, tive que descartá-lo. Fui para o segundo e deu certo. Com o peixe de alumínio nas mãos, pus-me a raspar a deliciosa polpa branca quando, de repente, graças à minha inabilidade, ao invés de raspar o coco raspei o pulso direito (sou canhoto). Os dentes metálicos do peixe deixaram quatro rastros vermelhos e lá se foi a higiene pretendida pois parte da polpa ficou ensanguentada. "E agora?", pensei. Fui ao frasquinho onde estavam os dois dedos de óleo adquiridos a duras penas e apliquei algumas gotas no pulso, pois aprendera que pra ferimentos não há melhor. Depois de isolar a parte sulcada, retomei a árdua tarefa, ciente de seu alto grau de periculosidade. Ainda bem que eu tinha um coco de reserva, comprado na semana anterior (um só me parecia insuficiente). Parti este terceiro apreensivo, mas vi que ele já estava largando o óleo naturalmente. Pareceu-me no ponto.

No liquidificador coloquei a rapa com a água recolhida dos próprios cocos e esbagacei tudo. Escorri o leite numa peneira, coloquei o bagaço num pano e espremi até fazer caretas. Era o leite pingando e o suor caindo. Agora, vinha a parte pior: ter que esperar quarenta e oito horas, conforme prescrevia a receita, para que, incubados num lugar completamente escuro, os componentes do coco se separassem naturalmente. Passei o sábado e o domingo na maior ansiedade. Eu queria fazer aquilo sozinho. Não permitiria que alguém metesse a mão em meu precioso óleo pelo qual até sangue verti. No domingo à tardinha fui à vasilha, guardada “debaixo de sete chaves” na despensa. Despi-a com delicadeza, como um recém-casado despindo a esposa. E o que vi na vasilha de vidro? Duas camadas. Uma enorme, líquida, tendo por cima uma baba branca, fininha, que me pareceu ser algum bagaço de coco que escapara pelas malhas do tecido. Tirei aquela baba. Minha esposa, sabedora dos múltiplos usos do coco, pediu para tentar fazer algo com ela. Quem sabe, se levada ao fogo não daria uma farofa?

Na vasilha ficou uma quantidade enorme de líquido. Pensei comigo: Agora vem a penúltima parte da receita. Vou colocar o líquido numa garrafa plástica e deixar passar um tempo. Depois de mais 3 ou 4 horas o óleo se separará da água e eu terei o precioso remédio para muitos dias. A última etapa seria colocar a garrafa plástica com os líquidos separados no congelador para que se solidificassem. Por fim, deveria cortar o recipiente rente à faixa do óleo e ufa: em temperatura ambiente deixaria que o óleo extraído a duras penas voltasse à sua forma natural. Nessa bendita noite, tão cheia de expectativas, minha sogra (mulher que conhece coco como a palma da mão. Quenga, por exemplo, ela diz conhecer à distância) veio jantar conosco e provou da deliciosa farofa preparada por sua filha. Eu também comi e achei-a um manjar dos deuses. Pena que era tão pouca! Quando a amada sogra – única da espécie que me faz ter ofiofilia - foi à geladeira e viu a garrafa no congelador, perguntou o que era. Minha esposa explicou o processo todo, a história da baba que eu tinha descartado... “Vote!”Exclamou a Micrurus corallinus, “e ele vai fazer o óleo com quê?” Em seguida explicou que o óleo se achava justamente na baba que eu havia pretendido jogar fora.
Bem, o que restou disso tudo? Muitas risadas naquela noite, que atrapalharam nosso sono; quatro riscos no pulso, parecidos com marcas deixadas por unhas de gato; uma garrafa Peti com uma substância que minha esposa vai tentar transformar em farofa ou vinagre de coco e um desejo enorme de saber onde posso comprar o óleo virgem, barato, produzido sem cozimento.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

SONETO ACRÓSTICO DE UM PAI FELIZ - Gilberto Cardoso dos Santos








Débora, em seu primeiro dia (15.02.1998)

Escrito para o aniversário de Débora em 15.02.2012

Dileta filha a quem amo tanto
É muito bom ter uma filha assim
Bondosa e meiga, cheia de encanto
O que melhor a vida deu pra mim.

Recordo os dias bons que já tivemos
As alegrias que você nos deu
Foram momentos que não esquecemos
Entesourados estão no meu eu.

Raros os pais que assim podem falar:
Nada nós temos para reclamar
A sua vida só trouxe alegrias

Nunca esqueça: muito a amamos
Dias felizes, é o que desejamos
Agora e sempre, todos os seus dias.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

NÃO BASTA SER ÁGUA - Gilberto Cardoso dos Santos







Virou moda consumir água mineral, seja pela praticidade, seja pelo sabor ou pela ideia de tratar-se de uma água melhor. No nosso caso específico, a constante falta d'água acaba contribuindo para que tenhamos esse gasto extra.
Todavia, todos faríamos muito bem se, além de consumir água mineral, parássemos pra dar uma olhadinha no rótulo da que consumimos. Ali, como ocorre com as carteiras de cigarro, há informações obrigatórias para as quais quase não atentamos. Algumas marcas que não atendem aos padrões as colocam, ainda que constrangidos, mas não devem se preocupar muito pois raramente alguém tem noção da importância do que ali está escrito e para pra ler as letras miudíssimas.
No rótulo acima, escolhido aleatoriamente para ilustrar a presente matéria, lemos:
“Conservar em local seco, fresco e evitar exposição aos raios solares. Mantenha longe de produtos que exalem odores fortes.”
Aqui temos o primeiro dos graves problemas com a água cara que eu e você consumimos. Vejo passar perto de minha casa carros cheio de garrafões, com as carrocerias descobertas. Provavelmente essa água vem da capital exposta ao sol e aqui prossegue enquanto o representante vai de supermercado em supermercado, de mercadinho em mercadinho. Certamente você já viu motos conduzindo água mineral e bujão lado a lado, seja num carroção, seja na própria moto. E isso sob sol causticante. Aliás, a dobradinha bujão/água mineral é muito comum. Passam diante de nós tais recipientes aos solavancos, postos lado a lado e se tocam, ainda que de leve, apesar da exigência de que a água ideal não tenha cheiro (água sem gás com gás!). Na outra semana, enquanto o carro passava por minha porta em direção ao mercadinho próximo, liguei para o proprietário e solicitei a ele que apresentasse tal problema ao vendedor. Ele me agradeceu e disse que apresentaria o problema ao entregador. Também é comum encontrarmos garrafões ao sol, em porta de estabelecimentos comerciais por falta de espaço ou para fazer propaganda.
Qual o problema com o sol? Por que os engarrafadores são obrigados a colocar tal aviso? É que o sol em contato com o plástico provoca na água a liberação de xenoestrogênio, uma substância perigosa que surgiu como efeito colateral do desenvolvimento tecnológico, capaz de provocar câncer e diminuição na libido. Tal substância, depois que se aloja no organismo dá trabalho a sair. Literalmente, é preciso derramar muito suor para que isso ocorra. Mesmo assim, sua eliminação não ocorre cem por cento e muitos são os males que podem provocar.
Como se não bastasse, o garrafão de plástico – originário de substâncias tóxicas, petrolíferas - interfere no sabor da água, principalmente depois de exposto ao sol. Experimente tomar água em garrafa de vidro e notará diferença no gosto.
Outra coisa a se levar em conta ao comprar água é o pH, ou potencial Hidrogeniônico da água. O pH da água ora analisada é de 5,16.
A saúde do corpo está diretamente relacionada ao seu pH. Quem consegue mantê-lo no nível correto mantem-se imune a muitas enfermidades e tem tudo para viver mais. Como nosso corpo, dominantemente, é composto por água, é necessário que demos a maior atenção àquilo que ingerimos. Não basta ser água. Não basta ser H2O!
Lemos no rótulo, desta vez em letras grandes negritadas: “NÃO CONTÉM GLÚTEN
Para a maioria de nós tal informação passa despercebida e não tem qualquer importância. Todavia, é importantíssimo que a nossa alimentação diária esteja livre dessa substância. Após ingerida, ela transforma-se numa espécie de cola, gruda nas paredes intestinais e provoca, entre outros males, o aumento da gordura na região do abdômen. Se eu disser que ela também pode provocar enxaqueca e depressão, acreditem. Nesse quesito a DAFÉ merece fé.
Acho dispensável aqui me estender sobre o quanto temos prejudicado o meio-ambiente com os recipientes plásticos de água mineral que atiramos fora.
Por fim, melhor que consumir água mineral dentro das condições acima expostas (já que não temos acesso direto a fontes límpidas e cristalinas), é consumir a água que nos vem pela torneira.
De acordo com a Portaria 518/04 do Ministério da Saúde a faixa recomendada de pH na água distribuída deve estar entre 6,0 a 9,5. A nossa está entre 6,0 e 9,0.
Alguém poderá retrucar que o sabor da água que nos chega (quando chega) pela torneira é desagradável, não se compara com o da mineral. Bem, ela nos chega pronta para ser bebida (apesar do cloro, dúbio em seus efeitos) mas, para resolver isso, você poderá adquirir um filtro de barro, um daqueles que antigamente tínhamos em casa (custa menos de 50 reais um), apresentado por pesquisadores americanos como o mais eficiente de todos. Há também os filtros que você pode acoplar à torneira da cozinha e as velas e filtros de carvão ativado que são de extrema eficiência na eliminação de odores, bactérias, metais pesados e de cloro. Para alguém que esteja pensando “isso deve ser caro”, pense no quanto você economizará ao longo de um ano deixando de comprar água engarrafada.
Portanto, senhores e senhoras consumidores de H2O, juntem-se a mim, de algum modo, no combate a esse problema que afeta a todos. Se queremos continuar a consumir água mineral, passemos a ler os rótulos das que consumimos ainda que, para isso, tenhamos que adquirir uma lupa; exijamos que ela seja trazida em condições ideais da fonte até o estabelecimento comercial e do estabelecimento comercial até nossa casa. Afinal, é a nossa saúde e a daqueles a quem somos fiéis até debaixo d’água que está em jogo.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O ÓDIO À POLÍTICA - Gilberto Cardoso dos Santos

Ensinaram-me, quando adolescente, que  deveria manter-me longe das discussões políticas. É provável que o leitor também, alguma vez, tenha sido incitado a não se meter em controvérsias partidárias. Eu e você já nos cansamos de ouvir muitos que,  manifestando profundo asco, dizem: “Odeio política!”
De fato, quando pensamos nos desmandos comuns às três esferas  do poder, somos possuídos pela indignação. As muitas decepções que tivemos sempre que apostamos neste ou naquele candidato, leva-nos a olhar com asco para a política. Todos “são farinha do mesmo saco”, como bem metaforiza a sabedoria popular.  A expressão bíblica “não há um justo, nenhum sequer”, tirada de seu contexto,  parece perfeitamente aplicável ao mundo da política. Pensar em política, para a maioria, é pensar em hipocrisia, em corrupção, em bandalheiras, em injustiça social, em mentiras. A palavra POLÍTICA fica ao nível de termos que provocam ojeriza.
No entanto, quando bem se analisa, percebe-se que ninguém, de fato, odeia a política. Odeia-se, sim, os maus políticos, as tramóias partidárias, as medidas tomadas ao arrepio da lei, as inomináveis flexões que são feitas a artigos constitucionais para garantir a impunidade de apadrinhados.  Odeia-se, em suma, a politicalha e jamais a política. O homem, como observou o filósofo  Aristóteles, é um ser político e social. A vida em sociedade exige-lhe ter tal característica. Rui Barbosa, no célebre texto em que busca diferenciar política de politicalha, afirma: “A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis”.  Já a politicalha, diz ele, “é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis.”
Quem discordará e se oporá a tais definições? Quando falamos mal do jogo sujo, dos conchavos partidários, do desvio de verbas e do riso hipócrita daqueles que só nos buscam em tempo de campanha, é de politicalha que estamos falando. Sabe a raiva que eu e você sentimos  daqueles que retiram o voto para que determinada CPI não ocorra, e isto por causa de pressões daqueles que, no passado, já foram exemplo de moralidade? É de politicalha que estamos tratando aqui, não de política. Quando vemos baixarias nos debates públicos, é politicalha o que estamos vendo.
A política, na verdade, beneficia a todos e se faz imprescindível à vida em sociedade. O problema é que fomos induzidos a misturar o genuíno com o falso, a confundir a verdade com a mentira, a reagir negativamente, como numa experiência pavloviana, a tudo que esteja relacionado a tal termo, devido tanto e tanto convivermos  com a politicalha. Mantenhamos a política ao menos como ideal utópico, inatingível em seu sentido absoluto mas em parte alcançável. Sufixemos, com letras garrafais e em negrito , tudo que seja  classificado como política mas que bem mereça rimar com tralha. Busquemos, como sugeriu Rui, contribuir para a higienização do país, do estado e da comunidade, praticando e promovendo a verdadeira política. Nada de odiá-la. Nós sempre a amaremos, a desejaremos e precisaremos dela.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CONVÉM QUE ELE CRESÇA - Gilberto Cardoso dos Santos

Na Bíblia, um profeta se agiganta, arrasta multidões.
Mas alguém a quem  o visionário exalta  começa a crescer e a ofuscá-lo.

Amigos e seguidores  têm a sensação de que o novato está tentando passar a perna em seu guia. Buscam-no queixosos. - Desse jeito, mestre, teu trabalho vai de água abaixo - dizem, em outras palavras.

O profeta, ao invés de manifestar preocupação, replica:
- Convém que ele cresça e que eu diminua.

Choque para seus seguidores, repreensão para os  religiosos de hoje. 
Onde esta palavra é lida, dá-se o contrário: "Convém que ele diminua e que eu cresça".

Este "ele", pode referir-se ao Cristo ou àqueles em que o Cristo estaria.  Parceiros de fé. "Convém que eu brilhe mais no púlpito". "Quero que a verdade resplandeça, mas que seja por meu intermédio."

Se tal filosofia de vida  não poupa sequer os irmãos e se manifesta onde se crê que Deus esteja presente, é de se esperar que se estenda às relações políticas, familiares e de trabalho de tais pessoas. De fato, é o que vemos.

"Ah, incrédulos, sabei que não poupo sequer a meus irmãos, quanto mais a vós. Convém que eu cresça."

Na  máfia dos sanguessugas,  mais da metade da propina estava em mãos de parlamentares evangélicos. O sangue do cordeiro foi espezinhado. A mensagem era: "Convém que meu patrimônio cresça, não importa a que preço."

Púlpitos eletrônicos, mensagens diversas, mirabolantes. Todas, porém, com um só fim: Convém que as outras igrejas diminuam e a minha cresça. "Traidor!", gritou recentemente um famoso televangelista referindo-se ao rival que pagou o dobro para tomar seu espaço na mídia. Não se trata de conflitos entre frágeis ovelhas, mas briga de cachorro grande.

E o que dizer daqueles que eu e você conhecemos mais de perto - aqueles que se alimentam do sangue do próximo e se dizem cobertos pelo sangue sagrado?

Qual Rômulo e Remo, buscam as tetas da loba do poder e se dizem ovelhas; andam imponentes e risonhos, com um halo imaginário de santidade; são orgulhosos e indignos de confiança.

Na Bíblia deveriam constar mensagens opostas às que lemos, pois os religiosos costumam fazer exatamente o inverso do que ela ensina.

Decerto há exceções, mas quão raras são!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ACERTO DE CONTAS - Gilberto Cardoso dos Santos

Em busca de uma imagem para ilustrar este texto, encontrei a seguinte, seguida da explicação "POLÍCIA DIZ QUE FOI ACERTO DE CONTAS"

"Foi acerto de contas."
Com essa expressão, dá-se explicação para crimes praticados por jovens mal escolarizados, pouco hábeis com cálculos matemáticos, exterminadores de outros que não aprenderam a calcular bem as consequências de seus atos.
Acerto de contas? Pergunto-me. Que somas e multiplicações malucas são essas que resultam em subtração de vidas? Chama-se acerto ao que na prática é um desacerto.
Juros exorbitantes, decerto. Pagamentos imorais.
Essa ideia de "pagar" pelos erros com a própria vida é bem antiga. Tem raízes bíblicas. Se no passado foi fonte de tantos prejuízos para a humanidade, imagine hoje em que há tão grande inversão de valores e a vida vale tão pouco.
Quando se "acerta" uma conta passa-se de cobrador a devedor. E agora, como saudar o débito com a Justiça e com a família do que pagou à força, daquele que saudou a conta com o que tinha de mais precioso? Bem, contas vão sendo pagas e outras vão sendo criadas.
O "perdoai as nossa dívidas", criado para o cotidiano acerto de contas com Deus, precisa agora ser dirigido a seres humanos desumanos e autodivinizados (feitos deuses, digo, por se acharem no direito de dar cabo à vida).
Enquanto houver tais acertos, viveremos em meio a desacertos.
Tal matemática não é exata. O saldo devedor, quando debitado, sempre ficará aquém do resultado pretendido.
Tal expressão "acerto de conta", tem o dom de manter na calma a sociedade. "Foi acerto de contas? Ah, tá." A explicação é mais que suficiente. Cobradores e devedores que se entendam. Decerto havia droga na história... ah! com certeza. Briga de gangues. Era um ladrãozim. Tinha mais jeito não. Policiais em pequeno número, desvalorizados e despreparados para enfrentar a criminalidade crescente, tentam, sem perder a compostura, dar algum consolo aos familiares chorosos. No fundo, porém, suspiram aliviados com um a menos para lhes dar trabalho.
"Eles não somam", diriam alguns. São parcelas insignificantes. Todos têm consciência de que o resultado desta conta não está certo, mas os fins justificam os meios.
Desse modo, o descaso social, a corrupção política e a falta de investimentos vão permitindo a matemática macabra, deixando que vidas sejam subtraídas. De modo algum isso incomodará a sociedade, desde que no final se descubra que se tratou apenas de mais um acerto de contas.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

IGREJA DA MATRIZ - Gilberto Cardoso dos Santos


Igreja da Matriz
reduto de crianças
oásis de esperanças
de um povo infeliz

Gigante imponente
dedão arquitetônico
mostrando-nos, lacônico,
um mundo diferente.

Destaque na paisagem
reinante em imponência
gerando reverência
num povo de passagem...

vão-se as gerações
e as gerações vindouras
no espaço que tu douras
te enchem de orações.

Jamais te faltarão
as vozes piedosas
de mulheres idosas
clamando em oração

Jamais há de faltar
o riso de garotos
ainda tenros brotos
entregues ao altar

a tua umidade
de lágrimas e batismos
fertiliza os abismos
da subjetividade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

PRESEPADAS DO CAPETA NO SHOW DA FÉ - G. C. dos Santos


       ORIGEM DA FOTO: BLOG DO WASHINGTON GERALDO CARDOSO


Eu, G.C. dos Santos, estive no Show da Fé de Romildo Ribeiro Soares, ocorrido em 2011 no Ginásio Marcílio Furtado. Como poderia deixar de ver, ainda que movido por curiosidade e não por fé, o show daquele que figurou nas páginas da Veja como o homem que mais aparece na TV e que, pela primeira vez, se achava entre nós? Visto de perto e sem o auxílio das estratégias de filmagem, pareceu-me menor e menos imponente.

Quando entrei, ele ainda não se achava no palco. Um outro pastor tentava estimular a generosidade dos fiéis vendendo dvds que falam da importância de contribuir com a obra de Deus, uma contribuição que gera contribuição. "Vinte reais", dizia ele, e gracejou: "Se você não tiver uma nota de vinte, não tem problema. Nós aceitamos duas de dez." Naquele clima de bom-humor, abriam-se os sorrisos e os bolsos.
Quando Romildo assumiu o palco, houve um verdadeiro frenesi. Esperto e já experimentado no contato com aqueles que o veem como um embaixador do céu, iniciou com uma seção de fotos para, em seguida, com os ânimos mais acalmados, iniciar sua conversa com a plateia. Conversa, digo, porque ele fala com todos como se falasse apenas com um. É de uma naturalidade impressionante. Com muita facilidade consegue penetrar nas almas e bolsos dos fieis.
Isto é o que entendidos em oratória chamam de técnica de dissolver multidões. Jesus a teria usado no episódio em que quiseram apedrejar

a pecadora. O indivíduo, antes de sentir-se parte do grupo, está a ouvir o missionário em tom quase confidencial, coloquial, como se fossem amigos há longo tempo, conversando a sós. Além disso, ele não cansa o ouvinte com sermões longos. Entre uma reflexão e outra, faz apelos de caráter financeiro.

Autoridades municipais estiveram presentes no palco com ele. Pediu que pusessem a mão na cabeça e ordenou em oração que todos seus pecados fossem perdoados; todas as enfermidades foram repreendidas; tumores receberam ordem para se retirar de imediato. Caso tenha valido a prece, saíram completamente limpos, reciclados, saudáveis, prontos para liderar o povo.

Mas algo triste, dissonante, ocorreu. Uma mulher endemoninhada começou a gritar e a esbravejar na entrada do ginásio. O missionário, ao invés de libertá-la, delegou a responsabilidade a obreiros locais. A atenção no ginásio ficou dividida entre o missionário e a possessa. Optei pela mulher, que se contorcia toda e rangia os dentes.
Em vão, pastores, obreiros e obreiras tentaram expulsar o intruso. Às vezes ele parecia sair - ou saía - mas logo retornava com todo gás. Fiquei bem próximo, acompanhando tudo. Não detectei qualquer sinal de fingimento na mulher. Se era farsa, estávamos diante de uma atriz perfeita, digna da Record. Parecia algo bem real. Vi o suor escorrendo dos obreiros e obreiras, a humilhação diante da multidão, a ineficácia de suas preces e gritos. Uma obreira da Assembléia gritou a plenos pulmões no ouvido da mulher, mas o demônio parecia surdo.
A indiferença de Romildo diante daquela cena grotesca também me chamou a atenção. Pôs-se a cantar com a multidão, como a querer abafar os sonidos horrorosos que a possessa emitia. Não pediu que a trouxessem até ele nem foi ao seu encontro. O tempo se arrastava e o milagre não acontecia. Romildo pediu que fechassem os olhos enquanto um outro pastor oraria e, como sempre ocorre em suas palestras, saiu de fininho do palco durante a oração. Quando os irmãos disseram amém e abriram os olhos, o homem havia desaparecido!

Uma criança, filha desta mulher, chorava em meio ao burburinho. Doeu-me ver tudo aquilo, a mulher exposta ao ridículo, às vezes semidesnuda, jogada ao solo, protagonizando um vexame que parecia interminável.
Como já passasse do meio-dia, precisei retirar-me. Saí, mas o demônio ficou.

Na manhã seguinte, encontrei um ex-gay, hoje convertido ao pentecostalismo, que estivera no evento, e troquei com ele algumas palavras:
- O que achou do culto de ontem?

- A-do-rei! Foi uma ma-ra-vi-lha! O missionário tem muita unção, não é?
- (...) E o demônio que estava naquela mulher, saiu?
- Saiu não, professor. Quer dizer... saía, mas voltava. Eu acho que aquela mulher já esteve envolvida com catimbó, tem o corpo preso. Antes de ser crente tem que levar ela no centro espírita pra quebrar as correntes.
Depois vi na TV, no canal da denominação, a gravação desse culto. Quantas bênçãos foram mostradas! Naturalmente não iriam passar tudo que ali ocorreu, mas só o que interessava à fé.
Uma das coisas que gostaria de ter visto e não ví foi esse episódio com a endemoninhada.

domingo, 15 de janeiro de 2012

ENTREVISTA COM A POETISA SIRLIA SOUZA DE LIMA - EDUCADORA, POETISA E MEMBRO DA ANLIC


Sírlia Sousa de Lima é Pedagoga, Especialista em Educação Infantil e descobriu nos versos do cordel uma maneira de encantar e ressignificar a leitura literária por meio de obras inéditas e releitura de clássicos em versão de cordel.

Como Educadora Infantil do Município de Natal, fez de sua sala de aula um verdadeiro laboratório onde os alunos do CMEI padre Sabino Gentille, seus maiores inspiradores além dos Professores e alunos da Rede pública de Natal que incentivam os escritores de nossa terra valorizando a cultura Potiguar.

GILBERTO: Olá, poetisa, Sirlia:  

Conforme sugeriu, disponho-me a ouvir os demais membros da ANLIC.

Fale-nos sobre sua pessoa, obras e trabalhos que desenvolve.

SIRLIA:   Sou Educadora por vocação, poeta por inspiração, nasci em Mossoró, tendo vindo para Natal ainda criança, minha história com a educação começou  quando cursei o Ensino Médio optando pelo Magistério, uma tendência das mulheres da minha família por  parte de mãe,daí fui me apaixonando pela profissão e até hoje não me reconheço em outra, mesmo diante de tantas dificuldades.Casei- me aos 16 anos e dei uma pausa nos estudos devido as dificuldades da época, fui mãe aos 17 anos ,no ano de 1984, época da hiperinflação, desemprego, etc. Tive que viajar para outro Estado em busca de dias melhores, passei 2 anos no Estado de Rondônia e acabei voltando com meu esposo e já com a segunda filha  para Natal, na volta tudo foi mais fácil, encontramos emprego rápido e tudo foi se organizando. Quando volto a Natal  2 anos depois, engravido da minha terceira filha, aí já viu... Tive que adiar a minha carreira por um tempo, embora nunca perdesse o hábito de estar sempre em busca do conhecimento. Aos 38 anos fui aprovada para o curso de Pedagogia no Vestibular da UFRN e hoje já concluí uma Especialização Em educação Infantil, Já Atuo há 3 anos enquanto Educadora Infantil, concursada pelo município de Natal.Tenho Um Projeto Literário em que atuo em outras escolas disseminando a literatura de cordel e despertando o prazer pela leitura, para pessoas de todas as idades, visto que tenho produções para todas as modalidades de ensino. Meu Projeto é: Projeto Bem Te Vi: Inspirando leitores e promovendo talentos da literatura de cordel nas  Escolas.  Consiste em trabalhar textos temáticos utilizando a literatura de cordel, para interpretá-los, recriá-los, e produzir também capas desses cordéis, assim como deixar os alunos livres para produzir suas criações. Fazemos uma seleção e o melhor trabalho da turma é publicado e esse aluno ganha um premio educativo, simbólico, visto que o projeto é realizado com recursos próprios. Este ano, mais feliz ainda porque vou completar trinta anos de casamento com o homem que a cada dia me faz sentir amada e o qual eu amo sempre mais a cada dia, digo sempre que ao lado dele eu “Começaria tudo outra vez, se preciso fosse, meu amor...”


GILBERTO: Como e quando se deu seu despertar para a poesia e para a importância da leitura?


SIRLIA:   Quando fui aprovada para o  concurso de Educadora Infantil do Município de Natal e toda a minha experiência relacionada com a prática de ensino era com o Ensino Fundamental, ainda na UFRN, em 2008, comecei a produzir textos em cordel , o que se tornou uma paixão pessoal, a qual eu conduzi para a vertente da Educação e tem sido um sucesso.Produzi em meu espaço educativo cordéis, livros ilustrados com texto em cordel que aguçou a imaginação e o prazer das crianças.Tanto é que meu trabalho ultrapassou os muros de minha escola e se disseminou por Natal e pouco a pouco No Rio Grande do Norte, Recebi um email da Diretora de uma Rede particular de Brasília, agradecendo por minhas criações infantis, afirmando ela que meus textos estão sendo trabalhados em todas as escolas dessa rede, é isto o que me deixa feliz, saber que o que produzo, está provocando o leitor de alguma forma.

GILBERTO: Qual a importância da Literatura de Cordel para os dias atuais?

SIRLIA:   Considero a literatura de cordel,um gênero literário maravilhoso, simples de compreender , rico de musicalidade, rima, métrica, além de ser um veículo de informação de baixo custo onde assim como em outros gêneros literários, você pode encontrar textos com boa qualidade, ou de baixa qualidade.

GILBERTO: Cite nomes de alguns cordelistas a quem admira ou que exercem influência sobre seu estilo. Quais os melhores cordéis que já leu?


SIRLIA: Gosto muito do Poeta José Saldanha, do Antonio Francisco, e daqueles cordéis tracionais: Coco verde Melancia, Pavão Misterioso de José Camelo de Melo Rezende, aqui no RN  gosto do Boquinha de mel entre tantos outros. O que mais me influencia é a apaixonante obra de Patativa de Assaré, gosto muito de escrever obras de cunho sócio político e o meu pensamento se converge com o de Patativa em alguns momentos.
 
GILBERTO: Fale-nos um pouco como ocorreu a criação da ANLIC e quais os critérios de escolha que permitiram a você assumir uma das cadeiras.

SIRLIA:   Surgiu por meio da Luta de diversos poetas norteriograndenses entre eles o nosso poeta amigo de tantas parcerias, o Hélio Gomes, do qual fui parceira do Projeto Cordel No Shopping por 2 anos.Não foi feita assim, na correria não, Tivemos muitas reuniões, todas com atas, registrando tudo o que foi votado e aceito por todos de forma democrática. Inclusive ontem, houve reunião e foram relidas todas as atas das reuniões anteriores, onde todas as afirmações que o Poeta deu, se contradizem pelas provas documentais. Digo mais, achamos precipitada a sua saída e todos foram unânimes em solicitar a sua volta, estavam pensando em fazer abaixo assinado. Quanto aos critérios, foi lido um documento sobre estes critérios, resumindo os acadêmicos tem que ter algum elo com a literatura de cordel, seja como produtor de texto, xilogravurista, em meu caso foi o trabalho com o cordel voltado para a educação, onde já tenho mais de 10 livros e por volta de 150 textos em cordel todos produzidos de 2008 até agora. Meus textos se encontram no Recanto das Letras, visite! (Sírlia Lima - Textos - Recanto das Letras )

GILBERTO: Após ler a ENTREVISTA COM POETA HÉLIO GOMES você sugeriu que eu buscasse ouvir outros membros da ANLIC. Qual sua versão para os fatos ocorridos, que redundaram na renúncia do vice-presidente? Como e quando teve início essa discórdia? Particularmente você tem alguma ressalva quanto ao Projeto Cordel no Shopping?

SIRLIA:   Vou começar falando do Cordel no Shopping, este projeto, causou  inveja em algumas pessoas do meio da poesia, que ficavam paradas no tempo, quando viram o sucesso do Cordel no Shopping, começaram a criticar, isso é normal, faz parte em todos os setores, Funcionava assim, convidávamos poetas para declamarem, convidamos atrações musicais, para não tornar o evento cansativo. Eu já levei por diversas vezes amigos meus músicos de qualidade, para difundir cultura, o Hélio sempre pensava num tema e lá fazíamos lançamentos de cordéis, os alunos premiados do meu Projeto participavam do Evento, era lindo...
Como você já sabe a nossa Academia, é recém criada, ainda temos que dar muitos passos, foi acertado que no mês de março os Patronos da Academia, foi então que soube que  O Hélio iria homenagear os patronos no Cordel no Shopping, nada contra porém deveríamos deixar que a Academia fizesse isto em primeiro lugar,afinal o Cordel no Shopping já é um sucesso e temos tantos outros temas para abordar. Quanto ao Cordel no Shopping é como eu já disse um Projeto muito bom!

GILBERTO: Que espera dos demais membros, para evitar que tais discórdias venham a se repetir?

SIRLIA:   Ontem na reunião conversamos sobre tudo isto, e vamos até criar uma comissão de ética para que não ocorra mais desagravos dessa natureza.Todos  que quiseram se expressar tiveram oportunidade e todos quase numa só voz ,querem o Bem da Academia e que a paz  possa prevalecer.

GILBERTO: Quais as maiores dificuldades enfrentadas por essa recém-nascida instituição?

SIRLIA:  As dificuldades são as de todas as instituições culturais, que iniciam, processos naturais como formalização da Instituição, criação de documentos, vamos aprendendo a cada dia.

GILBERTO: Brinde-nos com uma poesia de sua autoria.

SIRLIA:  Produzi este na semana passada, já em 2012!

Bullying: Chega de dor, cultive o amor!

Sírlia Sousa de Lima



É duro ver as pessoas

Tristes, sentindo dor

Tudo sendo provocado

Pela falta de amor

Que destrói a humanidade

E tem causado tanto horror



Bullying  se origina

Do inglês a expressão

Derivação do bully

Tirinete ou valentão

Utiliza-se da violência

E da intimidação



Quem pratica Bullying

Age com truculência

E é considerado

Agente da violência

É um agressor barato

Da vítima não tem clemência



O Bullying está em todas

Tudo pode acontecer

Ninguém tem tranqüilidade

Corre o risco de morrer

Por causa da intolerância

E por questões de poder



A sociedade quer dar um basta

Nessa forma de cinismo

Não pode mais calar

Ajudando o banditismo

Porque quem cala consente

Vive a beira do abismo



As formas de agressão

Não seguem uma lógica

Pode ser violência física

E também psicológica

Também cometem homicídios

Chegando a ser patológica



Às vezes tudo começa

De uma simples brincadeira

Vai ferindo os sentimentos

Falando muita asneira

Chamando atenção para si

Com o amigo faz zoeira



Na escola o professor

Tem papel especial

Deve ser defensor

Combater esse mal

Menina de perna fina

É“Canela de pardal!”



Moça bonita é sereia

As negras não têm lugar

A não ser para serem cobaias

Motivo de  chacoalhar

Moça gorda é baleia

Usam animal para comparar



As mulheres com bichos

Sofrem comparação

Muitas são tidas por cadela

No Funk a exposição

Degradando a mulher

Que não faz reflexão



Ouvem o lixo cultural

Que vem dessa expressão

Desmerecendo a mulher

Delas tendo a permissão

Deixando-as no subsolo

Da desmoralização



Ao invés de combater

Muitas delas sem noção

Vão cantando essas músicas

Requebrando até o chão

Recebendo incentivo

Da mídia, da televisão



Considerada como objeto

Mulher é preferencial

Seus corpos são expostos

No close do comercial

Hoje a mulher virou produto

Muito barato e banal



É preciso reagir

E impor nosso respeito

Como podem nos respeitar

Se não agirmos direito?

Devemos usar a cabeça

Não o silicone do peito



Só querem ser cachorras

E depois vão reclamar

Quando seus pitibus

Querem lhes acorrentar

Vão levando bordoadas

E se põem a chorar



Eu já sofri o  Bullying

Como educadora reflito

Tão magra eu era chamada

De “Olívia Palito”

Eu era intimidada

Hoje eu lanço esse grito



Ninguém mais ouve cantiga

Do tengo telengo tengo

Hoje os brinquedos são armas

Como vimos em realengo

Ou em briga de torcidas

Seja Corinthians ou Flamengo



Meu colega por ser negro

Sofria humilhação

“Picolé de petróleo”

Era essa a expressão

Para se dirigir a ele

Não tinham contemplação



Em qualquer lugar

O Bullying se faz presente

Os pais comparam os filhos

Tem sempre um que sente

Que ninguém é igual

Cada filho é diferente



Outros pais constrangem

Falam coisas sem pensar

Que a vida do filho

Para sempre irá marcar

Sempre bons exemplos

Transformam o educar



Tem pais que tratam os filhos

De forma bem ausente

Põem a culpa no trabalho

Se mantendo indiferente

Não importa o vazio

Que o seu filho sente



Têm outros que tratam os filhos

Como galos na rinha

Incentivando as brigas

Para mantê-lo na linha

De futuro agressor

Que educação mesquinha



As tragédias se sucedem

Pela morbidade social

Que perdeu as rédeas

Da educação geral

Em casa ou na escola

O Bullying é um grande mal



Conclamo a todos

A sociedade em geral

Vamos disseminar o amor

O Bullying é visceral

Ou então voltaremos

A era medieval

GILBERTO: Quais seus projetos pessoais e como membro da ANLIC para 2012 e anos vindouros?

SIRLIA:   Como Membro da ANLIC e como educadora e poetisa que sou só peço  a Deus, sapiência, paciência e prudência para que eu possa continuar desenvolvendo meu trabalho com o respeito e o carinho que recebo dos colegas poetas, dos professores  e alunos do Rio Grande do Rio Grande do Norte,especialmente os de Natal com quem atuo de maneira mais próxima.

GILBERTO: Deixe-nos suas palavras finais e  um texto para reflexão.

Espero que a poesia
A paz ao outro emita
Quem tem amor não se irrita
Se ferir ao outro reflita
Pelo amor de Deus
E também de Santa Rita