quarta-feira, 11 de março de 2015

AS VERDADEIRAS BARATAS - Gilberto Cardoso dos Santos




Quando morre um “marginal”
Se alegra a sociedade
Como se o golpe fatal
Trouxesse tranquilidade
Mas a criminalidade
Não se acaba desse jeito
Não é matando “o sujeito”
Que mudaremos o mundo
O problema é mais profundo
Algo precisa ser feito.

De fato muitos parecem
Piores do que insetos
E muito jovens perecem
Nas mãos desses incorretos
Eles são jovens também
Vivem como não convém
Gerados na injustiça
Em um planeta excludente
Que é insuficiente
Para os que sentem cobiça

Jovens sem perspectiva
Crescem nas periferias
E de maneira nociva
Vegetam vidas vazias
São como cegos sem guias
Que se tornam infratores
Políticos exploradores
Dizem que vão resolver
Mas o que deve ocorrer
É  mudança de valores

Barata foi sua vida
De fato, de graça a deu
É uma triste partida
Para quem o concebeu
São sonhos despedaçados
Planos de vida frustrados
Verdadeiros pesadelos
Pra toda a sociedade
Que não tem capacidade
De no bom rumo mantê-los

Com qualquer um cidadão
Isso pode acontecer
Podia ser meu irmão
Um filho que vi nascer
A pobre mãe, a sofrer
Vê seu projeto frustrado
Vê um filho assassinado
Que no ventre carregou
Alguém por quem se doou
Não um inseto esmagado.

Tem crescido a violência
Por falta de educação
Não se toma providência
Contra a corrupção
Não é um reles ladrão
Assaltante ou maconheiro
O responsável primeiro
Pela crise social
E tem a ver, afinal,
Com desvio de dinheiro.

As verdadeiras baratas
Não se acham nos lixões
Mas levam vidas pacatas
Em suntuosas mansões
Recebem das multidões
Aplausos que não deviam
No dinheiro que desviam
Empobrecem a nação
Que fica igual um porão
Onde as “baratas” se criam.


Mãe de Gabriel, assassinado em 10.03.2015


sexta-feira, 6 de março de 2015

APOSTANDO NO CAPETA - Gilberto Cardoso dos Santos


Quantos crentes no Congresso
Causaram decepção
Usaram da posição
Visando o próprio sucesso
Conforto, fama e riqueza
A gente viu com tristeza
Do que essa gente é capaz
Quando a ganância aflora
Por isso tem gente agora
Que prefere o Satanás.        

Representantes de Deus
Bem não o representaram
E na prática se mostraram
Piores do que ateus
Na Máfia das Ambulâncias
E em outras circunstâncias
Atentaram contra a paz
Acabaram se vendendo
Por isso que estão querendo
Apostar no Satanás

Símbolos de devoção
Na sala do deputado
Não tiveram resultado
Contra a corrupção
Por isso a nação ferida
Se encontra dividida
Entre Cristo e Barrabás
Por causa desses bandidos
Muitos estão decididos
A votar no Satanás.





segunda-feira, 2 de março de 2015

A máfia das funerárias Causa asco à humanidade - Gilberto Cardoso dos Santos



Cadáveres são presuntos
Para estes desalmados
São urubus disfarçados
Chamados papa-defuntos
Sem qualquer constrangimento
Se aproveitam do momento
Agem com impiedade
São empresas mercenárias
A máfia das funerárias
Causa asco à humanidade

Torcem em seu coração
Pra que morra muita gente
Se aproximam do parente
Na hora da aflição
Mostram um certo pudor
dizem entender a dor
Mas é tudo falsidade
São pessoas ordinárias
A máfia das funerárias
Causa asco à humanidade.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

UMA INJUSTIÇA CONTRA OS IDOSOS - Gilberto Cardoso dos Santos



Acho uma coisa espantosa
Difícil de acreditar
Ver a justiça a cobrar
Pensão duma avó idosa
De maneira vergonhosa
A “justiça” tem agido
Toda vez que tem prendido
Um pacato cidadão
Que suporta humilhação
Por crime não cometido.

Quanta gente perigosa
Pratica corrupção
Mas não vai para a prisão
Só porque é poderosa
É pouco criteriosa
Essa determinação
É uma injusta solução
Extremamente mesquinha
Castigar uma velhinha
Por causa duma pensão.

Se quem tem culpa é o neto
ou se o filho é culpado
Penalizar um  coitado
Não me parece correto
De fato é algo abjeto
Uma tal legislação.
Vamos botar na prisão
Quem realmente merece
Não um pobre que padece
Prenda o político ladrão!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Feijão Verde Falso e Verdadeiro - Gilberto Cardoso dos Santos

Desonestidade hoje
é coisa de espantar
é do maior ao menor
todos tentam enganar
até mesmo feijão verde
estão a falsificar!

Aprenderam com políticos
sobre a desonestidade
tentando sobreviver
enganam a humanidade
São uns Pedro Malasartes
mas sem traços de bondade.

Como saber se o feijão verde foi falsificado? Veja no vídeo



Grupo é preso por usar corante para falsificar feijão verde em Fortaleza



Três mulheres e um homem foram presos na noite do sábado (21) por vender feijão verde falsificado. Segundo a polícia, o grupo usava corante para tingir de verde o feijão branco. Com a nova cor, eles cobravam dos clientes o preço do feijão verde. De acordo com a polícia, o saco era vendido por R$ 3.
O grupo foi preso na esquina das ruas Pedro Pereira e Major Facundo. As mulheres estão presas na Delegacia de Capturas, e o homem no 34° Distrito Policial, no Centro da capital.
De acordo com a Polícia Civil, eles vão responder por estelionato. O corante, usado para mudar a cor do feijão, também foi apreendido pelos policiais e vai ser analisado pela perícia. Em contato com água, o pó adquire a cor verde. Se for a substância for tóxica, o grupo preso também poderá responder por lesão corporal.

Os sacos de feijão eram vendidos no Centro de Fortaleza. (Foto: TV Verdes Mares/Reprodução)

Fonte: http://g1.globo.com/ceara/noticia/2015/02/grupo-e-preso-por-vender-feijao-verde-tingido-no-centro-de-fortaleza.html

domingo, 8 de fevereiro de 2015

FOI PELOS 20 CENTAVOS! - Gilberto Cardoso dos Santos



A TV tentou mostrar
Motivação diferente
Porém se vê claramente
Já não se pode negar
Que a revolta popular
que tanto nos encantou
e ao povo mobilizou
mostrando que somos bravos...
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

No caso do Petrolão
Um roubo tão descarado
O povo anestesiado
Não esboça reação
Tamanha corrupção
A todos prejudicou
Mas o povo aceitou
Reagimos feito escravos
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

A gente vê magistrados
Abusando do poder
Mas nada vem a fazer
Mesmo estando indignados
Permanecemos calados
O medo nos controlou
Ninguém se indignou
Vendo os terríveis conchavos
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

Parece que os partidos
Todos se mancomunaram
Contra o povo conspiraram
No roubo estão envolvidos
Nos sentimos iludidos
Pois quase nada mudou
A gente se embriagou
E no fim restaram travos
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

É triste ver o gigante
Dormindo placidamente
Sonhando feito  inocente
Totalmente confiante
Com a pobreza alarmante
Ele já se conformou
A política o amarrou
Com seus fortes alinhavos
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

Queria ver o povão
E eu no meio certamente
Lutando raivosamente
Contra a corrupção
Queria que a canção
Que Zé Ramalho cantou
E a gado nos comparou
Recebesse desagravos
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

A cegueira tomou conta
Do povo desse país
Somos um povo feliz
Que não reage à afronta
Enquanto o político apronta
E tira o que nos restou
Quem foi que  se aglomerou
Pra reagir aos agravos?!
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou

Feito abelhas trabalhamos
Lutamos pela colmeia
O mundo não faz ideia
Do quanto nos esforçamos
No entanto nos ferramos
Pois alguém nos enganou
Pra nós fumaça restou
Outros ficam com os favos
Foi pelos vinte centavos
Que o brasileiro lutou.

[...]

Ouça mais em FOI PELOS VINTE CENTAVOS!



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

DOIS, TRÊS BÁRBAROS ASSASSINATOS - Gilberto Cardoso dos Santos

Que sabemos eu e você sobre os dois jovens assassinados nesse primeiro mês de 2015 em Santa Cruz-RN? Provavelmente muito pouco, bem menos do que deveríamos. Sei sobre o primeiro que o chamavam de "Gordinho" ou "Gordim", que morava num bairro chamado Alegre e  era muito trabalhador. Disseram-me que era um rapaz bonito, simpático e admirado pelos que o conheciam. Alguém acrescentou: "Ele não tinha tatuagem, nem usava brinco, nem piercing."

Nessas horas as pessoas ficam tentando encontrar algo que justifique o crime, uma razão qualquer que caiba ao menos dentro da ótica da bandidagem. No caso de Edivanilson Pereira da Silva, o Gordinho, só obtive boas informações. O jovem de cerca de 20 anos foi vítima duma emboscada. Ao tentar escapar do assalto, foi alvejado nas costas. O dinheiro e a moto, honestamente adquiridos, foram a causa de sua destruição precoce.

Sobre a segunda vítima, Lúcio Flávio, sei mais porque fui seu professor em 2014. Em 27 de janeiro de 2015 - três dias após a morte de Edvanilson - baleado e esfaqueado no pescoço, foi jogado numa pedreira do bairro Maracujá, próximo ao local onde residia. 

Era um menino trabalhador, extremamente simples, órfão de pai. Com seu irmão, vendia picolé e ajudava os familiares no que podia. Ele tinha um temperamento calmo. Os meninos o chamavam de Jubileu e ele apenas sorria. Jubileu, termo de origem bíblica, faz referência a um período de intensa felicidade em que se comemora alguma data significativa. Aos 15 anos, idade que tinha, se comemora o jubileu de cristal. Exatamente aí a vida revelaria para ele toda sua fragilidade. Apesar de ter tal apelido, oriundo de júbilo, alegria,  seu riso não era ruidoso e talvez muito tivesse de resignação. Às vezes, em seu olhar, julguei ler alguma expressão de tristeza, de conformação com as vicissitudes da vida. Quem sabe, a perda do pai tenha agravado essa sensação. 

Eu e os outros professores nunca necessitamos puni-lo por qualquer coisa ou repreendê-lo. Certamente, nesse aspecto, era um motivo de orgulho para a família. No final do ano ele me surpreendeu quando me entregou em seu trabalho final uma porção de desenhos. Eu e outros colegas desconhecíamos seu pendor para a arte. Lembro que manuseamos com admiração cada página e tecemos elogios. A primeira coisa que pretendia fazer ao reencontrá-lo em 2015 era parabenizá-lo perante a turma e a partir daí incentivá-lo ao máximo. Infelizmente, não mais terei essa oportunidade.

Percebemos, por seus desenhos, que ele tinha em seu universo interior sonhos de um mundo justo, como todo jovem. Sua cabecinha era habitada por heróis. Como todos nós, ele e Gordinho deviam se deliciar com algum bom filme ou desenho animado em que o bem sempre prevalece. Refugiar-se nessas fantasias televisivas era uma válvula de escape para a cruel realidade em que todos vivemos. Na imaginação deles, com certeza, o bem sempre prevaleceria. A confiança em Deus  e  em certas pessoas tornavam esse mundo menos assustador. Há em seus desenhos uma moça bonita, de olhar penetrante quem sabe representativa de alguma com quem sonhou e que o fez chorar alguma vez na solidão da pedreira.  Chama-me a atenção, em seus desenhos, um general de olhar firme e bigodudo que cuida de sua segurança. Em seu mundo interior alimentado por filmes e desenhos, o crime não compensava. Nada escapava ao poder investigativo duma polícia bem equipada, não sobrecarregada pelo excesso de ocorrências, capaz de desvendar os crimes mais intrincados.

Lúcio Flávio era um jovem idealista, de alma nobre, sensível ao voo e beleza das borboletas. As flores e as aves, numa região que quase não mais as tem, também o deixavam enfeitiçado. Não julgava um desperdício o tempo que dispendia tentando reproduzi-las no papel. Mas a temível morte, de tão presente ao seu redor, lançava sombras  em seu pensamento e também o inspirava.

No livro O Código do Ser, Hillmann faz da semente de carvalho uma parábola da vida humana. Para ele, cada um de nós vem ao mundo com um chamado, uma espécie de missão e mais cedo ou mais tarde manifestará seus dons e vocação. Lúcio Flávio era um jovem vocacionado para as artes que não teve tempo de se desenvolver o suficiente. Tal como uma diminuta semente, trazia em si o potencial de tornar-se um carvalho frondoso, capaz de dar sombra à familia e amigos. Quem sabe a que alturas chegaria?
Enquanto enterravam Lúcio Cláudio, um desconhecido, perplexo, veio conversar comigo à porta do cemitério. - A situação tá muito complicada, - dizia-me ele referindo-se às duas mortes. - A gente não pode ter mais nada que alguém cresce o olho e quer tomar. Não pode mais ter um carro, uma moto, dinheiro. Antes, pelo menos, estavam matando só bandido. mas agora tão matando gente de bem, como esses dois jovens. Onde vamos parar?"

Sem saber direito o que responder, afastei-me do cemitério, enquanto escutava ao longe, cada vez mais distante, o clamor de uma mãe inconsolável com a injustiça feita ao ente amado.

O que significaria a prisão dos assassinos para os amigos e familiares destes dois jovens? Quase nada, imagino, diante da perda irreparável, mas é o mínimo que se espera. A vida necessita parecer com os filmes para que tenha sentido. Ficamos torcendo para que as autoridades competentes deem a estes casos a atenção que dariam caso se tratasse de pessoas socialmente ilustres ou se se as vítimas fossem da própria família. Estou torcendo, como no final de um filme, para que o bem de algum modo prevaleça e a gente não venha a ter que chorar em breve uma terceira vítima.*




















P.S.: Escrevi esse texto na manhã do dia 03.02.2015. À noite, um pouco depois das seis, mais um jovem (Luiz Welder) foi impiedosamente assassinado, no Alto do Cruzeiro.

Luiz Welder, a 3ª vítima


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

SERÁ QUE ESSA GENTE É GENTE? - Gilberto Cardoso dos Santos


De Alá são seguidores
O Misericordioso
Porém de modo espantoso
Eles praticam horrores
São insensíveis às dores
De um pobre ser inocente
E impiedosamente
riem da dor que provocam
pergunto aos que a Deus invocam:

Será que essa gente é gente?

Por cinco vezes ao dia
eles irão se curvar
e ao grande Deus exaltar
depois dessa covardia
Alá, quanta hipocrisia
quanta cegueira de mente
Mas permaneces silente
ante tal barbaridade
pergunto em perplexidade:
Essa gente é tua gente?

Vídeo triste e revoltante, veiculado pelo LiveLeaks.  Mostra muçulmanos se divertindo às custas de um pobre animal da maneira mais perversa.



sábado, 24 de janeiro de 2015

UMA CHAPEUZINHO VERMELHO MUITO CORAJOSA - Gilberto Cardoso dos Santos



Chapeuzinho vai andando
Dança o pararatibum
Com seu andar incomum
Segue animada e cantando
O lobo está espreitando
A missão é perigosa
Mas ela é corajosa
Pergunta em tom triunfal:
“Onde está o lobo mau
Pra gente ter uma prosa?”

Porém o lobo assustado
Talvez esteja escondido
Em lugar desconhecido
Com medo e desanimado
Se estava esfomeado
Já não está nem aí
Na cesta tem açaí
Doce-de-leite, cocada
Diz Chapeuzinho estressada:
“Cadê o lobo daqui?!”

Outro chapéu desejando
A Chapeuzinho Vermelho
Da mãe não segue o conselho
Continua debochando
Se o lobo está espreitando
Decerto já desistiu
Quando aquela voz ouviu
Voz estranha, masculina
Não era voz de menina
Logo o lobo pressentiu.

Pelo lobo rejeitada
Chapeuzinho vai tristonha
No entanto ainda sonha
Ser por ele atacada
Tão nova e já tão levada
Com uma saia tão curtinha
Penso que a vovozinha
Não vai gostar nenhum pouco
Do comportamento louco
Dessa rebelde netinha.

Triste é a situação
Da Chapeuzinho Quixote
Com seu estranho decote
Querendo ser refeição
Aqui há uma inversão
Chapeuzinho, sedutora
Torna-se a predadora
O lobo é vitimizado
Por isso, desesperado
Foge da enganadora.

“E agora, Chapeuzinho?”
Diria Cid Moreira
“Vá depressa, na carreira
Cruze logo esse caminho”
Nesse conto em desalinho
O lobo muda de plano
Pra evitar outro engano
Deixa de ser lobo mau
E em mudança radical
Vira vegetariano.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O VEEMENTE DISCURSO DE UM MUDO - Gilberto Cardoso dos Santos



Ele discursa com gosto
Fala com convicção
Tem, além da voz potente,
Boa gesticulação
A gente vê claramente
Que o discurso veemente
Procede do coração.

Promete sem falsidade
Isso a gente pode ver
E eu sei que são coisas boas
O que está a dizer
A gente lê no olhar
Que ele não quer enganar
Promete o que vai fazer!

Fala com severidade
Contra a corrupção
Não vai haver bandidagem
Durante a sua gestão
Quem o ouve nada entende
Mas no fundo compreende
Ser boa a sua intenção.

Ele se espreme exprimindo
Seu amor pela cidade
É coerente o que diz
Com a intencionalidade
Não é só verborragia
O tom de voz denuncia
Que ele disse a verdade.

Por quantos belos discursos
Nós já fomos enganados?
É hora de dar um basta
Em discursos planejados
Pra eleger a escória
Não é de boa oratória
Que estamos necessitados.

Qual o político que não muda
Mesmo quando diz “não mudo”?
Na campanha é sorridente
Quando ganha é carrancudo
Na política é falastrão
Prometedor, enrolão
Depois esquece de tudo.

Talvez o mudo não mude
Faça o que está a dizer
A gente não sabe agora
O que pretende fazer
Falhou em sua expressão
Mas quando entrar em ação

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

SOU OU NÃO CHARLIE HEBDO? - Gilberto Cardoso dos Santos


Vendo as imagens chocantes do ataque à redação do jornal francês em 07.01.2015 e o slogan que quase de imediato foi mundialmente divulgado, pensei em ser Charlie Hebdo. Depois, li um texto partilhado por Leonardo Boff, não de sua autoria, intitulado “Eu não sou Charlie Hebdo”, com algumas ponderações interessantes. Resolvi aprofundar-me no tema, ter outras visões sobre o problema do terrorismo. Assisti um documentário sobre os ataques do Boko Haram, um grupo similar ao Al Qaeda e ao Isis que, apenas no primeiro mês de 2015 matou cerca de três mil nigerianos. A partir daí, comecei a ver mais claramente um outro lado. Vi que a charge, cujo significado é “carga” (devido o exagero que se faz nos traços), pode ter um peso muito grande na história, nem sempre positivo. No vídeo citado, Haruna Mshella, presidente de conselho paroquial, explica a origem do atual conflito vivido por sua gente:

“Tudo começou com aquelas caricaturas da Dinamarca, feitas por alguém que não conhecemos, nem sequer é cristão. De qualquer modo, em seguida começaram a vir a igrejas aqui e a assassinar os sacerdotes.”

Lembrei-me deste precedente na história das charges. O caricaturista dinamarquês, indignado com tantos entraves trazidos à democracia pelo radicalismo islâmico, expressou sua revolta através de charges do profeta Maomé. Isso provocou uma imensa revolta nos países islâmicos e uma reviravolta rotina de sua família. Teve que mudar-se para endereço desconhecido e até hoje não tem pleno sossego. Na verdade, correu um risco calculado. Conseguiu manter-se ileso até hoje, mas o que pensar sobre os incêndios em embaixadas e mais de 200 mortes consequentes? Caso as palavras de Haruna Mshella correspondam aos fatos, não devería ele também sentir-se culpado ainda que em parte pelo que ora ocorre na Nigéria? No caso do atentado francês, pessoas que nada tinham a ver também pagaram com a vida. Um dos cartunistas assassinados na França, já idoso, disse com louvável coragem estar numa fase em que já não temia represálias. Pergunto-me se ele não deveria ter levado em conta o risco que outros também correriam. Fico imaginando quantos que nunca leram esse jornal ou viram estas charges sofreram por causa delas. 

Mas se eu fosse um artista, consciente de que minha arte poderia resultar na morte ou sofrimento de inocentes, ponderaria muito antes de expressá-la. Não conheço todas as charges publicadas pelo famoso jornal e imagino que elas contenham uma mensagem que, em linhas gerais, não deva ser suprimida. Todavia, como falar ao entendimento de alguém que está cego pelo fanatismo e que, covardemente, poderá atacar a inocentes que pouco ou nada têm a ver? Confrontá-lo do modo mais agressivo, como num ato insano de vingança não me parece ser a melhor saída. Tenho o direito de atrever-me a dizer-lhe algumas verdades, buscar impor limites à sua intolerância, exigir meus direitos, mas deverei ponderar como fazê-lo, pois estou a tratar com gente movida por paixões obscuras, capaz de qualquer coisa. Uma pergunta perfeitamente cabível, norteadora da liberdade de expressão nesse caso deveria ser: O que fazer para limitar meus ataques à ala radical do Islã sem ofender aos moderados? Tem como batalhar contra tais inimigos sem multiplicá-los? Vi algumas caricaturas inteligentes, de imediato aprovadas, publicadas naquele jornal. Mas vi outras pouco ou nada criativas, puramente ofensivas. Deu-me a impressão que na falta de inspiração buscavam compensá-la com agressões fortes, ousadas, mais parecidas com demonstrações de coragem insana que de humor propriamente dito. Em referência ao atentado, o papa Francisco disse que a liberdade de expressão tem limites e que se alguém insultasse sua mãe deveria esperar um soco como resposta. Exemplo tão pessoal leva-nos a refletir sobre a necessidade que temos de levar em conta os sentimentos e a mentalidade de nossos interlocutores, principalmente quando o que lhes dizemos soa desagradável. Inteligência emocional, tato e empatia são fundamentais num mundo globalizado, de equilíbrio tão frágil.

Aplaudo a ferrenha defesa que a França, berço do Iluminismo, faz da liberdade de expressão e acho que só por isso eu deveria ser Charlie Hebdo. Mas quando vejo esse mesmo país condenar o comediante Dieudonné pelo fato dele se valer dos mesmos direitos ora defendidos, fica a dúvida se estão fazendo um uso coerente da liberdade de expressão. Em seus shows de stand up comedy, ele agride valores caros à cultura francesa. Apesar das ameaças, prejuízos e aprisionamentos parece cada vez mais disposto a atacar o que ele considera um uso hipócrita do direito de expressão. Graças a essa oposição, parece-me, é um monstro que está a crescer. Não será mais mais uma estratégia errada de combate ao terrorismo, a somar-se às muitas que França tem cometido ao longo dos anos? O futuro dirá.

Estarrecido com o assassinato de quatro importantes chargistas (e de mais 13 pessoas que só se tornaram objeto de comoção pela associação com os famosos), o mundo se mobilizou duma maneira que entrará para a história. Dias antes, em 16 de dezembro de 2014, terroristas muçulmanos do Talibã invadiram uma escola no Paquistão, deixaram 141 mortos e 131 feridos, a maioria crianças, mas na França e no mundo quase não houve alarde. Impressiona-nos como algo tão grave foi e continua sendo tão pouco divulgado. Não houve um ajuntamento de estadistas para protestar nem multidões nas ruas para dizer "nós somos os 3 mil massacrados da Nigéria, somos as crianças mortas na escola paquistanesa". Isso prova o quanto os seres humanos continuam a valer pelo que têm, pela posição que ocupam, pela localização geográfica em que vivem. A mensagem que a Europa e o resto do mundo deixam escapar é que não importa muito aquilo que os radicais estão fazendo em outras partes do globo, desde que os deixem em paz. Quanto à decisão da imprensa mundial em dar ampla cobertura ao acontecimento, tem a ver também com interesses corporativistas. Defender o Charlie Hebdo é defender-se. Mostrar a força do Quarto Poder e desestimular atentados aos  formadores de opinião são as grandes razões.


Por fim,  lembro-me do efeito positivo que as charges dinamarquesas tiveram na vida de vários muçulmanos. A ex-muçulmana Wafa Sultan, por exemplo, despertou a partir daquela caricatura. Ferrenha defensora dos ataques ao fanatismo através de caricaturas e outras manifestações artísticas, ela diz que o Islamismo precisa se abrir à critica assim como ocorreu com o Judaísmo e com o Cristianismo. Só assim ele evoluirá, diz ela. Daí minha vontade de ser Charlie Hebdo. Por estes esses e outros motivos, bate-me a dúvida se devo ou não vestir a camisa que parece ter uniformizado o planeta. O personagem Hamlet, em sua crise existencial, expôs o dilema numa frase hoje clássica. Também vivo uma crise de identidade diante de tantas cobranças e discussões em torno desse atentado. Ser ou não ser Charlie Hebdo, eis a questão. Mas estou aberto a críticas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

VEJA COM ATENÇÃO O FILME "HARODIM, Olhe mais perto" - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando um amigo e conterrâneo em cujo bom gosto confio me falou da surpresa que teve com o filme Harodim, recorri ao Google em busca duma sinopse. Pelo que li, deu vontade de nem iniciar o filme, tão fantasiosa me pareceu a trama. Mas comecei assim mesmo, a contragosto, não sem antes postar um comentário negativo, precipitado, sobre as conclusões a que imaginei iria chegar. Livro julgado pela capa.

Até então, minhas convicções acerca do 11 de setembro estavam tão firmes quanto as Torres Gêmeas antes do ataque. Isso tinha uma razão de ser: firmado nos relatos oficiais a respeito do ocorrido, e em meu próprio testemunho dos fatos (assisti, ao vivo, no instante em que os aviões bateram nas torres) sempre recusei ver qualquer coisa que cheirasse a teoria da conspiração sobre o assunto.

Trata-se de um filme parado, calmo, que agita tudo dentro de você. Como disse alguém, é algo bem diferente dos que costuma assistir.

Diversas vezes pausei o filme para rever alguma fala anterior, ou para pesquisar na net se o que me surpreendera tinha algum fundamento histórico.

Enquanto o assistia, lembrei-me da trilogia Matrix e senti-me dentro dela, tão atônito quanto seu personagem Neo. Lembrei também da série Lost, onde os fatos e personagens nunca são o que parecem ser. Vi-me dentro de um sistema fantasioso, manipulado, perdido na ilha da série, sem entender quase nada. A caverna de Platão nunca me foi tão real. Mas não concluam que comprei inteiramente a ideia do filme. Antes, me vejam como quem acordou de um pesadelo, sabe que despertou, mas o coração continua a bater forte como se fosse real. Quando uma película provoca tais efeitos, é sinal de que cumpriu bem o seu papel. Ao menos para mim e meu amigo.

Como fiquei após o filme? Vi-me repetindo a frase de Sócrates: “Sei que de nada sei”. Certamente não convencido de tudo que vi, mas duvidoso do que sabia ao ponto de querer aprofundar-me no tema vendo documentários antes preconceituosamente rejeitados. Tenho certeza que minhas certezas não acabarão no pó como o World Trade Center, mas sinto que há muito a ser revisto e devidamente compreendido. 
Veja o filme completo no link abaixo:



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O 11 DE SETEMBRO DOS FRANCESES - Gilberto Cardoso dos Santos


A charge é a maneira mais suave
e simples que se tem de protestar
Um modo inteligente de mostrar
Aquilo que nos serve de entrave
A crise que se vive é muito grave
Ataques foram feitos várias vezes
Fanáticos sem humor e descorteses
em nome de Alá e seu Mensageiro
fizeram deste sete de janeiro
O 11 de setembro dos franceses

A nossa liberdade de expressão
profundamente foi ameaçada
em uma ação covarde, inesperada


se fez sangue jorrar na redação
tentava-se calar a oposição
a algo que ameaça à humanidade
em nome da justiça e da verdade
Devemos todos nós a voz erguer
Se o mundo temeroso se encolher
podemos dar adeus à liberdade.



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

INSTANTE ÚNICO - Gilberto Cardoso dos Santos

    Foto tirada em 03.01.2015


O dia teve suas frustrações
Falta de chuva, clima muito quente
Vim à tardinha ver o sol poente
No açude seco, sobre seus torrões
Chegava a noite, vi as mutações
de sombra as nuvens já se revestindo
Belas imagens foram construindo
Na tela enorme do cine celeste
E eu me orgulhei de estar no Nordeste
Pra contemplar esse cenário lindo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

BELEZA NA EXCASSEZ -Gilberto Cardoso dos Santos

Foto tirada por Maria Andrade no Açude Santa  Rita

No açude devastado
Nutrido avança o capim
Vai transformando em jardim
O chão antes alagado
Alvas garças pequeninas
Quais damas de pernas finas
Se movem com altivez
Surpreende a natureza
Com abundância de beleza
No meio da escassez.

(Gilberto Cardoso dos Santos)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DEZ ANOS SEM DINAMÉRICO - Gilberto Cardoso dos Santos


[...]

Em 31 de dezembro 
Na cidade de Campina 
No ano 2004 
A depressão assassina 
Levou de forma abjeta 
A esse grande poeta 
De maneira repentina. 

Dino cansou dos embates 
No mar de sua existência 
Se jogou no Açude Velho 
Num instante de demência 
A profunda depressão 
Turvou a sua visão 
Alterou-lhe a consciência.

Tinha 46 anos 
Quando a tragédia se deu 
Na cidade de Cuité 
Logo a notícia correu 
Muita gente lamentou 
Quando se noticiou: 
Dinamérico morreu! 

E assim perdemos um vate 
Digno de fulgurar 
Na história paraibana 
Por seu trabalho sem par 
E grande amor à cultura 
decerto em data futura 
Irá se agigantar.

Dino permanece vivo 
Através de seus escritos 
Uma sala em sua honra 
Contém seus textos e ditos 
Que o cuiteense aproveite 
Se aprofunde, se deleite 
Com seus poemas bonitos. 

Até um filme se fez 
Sobre o vate falecido 
Dinamérico, o Poeta 
Foi o título escolhido 
Para o media metragem 
Merecida homenagem 
Feita ao poeta querido.

Um chapéu paira nas águas
Do filme de sua vida
Chapéu que abrigou poemas
Inspiração incontida
Ao partir o menestrel
Retirou o seu chapéu
Em sinal de despedida.


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sábado, 27 de dezembro de 2014

UM QUADRO QUE NÃO VAI SE REPETIR - Gilberto Cardoso dos Santos

Foto tirada por  minha esposa de dentro da parte seca do açude Santa Rita, em 27.12.2014

O acaso fez no ocaso
Um quadro belo e fugaz
Todo dia ele faz
Imagens de breve prazo
Raios vindos do Parnaso
Fazem estrofes fluir
Mas tudo está a sumir
Vejo se desvanecer
Um tão belo entardecer
Que não vai se repetir.

Tudo na vida é assim
Totalmente passageiro
Irrepetível roteiro
Do começo até o fim
O que é caro pra mim
Um dia vai se esvair
A tristeza tem que vir
Para anuviar o ser
Como este entardecer
Que não vai se repetir

Uma profusão de cores
Convidativa ao olhar
Capaz de amenizar
Melancolias e dores
Em meio a tais esplendores
Dá vontade de sorrir
É preciso usufruir
Deste instante de prazer
Único, deste entardecer

Que não vai se repetir.