domingo, 21 de junho de 2015

O SALTO QUE GÉLSON DEU - Homenagem a um santo antoniense



Gelson Pessoa e Robinson
aqui postos lado a lado
com o livro de Santo Antônio
certamente autografado
nesta dupla há magia
um domina a poesia
outro controla o estado.

 (Gilberto Cardoso dos Santos)


Numa manhã de domingo estávamos navegando nas águas do Facebook nossa tarrafa jogando era um passeio ignoto quando vimos uma foto que Gélson estava postando. 

Então eu fiz uma estrofe para homenagear inspirado pela foto que acabara de postar. Nela, o nosso escritor dava ao governador de seu livro um exemplar. 

O vate Marcos Medeiros a minha deixa pegou e uma sequência de rimas logo se encadeou. Melhorando o nosso plano logo chegou Marciano, boas estrofes glosou. 

Minerva e Rosinaldo por mesmo afeto movidos também teceram seus versos e foram bem aplaudidos. Isto a Gélson comoveu e, por fim, agradeceu pelos versos produzidos.

Gilberto Cardoso:

Ao escrever sobre a terra
Que a Xexéu concebeu
E sobre o salto da onça
Que em lenda se converteu
Apesar da estatura
Em prol de nossa cultura
Grande salto Gelson deu.

Marcos Medeiros:

Grande salto Gélson deu,
por nascer em Santo Antônio,
pois Xexéu ali nasceu,
dividindo o patrimônio,
aprendeu a poetar,
sobre o povo do lugar,
do citadino ao campônio! 

Gilberto Cardoso:

Faz parte do patrimônio
Local e estadual
A cultura "santooncense"
Um bem imaterial
Através desta empreitada
Decerto foi exaltada
Neste salto vertical.

Marciano Medeiros:

Nobre Gilberto Cardoso
Agradeço esta lembrança,
Reconhecimento é bom
Traz muita perseverança.
Tem Xexéu, Gélson e você,
Já vi Hélio na TV,
Esse quarteto não cansa.

Gilberto Cardoso:

Marciano entrou na dança
E a festa está melhorando
Merecida homenagem
A Gelson estamos dando
Bem antes dele “partir”
E a poeira vai subir
Com tanta gente “saltando”.

Marciano Medeiros:

Gilberto me elogiando
Consigo fama e respaldo,
Igual a Gélson Pessoa
Um escritor sem rescaldo.
Vou dizer honestamente,
É poeta inteligente
Do tipo de Rosinaldo.

Gilberto Cardoso:

Será positivo o saldo
De nossa versejação
Gelson Pessoa é pessoa
Digna de atenção
Merece nosso holofote
Quero que logo se esgote
De seu livro  outra edição.

Marciano Medeiros:

Escreve por vocação,
Gélson é pessoa decente.
Nós fizemos trocadilhos
Em cada estrofe eloquente.
Não faz poesia à toa,
O grande Gélson Pessoa,
Trouxe da rima a semente.

Gilberto Cardoso:

Não é rimador somente
Mas um grande defensor
Da cultura popular
Por quem nutre grande amor
Este grande menestrel
Mostra na prosa e cordel
Que é um bom escritor

Marciano Medeiros:

Até o governador
Reconhece a maestria,
Pois adquiriu o livro,
O senhor Robinson Faria.
Gélson, logo divulgou,
A foto deles postou,
Demonstrando cortesia.

Gilberto Cardoso:

É com profunda alegria
Que o santo antoniense
Assiste à exaltação
Daquilo que lhe pertence
Precisamos res-saltar
A cultura popular
Fazer com que o povo pense.

Marcos Medeiros:

Todo cidadão oncense
deve ficar orgulhoso
ao ver a sua cultura
feito um raio luminoso
e assim tiro o chapéu
pra que Gélson e Xexéu
deixem seu céu mais brilhoso!

Gilberto Cardoso:

Foi um salto exitoso
Esse que o Gelson deu
Se não foi um salto quântico
A luta que empreendeu
Foi salto de campeão
Parecendo um foguetão
Que a gravidade venceu.

Marciano Medeiros

 O povo já percebeu
Que Gélson é vitorioso,
Cidadão, amigo e simples,
Sem pompa de orgulhoso.
Engrandece a Santo Antônio,
Enaltecendo o campônio
No seu livro primoroso.

Gilberto Cardoso:

Na escrita foi cuidadoso
De nenhum pecado é réu
Imortalizou a história
De vates como Xexéu
Com toda simplicidade
O registro da verdade
Ele não deixou ao léu

Marcos Medeiros:

Uno Gélson e Xexéu
com Minerva e Marciano,
cada qual maior poeta,
fazendo verso decano,
orgulhando o povo oncense,
fazendo com que ele pense
como um povo soberano!

Gilberto Cardoso:

Nosso espontâneo plano
Decerto não combinado
Foi pôr o nome de Gelson
Num plano mais elevado
Com nosso recursos parcos
Também incluímos Marcos
Pelos saltos que tem dado.

Marciano Medeiros

O Marcos é preparado 
Usa termos verdadeiros,
Falando em biologia,
É grande Marcos Medeiros.
Igual a Gélson, é poeta, 
Fez de escrever sua meta
Pelos rincões brasileiros.

Gilberto Cardoso: 

Poetas alvissareiros:
Marcos, Gélson e Marciano
Unidos pelas virtudes
do evolutismo humano
Minerva e Rosinaldo
Também nos deram respaldo
Versejaram sem engano.

Marcos Medeiros:

com imensa primazia, 
usando versos bem feitos, 
poetando com simpatia, 
o que faz, tão gentilmente, 
com toda a força da mente, 
exaltando a poesia

Marciano Medeiros:

Tem muita sabedoria 
Há tempo vem demonstrando, 
Desta maneira o poeta 
Prossegue se projetando. 
Até no Valeu o Boi, 
O Gélson Pessoa foi
Com Xexéu dialogando.

Gilberto Cardoso:

Gelson prossegue saltando
Dando asas à cultura
Feito um menino que eleva
Sua pipa a grande altura
Ao povo fez muito bem
Tal obra seu sangue tem
Foi escrita com ternura





Versos de Rosinaldo

Não sou um santooncense
Mas arrisco aqui versar.
Que Gelson é um grande amigo

É um poeta singular, 
Isso de todos é sabido
Em seus versos e poemas
Escritos com talento e sorte
Dá pulo, salto e pinote
Escreve e puxa pro mote
A cultura popular. 

A lenda do saldo da onça
Faz questão de exaltar
E nos auspícios da poesia
O salto vai perpetuar.


Versos de Minerva Gomes

Gelson é grande escritor
Defensor da poesia

Escreveu grande historia
Da nossa cidadania
Fez da vida um cordel
Sendo aprendiz de Xexeu
Faz versos com maestria.
No resgate dessa historia
Ele foi primordial
Escreveu tudo rimando
De forma bem cultural
Trazendo assunto novo
Da cultura de um povo
Da terrinha escultural.

Participo de um momento 
De grande interação
Dos versos de improviso
Com tamanha dimensão
E mesmo como aprendiz
O meu coração me diz
Respondendo a emoção.



Versos de Gélson Pessoa 

Gilberto e Marcos Medeiros
Disseram grande verdade

Pois o salto que eu dei
Tive a felicidade
De mostrar grande valor
E todo o meu amor
Que tenho pela cidade.

Eu e o Poeta Xexéu
Vivemos na poesia
E somos Saltooncense
Com a maior alegria
E hoje eu tenho uma meta
De me tornar um poeta
Com Xexéu na maestria.


sábado, 20 de junho de 2015

IDENTIDADE: Sou tudo que representa as coisas do meu sertão


Minha colega de profissão e grande apologista cultural, a mestranda Cláudia Santos, pediu-me ontem (19.06.2015) algumas estrofes para trabalhar com seus alunos. O mote escolhido foi "Sou tudo que representa as coisas do meu sertão", da autoria do grande poeta Hélio Pedro, autor de um opúsculo homônimo. Eis o resultado:

IDENTIDADE: Sou tudo que representa as coisas do meu sertão 

(Estrofes de Gilberto Cardoso dos Santos
Com base no mote de Hélio Pedro)

Eu sou trempe de cozinha
Resto de água no pote
Onde mergulha um caçote
Rapadura com farinha
Sou a faca na bainha
O chapéu de Lampião
Pé afundando no chão
Dentro da água barrenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Eu sou o mato cheiroso
No aceiro do caminho
O agricultor velhinho
Numa rede fastioso
Olhar de gato medroso
Brilhando na escuridão
A mãe fazendo cancão
Para a menina birrenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Eu sou um pé de arruda
Plantado em frente da casa
A carne assando na brasa
Carrapateira folhuda
A rezadeira sisuda
Enfrentando assombração
A tigela de pirão
Que aos pintos alimenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Sou da cruz pelo sinal
Medo de alma penada
Menino dando cagada
Peidando no matagal
Sou a vaca no curral
Olhando pra plantação
A fogueira de São João
Onde o matuto se esquenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Eu sou luz de candeeiro
Fumegando no escuro
Caco de vidro no muro
Mulher varrendo terreiro
Sou louça no petisqueiro
Chapéu de couro e gibão
Passarinho no mourão
uma estrada poeirenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Eu sou a mão calejada
Lida por uma cigana
Sou um partido de cana
Numa noite enluarada
O barulho da invernada
O estrondo do trovão
Sou o pedaço de pão
Que ao mendigo alimenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Sou um balcão de bodega
Onde de tudo se vende
Cardeiro que não se rende
À seca não se entrega
Brincadeira de escorrega
que logo estraga o calção
sou o toque do baião
na sanfona barulhenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Sou leitura de cordel
Sob a luz da lamparina
O bêbado na esquina
Fazendo um triste papel
Sou a voz do menestrel
Que acompanha o violão
O mocotó no feijão
A garrafa de pimenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Sou chocalho balançando
No pescoço duma vaca
Aquele cheiro de jaca
Na palhoça penetrando
Milho na brasa estourando
Festa de apartação
Bicadas de um gavião
Numa cobra peçonhenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Eu sou o cheiro de vela
Derretendo no altar
Mulheres a costurar
No horário da novela
A menina na janela
Com medo do cinturão
Sou canto de procissão
O vidro de água benta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Eu sou os sapos cantando
Na beira duma lagoa
O barulho da canoa
Na água sacolejando
A porteira se fechando
Lagarta na plantação
Aquele pé de mamão
Que na parede arrebenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão

Sou a cobra que rasteja
Balançando o maracá
Ninho de arapuá
Cantadores na peleja
Sou o sino da igreja
Convidando pra missão
Umbu caído no chão
Com sua polpa suculenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Mulher enchendo barril
Perto de um bode amarrado
Cordão azul e encarnado
Na festa do pastoril
Sou o disco de vinil
A radiola de mão
Abano junto ao fogão
Caldo de fava amarguenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Eu sou a lona furada
Do circo de interior
E aquele vendedor
De pomada e garrafada
A carroça carregada
O trocador enrolão
Posto de vacinação
Onde fila o povo enfrenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Sou ave numa cancela
Exibindo a bela pluma
O leite fazendo espuma
Fervendo numa tigela
Também sou quebra-panela
Num dia de diversão
Medo de complicação
Com vizinha chafurdenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.

Sou menino com pantim
Burro brabo dando coice
Matuto metendo a foice
Numa moita de capim
Pedaço de alfenim
Capuxo de algodão
O político enrolão
Que o povo já não aguenta
Sou tudo que representa
As coisas do meu sertão.


Crianças declamando os versos do autor do mote:


terça-feira, 16 de junho de 2015

AOS POETAS ARROGANTES - Gilberto Cardoso dos Santos


Ao poeta arrogante
Quero aqui aconselhar
Repreender, ajudar
A se tornar tolerante
Por mais que seja brilhante
Genial na poesia
Demonstre mais simpatia
Veja o que é de fato
não se torne um ser ingrato
levado por fantasia.

A cigarra e a formiga
Têm igual utilidade
Mas há na sociedade
Quem as distinções instiga
Há o poeta que briga
E se mostra rabugento
Julga que o seu talento
Merece ser exaltado
E se sente revoltado
Sem o reconhecimento

Há o poeta pedante
Que gosta de humilhar
Ao invés de ajudar
Ao poeta iniciante
Fala de modo irritante
Julga os versos com rigor
Na sua voz falta amor
Pode até ser talentoso
Mas se for muito orgulhoso
Para mim não tem valor.

Poeta sem humildade
Mostra visão distorcida
Da missão de sua vida
Em prol da humanidade
A superioridade
Que ele julga possuir
Leva-o sempre a agir
Com orgulho e prepotência
E a usar a  inteligência
Para se sobressair.

Todos nós somos iguais
Mesmo com dons excelentes
Temos missões diferentes
Nas esferas sociais
Um poeta não é mais
Útil que um agricultor.
Um gari ou um pintor
Na sua simplicidade
Que serve à sociedade
Nada tem de inferior.

Poeta tem a missão
De nos levar a sonhar
Sim, ele pode nos dar
Asas à imaginação
Mas sem buscar distinção
Tratamento diferente
Precisa estar consciente
De seu papel social
Que sendo um mero mortal
ilusões não acalente.

Poeta, dê incentivo
A quem está começando
Nos versos engatinhando
Não olhe de modo altivo
Seja mais receptivo
A quem vem timidamente
Não seja muito exigente
Pois ninguém nasce perfeito
Procure ter mais respeito
Adube e regue a semente.


sexta-feira, 22 de maio de 2015

PAISAGEM DO SÍTIO ALEGRE - Gilberto Cardoso dos Santos

à Profª Drª Sandra Kelly

Um cardeiro sempre armado
Contra os ataques de fora
A seca não o devora
Resiste o fiel soldado
O campinho improvisado
Aos rapazes esperando
Segue o mato atapetando
Ao chão que pede clemência
No jogo dessa existência
Nem todos saem ganhando.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

UM MÊS DAS MÃES TENEBROSO (A MORTE DE MARLIETE) - Gilberto Cardoso dos Santos


Estamos em maio, mês das flores, o mais festivo no calendário local.  Noite do dia 5.  Marliete, mãe, e Jadson, filho, saem da humilde e apertada casa em que residem, sem pretender ir muito longe. A rua em que moram é muito calma. A mãe leva um celular à mão, recém-adquirido. Dias antes, expressara a uma cliente sua felicidade em ter conseguido um aparelho mais avançado, que lhe permitiria entrar no Whatsapp. Apesar de ter um smartphone de boa qualidade, ainda não dispõe de sinal próprio; distancia-se  uns 3 metros de sua casa em busca do wi-fi cedido pelo vizinho. Fica em frente a um prédio em construção que se agiganta encostado à sua residência. Ali o sinal é bom.

A rua, apesar de ser no centro, é mal iluminada. Todavia, na esquina em frente, na via ao lado, há um bar a céu aberto, onde se vê um telão e pessoas bebendo, o que dá certa segurança e traz um pouco de vida aos arredores. No início da noite, ciosa da saúde e da boa forma, Marliete subiu e desceu em caminhada por aquela mesma rua. Agora ali está, tentando conectar-se e pastorando seu ser mais precioso.

O menino, feliz por estar ao ar livre, fora dos limites estreitos da casa, brinca mais ou menos à vontade. Digo mais ou menos porque no mundo de hoje é impossível se viver inteiramente à vontade.  A mãe, um olho no celular outro no filho, vez ou outra o aconselha a não se distanciar muito, a ter cuidado com os carros. Feito uma mãe passarinho vigilante, vê o filhote, tão lindo, ensaiando seus primeiros voos, divertindo-se, na medida do possível. A escola onde ele estuda fica à vista. Diariamente ela se faz presente naquela instituição e sente-se radiante, pois ouve dos professores elogios à inteligência e comportamento do filho.

Marliete é muito simpática e cheia de vida. Não tem tudo que necessita, mas o pouco que julga ter é suficiente para manter seu belo sorriso. As clientes a adoram porque, apesar de pouco instruída, mostra-se muito lúcida no que diz, tem bom astral e as entretém enquanto as embeleza.

Em meio às centenas de pensamentos que vêm e vão, mãe e filho refletem sobre o segundo domingo de maio, tão próximo. O filho planeja surpreendê-la. Vai falar com o pai, moto taxista, para que lhe dê algum dinheiro. Terá que comprar algo bem especial para a mãe.

Entretida com encantos da net, ela pergunta-se, cheia de expectativas, sobre a surpresa que esposo e filho porventura lhe estariam preparando. Seus pensamentos são embalados pela música que vem do barzinho. Marliete Manicure, como é conhecida, tem boas razões para estar feliz. Aproxima-se o seu dia e na salinha de sua casa verde, cor da esperança, onde se vê um diploma de manicure em curso feito no SENAI, há centenas de frascos de esmalte à espera de mãos que em breve ali serão estendidas em busca de renovação. Muitas madames, ansiosas por colorir a vida, recorrerão às habilidades dessa mãe-modelo, se encurvarão para entrar naquela humilde sala e estenderão suas mãos finas e preguiçosas, à espera de migalhas de beleza. É o mês das mães, da festa da padroeira, período de bons lucros!

De repente, porém, a rotina noturna é quebrada e o fluxo de pensamentos se desfaz. Dois jovens se aproximam numa moto, exigem dela que lhes dê o celular; ela se recusa a entregá-lo e é alvejada com 3 tiros. Dizem que ela pensou tratar-se duma brincadeira e que teria reconhecido um dos assaltantes; tentou voltar para casa, quando atiraram. O filho, diante da maior dor e surpresa de sua vida, vê a mãe tombar na calçada do prédio e fios de sangue brotando do ser que mais amava. Vê os assassinos na moto em disparada sem levar o celular. Falharam todas as tentativas, a começar pelos toques do filho, para reanimar aquela que fora tão cheia de ânimo.

Atônito, indagou-se o órfão enquanto chorava:

- E agora, como é que eu vou comemorar o dia das mães? Quem é que vai me acordar cedo pra eu ir pra escola? Quem é que vai cuidar de mim?!

Cessou a música no barzinho, começou o murmúrio na vizinhança, não mais hipnotizada pela TV. Alguns, observando pelas frestas de suas janelas gradeadas, se assustaram ao pensar que nem mesmo em suas calçadas poderiam mais se sentir seguros. O jeito será cada vez mais “entrar” no mundo das fantasias que a TV e a net lhes proporcionam, enfurnar-se dentro de casa.

Naquela noite, muitos não dormiram de tão assustados. Pela manhã, pessoas se aglomeraram à porta da falecida, envoltos por um misto de indignação, perplexidade e sentimento de impotência. Respeitosamente jogaram água na parte da calçada manchada pelo sangue e jogaram areia em cima.

Ali estávamos e nos perguntávamos como seria o segundo domingo de maio para aquela família. As palavras de Jadson ainda ecoavam. Pela manhã ele acendeu três velinhas onde ela caiu.

O dia das mães, instituído em 1932 como reivindicação do movimento feminista, foi uma importante conquista para as mulheres que veio somar-se ao direito de votar a elas concedido em fevereiro do mesmo ano. Estabelecido com objetivos tão nobres, tornou-se traumático para muitos, como Jadson, que não mais têm suas mães. A cada segundo domingo de maio ele, a avó e o pai sofrerão com a perda do grande tesouro.

Todos temos, também, motivo para ter ressalvas quanto a este dia. Temos que pensar duas vezes, por exemplo, antes de presentear nossas genitoras com um bom celular. Além disso, devido medidas judiciais como o Saidão do dia das mães, infratores semelhantes ou piores aos que mataram Marliete, serão postos na rua neste período aumentando ainda mais a sensação de insegurança.

O voto democrático, inadequadamente utilizado, não tem sido eficaz na resolução de nossas mazelas. Decisões tomadas pelos que elegemos mostram-se controversas em momentos como estes. Instantes assim trazem à tona questões como redução da maioridade penal, liberação das drogas, pena de morte, indultos, saidões, justiça com as próprias mãos... e tudo soa muito confuso por estarmos revoltados e sedentos de justiça.

Sabemos que, na atual conjuntura, pouca diferença faz a apreensão dos assassinos de Marliete. A prisão ou isolamento em casas ditas de recuperação, para quase todos eles, tem significado uma oportunidade de aperfeiçoar-se na prática do mal.

No poema “Segredo” de Drummond, lemos:

“[...}
Fique torto no seu canto.
[...]
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.”

Lamentavelmente, devido a ineficiência de instituições criadas para proteger-nos, precisamos adaptar-nos às limitações que nos são impostas, aceitar  as estreitezas do lar, transformá-lo, quando possível, numa verdadeira fortaleza, ficarmos tortos e psicologicamente torturados em nossos (desen)cantos. É preciso entocar-nos nos espaços virtuais, mas não ir muito “longe” em busca de um sinal, pois é perigoso cruzar o batente.