domingo, 28 de abril de 2019

UM SHOW DE HUGO TAVARES EM MINHA IMAGINAÇÃO



UM SHOW DE HUGO TAVARES EM MINHA IMAGINAÇÃO



Vendo o momento difícil
Dramático para a nação
Meditei no que faria
Hugo em tal situação
E respirei novos ares
Ao ouvir Hugo Tavares
Em minha imaginação.

Ouvi “Voto aos dezesseis”
E senti desesperança
Ao me recordar de adultos
Que votam feito criança
Pensei em sua cartilha
E vi o quanto hoje brilha
Mais que nunca e nos alcança.

Decerto conosco hoje
Ele também sofreria
Ao drama dos oprimidos
em versos expressaria
Levantaria seu brado
Ao ver que um golpe foi dado
Em nossa democracia.

Falaria de açaí,
De laranjas, goiabeira
De Fake News, de um Brasil
Sem freios rumo à ladeira
Com vigor e ousadia
Citaria a hipocrisia
Da elite vil brasileira.

Reforma da Previdência
Seria um tema central
Em versos embelezados
Pelo verniz musical
Sempre em defesa dos pobres
Contra os nobres nada nobres
Da política nacional.

Lembrei da bela entrevista
Que há tempos me concedeu
Não somente do que disse
Também de como viveu
Quando entre nós habitou
Das lutas que encabeçou
Das pautas que defendeu.

Ele, tão religioso,
Decerto não pouparia
A padres, bispos, pastores
Que em sua moral vazia
Defendessem a tortura
Assumindo uma postura
Que Jesus condenaria.

Em sua prosa matinal
Ao povo esclareceria
Do sono e da idiotice
A muitos despertaria
Raiva iria provocar
Eu rio ao imaginar
Tudo que Hugo diria.

Sua língua, feito um chicote
Tal qual Cristo iria erguer
Nos que estão acomodados
Decerto iria bater
Em mais de cinquenta tons
De cinza, “Sigam-me os bons”
Poderia nos dizer.

No Espiritismo não creio
No entanto, se acreditasse
A um médium pediria
Que ao poeta incorporasse
A fim de ouvi-lo de novo
E encorajaria o povo
Com o que Hugo falasse.

Gilberto Cardoso dos Santos
Cuité/PB e Santa Cruz/RN


sexta-feira, 26 de abril de 2019

BANCO DE HÉTEROS


MARIA GORDA E A MOÇA DO WHATSAPP - Gilberto Cardoso dos Santos



MARIA GORDA E A MOÇA DO WHATSAPP - Gilberto Cardoso dos Santos

Antes de dormir,  conferi o Zap. Um número desconhecido tinha enviado:

“Oiii”

Cinco minutos depois, repetira:

“Oii”

Olhei a foto, era de mulher. Resisti, fui dormir; deixei para conferir no dia seguinte.
De manhã, cliquei na foto, vi que fora alterada. Jovem bonita, risonha, pele brilhante. Quem seria: Ex-aluna? mãe de aluno? Alguém querendo vender algo?
 Após meu “Bom dia”, enviou um áudio com pergunta bastante inesperada:

“Olá, bom dia. Desculpe incomodar, mas eu queria saber se esse telefone… se esse contato é da boate de Maria Gorda.”

A voz era  agradável, suave e e bem modulada. Antes de responder-lhe, tentei acalmar os pensentimentos recém agitados pelo teor da abordagem. Lembrei de um escritor local e da personagem que protagoniza sua obra, a Maria Gorda. Teria uma coisa a ver com a outra? A princípio não atinei bem, e respondi:

“É não. Você é do RN? Fica onde essa boate? Eu conheço uma Maria Gorda que tinha uma “boate” em Santa Cruz, onde moro.”

“Desculpa então”, disse-me ela. “Fica no Pernambuco”. E citou o município.

“Ah”, disse-lhe, “coincidentemente havia uma Maria Gorda em minha cidade que tinha uma casa dessas. Um amigo e compadre da dona dessa ‘boate’  escreveu um livro em sua homenagem.”

E postei a capa do livro “Crônicas da Casa de Maria Gorda”, de Rosemilton Silva.



Montando melhor o quebra-cabeça, acrescentei:

“Talvez sua busca tenha levado ao blog onde postamos algo sobre ela”.

Ela confirmou:

“Eu não sabia. Eu peguei esse número na Internet. Mas me desculpe ai, tá bom?"

“Então foi isso daí mesmo”. Fui conscientemente repetitivo, buscando manter o diálogo:  “Você estava fazendo uma pesquisa, procurando ‘Maria Gorda’ e, no blog, onde a gente fala sobre ela, achou esse número que é o meu. Uma coincidência bem interessante. Foi bom saber que onde você mora há alguém com este mesmo apelido e que exerce a mesma atividade.”

Retrucou:

“Mas a daqui já faleceu mesmo. Aqui tem uma casa que era dela, tá entendendo? E funciona. É uma boate, mas… é uma boate do sexo, tá entendendo? Eu já ouvi falar muito e por isso que eu pensei que era de lá. Eu não sei aonde fica, nem sei nome de rua,  nada. Eu só peguei o número achando que era de lá pra me informar. Mas, de boa, desculpa ter incomodado”.

Tentei sossegá-la: 

“Não foi incômodo nenhum, amiga. Ficamos felizes quando alguém faz buscas na Net e encontra nosso blog.  Outro dia ocorreu com alguém do RJ. Sinal que aparece bem nos resultados.”

Com certo receio, perguntei:

“Você estava à procura de emprego, alguma coisa?”

A resposta demorou e veio em  voz entrecortada; expressava sinais de angústia:

“É. Eu… tou desempregada, tenho três filhos...e a situação tá bem complicada. Por isso que eu tava procurando. Nunca fiz esse tipo de coisa, nunca precisei… mas aqui na minha cidade não tem serviço. Eu já fiz de tudo pra conseguir serviço e não consegui. E por isso eu tava em busca pra poder eu me informar, sabe, como era... tudo.”

Neste instante parei para pensar no que lhe diria. Senti  certo mal estar. Suas palavras, o modo como as dizia, bem como as circunstâncias que nos conduziram àquele ponto do diálogo, não me deixavam margens para dúvida: eu estava diante de alguém em desespero.
Parei para ouvir as vozes dos eus que me habitam com seus imperativos nem sempre éticos; pensei em minha falecida mãe -  jovem, com 3 crianças; abandonada pelo esposo que se mandara para o sul... -  Décadas depois,  soube do desespero com que enfrentou os obstáculos após o fim do  casamento: carregava água em 3 burros dando assistência a construções e de tudo fez na tentativa de sobreviver e reorganizar sua humilde existência; rendeu-se, inclusive, aos encantos de alguns jovens aparentemente apaixonados. E foi assim que eu nasci.
Muitas coisas pensei e senti nessa  breve pausa: na onda de desemprego que assola o país, na enorme quantidade de jovens depressivas… lembrei de uma que pulou da ponte e levou consigo o filho de dez anos. Uma das vozes gritou quando meus olhos se umedeceram: "Deixa de ser bobo!"
Voltamos à conversa.

“De fato, amiga. A necessidade às vezes é mais forte que a gente.”

“É verdade. Eu sou um tipo de pessoa que eu jamais deixaria meus filhos passar necessidade, tá entendendo? Então, se tivesse que apelar pra esse caminho, eu ia de boa. desculpa aí eu ter pegado o numero errado. Achei que realmente fosse de lá. Desculpa.”

 “Nada. Eu que lhe peço desculpa pela curiosidade. Salvei seu número. se aparecer alguma novidade, lhe digo.”

“Como assim, ‘alguma novidade’? Você trabalha com esse tipo de coisa?

“Não, amiga. Mas a vida tem seus mistérios e às vezes pode pintar alguma proposta, não sei. Caso aconteça, comunicarei a você.”

De fato, leitor, desde que tivemos esse bate-papo,  tenho desejado encontrar um jeito de ajudá-la. Merecerá, de fato, que nos comovamos com sua situação? Tendo a dizer que sim, ainda embalado pelo calor da conversa. Falei  com uma pesoa amiga sobre como poderíamos prover-lhe ajuda. Disse-me que não adiantaria enviar-lhe dinheiro, porque seria uma solução passageira. Quem sabe se o acaso, semente deste texto, de algum modo não proverá uma saída para ela? Nada ocorre por acaso, dizem os místicos. Como consequência, intermediei a venda do livro sobre Maria Gorda a alguém com quem conversei sobre Sânzia. Ao salvar seu número, coloquei  “Sânzia G P”. A partir daqui, só imaginação
Pensei em pedir permissão à Senhora Santos para enviar-lhe algum dinheiro, mas tive receio. Esta estranhou o nome.

“Quem é Sânzia GP?”

Expliquei-lhe que “GP” não era “Garota de Programa” e sim “garota pernambucana”
Ontem demorei a pegar no sono; Não me adaptei bem ao sofá. Acordei ainda pensando em como ajudar à jovem mãe. Terá tudo um propósito? Terá o Universo conspirado a favor dessa garota aflita? Só o tempo dirá.  Quiçá, você que me lê, venha a fazer parte dessa conspiração.









quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Bráulio Bessa em Santa Cruz


Que evento maravilhoso
Tivemos em Santa Cruz!
Bráulio, hiper talentoso,
Espargiu bastante luz
A emoção que sentimos
Com as maravilhas que ouvimos
Nenhuma estrofe traduz.

O sujeito é bom de prosa,
Não só mestre em poesia;
A sua história exitosa
A qualquer um contagia.
Seu bom humor envolvente
E história comovente
Nos encheu de alegria.


Mônica Poggi e Bráulio Bessa
deram dicas importantes
Nós aprendemos à beça
Com estes bons palestrantes
Momentos áureos tivemos
E jamais esqueceremos
Desses momentos marcantes!


domingo, 12 de agosto de 2018

PAIEMA DE SETE FACES (Autor: Gilberto Cardoso dos Santos)


PAIEMA DE SETE FACES (Autor: Gilberto Cardoso dos Santos)

Pai nosso que estás no inferno
de um corredor de hospital:
que Deus pai, com olhar terno,
veja este drama fatal.

Papai, bebendo e fumando,
dizia sem embaraço:
- Quero que faça o que mando,
porém jamais o que faço.

O pai falho, atrapalhado,
graças a instinto profundo,
pelo filho é perdoado,
torna-se o melhor do mundo.

Um pai perfeito seria,
decerto maravilhoso,
se não fosse a homofobia
e seu machismo impiedoso.

Em sua última agonia,
o pai para a filha olhou;
e o silêncio que a feria
permanente se tornou.

Felizes, os marginais
ouvem, com prazer profundo
o "feliz dia dos pais
Para o melhor pai do mundo."

Com teu pai te revoltavas,
Pois vã foi a tua espera;
Era um homem de palavras,
Mas de palavra não era.

SANTA CRUZ, 12.08.2018


sexta-feira, 13 de julho de 2018

O OUTRO LADO DA POESIA (Gilberto Cardoso dos Santos)



O OUTRO LADO DA POESIA 
(Gilberto Cardoso dos Santos)

Às vezes a poesia
Cumpre um propósito vil.
Um poeta encabeçou
O Nazismo, tão hostil.
Convenhamos: quanto fel
Verte o poeta Michel
No governo do Brasil!


A Internet está cheia
De inspiração panfletária.
Utiliza-se a beleza
Da forma mais ordinária.
Fala-se em paz e amor,
Em futuro de esplendor,
Quando a intenção é contrária.


O poeta mercenário
Por interesses se guia.
Mas o poeta do bem
Exercita a empatia.
Com amor e simplicidade,
Asperge na humanidade
Unguento de poesia.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

PARADA NACIONAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

PARADA NACIONAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

O brasileiro precisa
Revisar bem seus conceitos
Pois quando é dia de jogo
Todos param satisfeitos
Como se isso importasse...
Ah se o povo parasse
Pra lutar por seus direitos!

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Fui comprar material, praticamente tudo fechado. Entregas só a partir de amanhã.
Um dos trabalhadores não veio porque ia assistir o jogo. Daí surgiu esta estrofe.



domingo, 27 de maio de 2018

A Leneide Farias, uma singela homenagem



A Leneide Farias, uma singela homenagem

A notícia me veio de longe, dos Estados Unidos. De Lenexa, alguém comunicou: “Gilberto, Leneide faleceu.”  A notícia psicologicamente me afetou de imediato; tinha o gelo cortante dos antigos telegramas, apesar dos esforços de Erílio para torná-la mais palatável. Depois disso, Marileide e outros buscaram entrar em contato comigo para fazer o triste comunicado.
Disse-me Eliel que foi um dos maiores enterros da história de Cuité.
Isso, porém não me causou qualquer surpresa, pois era de se esperar. De tanto bem semeado, não se poderia esperar inferior colheita.
Leneide mexia com vidas e da melhor maneira. Atuou no campo educacional e na saúde de modo inequivocamente brilhante.
Tive o privilégio e o prazer de ser seu aluno no Colégio Estadual. Jamais vi qualquer coisa que desabonasse sua carreira como docente. Pelo contrário: manifestava ter profunda química com a matéria que ensinava e a transmitia com entusiasmo. Invariavelmente doce no exercício da docência, entrava na classe disposta a dar o melhor de si. Algumas coisas que retenho de Química, devo-as a ela.
A partir do tempo em que com ela estudei, tornamo-nos amigos próximos. Aliás, proximidade era o que não nos faltava, pois morávamos em ruas que se interligavam. Também tinha proximidade e convívio com seu pai, Déu, com quem algumas vezes fui ao sítio, na ladeira do Olho Dágua. Como era agradável, enquanto colhíamos algo, provar do fruto do conhecimento de quem tanto contribuiria para o afloramento de meu amor à poesia!!
Leneide incentivou-me na carreira poética, pois sempre estimulava-me a continuar escrevendo e compondo. Via ela naquele jovem desvalido da beira da lagoa um potencial que nem todos conseguiam enxergar. Mais que simpática, Leneide transbordava  empatia. Vez por outra, ao voltar de Campina Grande, presenteava-me com algum alimento orgânico, substitutivo da carne, pois sabia de meu interesse pelo vegetarianismo.
Em minha formação muito devo a ela, não apenas por ter sido minha professora, mas por ter dado todo e incentivo e apoio quando fiz o vestibular. Não fosse ela, por exemplo, eu teria perdido o prazo de inscrição na UFRN!
Além de aluno, vizinho e amigo de Leneide, fui seu irmão de fé. Frequentamos por um bom tempo a Igreja Adventista. Com o tempo a abandonamos - ela bem antes que eu. Sair ou entrar na igreja não a piorou nem a melhorou, pois Leneide sempre fora a mesma. Havia nela uma ânsia por ser ética em tudo quanto fazia. Antes do batismo nas águas, já o fora no espírito, onde os verdadeiros batismos acontecem.
Era uma mulher do bem, mais preocupada com a felicidade alheia que com a própria.  Falava-me dos exames de endoscopia que tanto a desagradavam, mas isso não empanava seu sorriso, firme como uma flor em eterno desabrochar.
Eu e milhares de outros cuiteenses certamente muito nos surpreendemos ao saber de seu precoce fim. Entendemos, porém, que ela foi em paz ao último descanso, pela consciência de todo bem que fez. Perfeita em suas limitações, ela deu o melhor de si e fez um trabalho completo.
As raízes dessa saudade tão firmemente encravadas nos corações dos parentes, estendem seus tentáculos sob nós. Ao dizer “nós”, não nos parece fácil mensurar o alcance de sua (e)terna influência.  Desde sua morte, a voz de Minervina tem sido ouvida reiteradas vezes nos Estados Unidos por alguém cujos olhos têm se mantido úmidos. E o que tanto o comove são os versos feitos por Déu, seu pai, quando Leneide, chegou aos quinze anos:

“Leneide hoje completa
quinze anos de idade
Recebas de seu papai
parabéns felicidade
Esta data tão feliz
 jamais será esquecida
O dia em que nasceu
a minha filha querida

No dia em que nasceste
senti tão grande alegria
o meu coração pulsava
a minha alma sorria
ao lado da mãe querida
naquele humilde bercinho
eu sempre te contemplava
e te fazia carinho.

Não tenho prêmios nem joias
Que possa te oferecer
Somente estes versinhos
Te dedico com prazer
Receba, filha querida
Como tão simples presente
Já que tu és para mim
Uma filha obediente.

Como és estudiosa,
caprichosa e dedicada,
tens um futuro brilhante
sendo bem recompensada
a estrela do futuro
teus caminhos ilumina
com a paz, a perseverança
e a proteção divina.

Deus sempre está junto a ti
Sempre, sempre te ouvindo
Os anjos de lá do céu
Sempre te olham sorrindo
Almejo felicidades
para ti, filha querida,
Que serás minha esperança
No final da minha vida.”


 Estes versos, como disse alguém, têm uma doce singeleza, penetram os recônditos da alma. Todavia, não foram os melhores versos de seu pai. Leneide, certamente, foi o melhor poema que ele nos deixou.
Que Zé Pereira (a quem tanto admiro), seus irmãos, os talentosos filhos (Emile e Caio) e demais familiares consolem-se com o fato de que ela permanece viva nos pensamentos e corações da coletividade; pois isto é bem mais importante que emprestar seu nome a ruas ou instituições – algo também perfeitamente pertinente e profundamente desejável!
Com absoluta certeza, e no que de nós depender, Leneide perdurará na memória do cuiteense.

Gilberto Cardoso dos Santos
Filho de Cuité.
Membro da ANLiC (Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel) e Fundador da Associação de Poetas e Escritores de Santa Cruz
Santa Cruz, 26.05.2018








sábado, 27 de janeiro de 2018

MÃE ANINHA DO CÉU (Gilberto Cardoso dos Santos)


MÃE ANINHA DO CÉU (Gilberto Cardoso dos Santos)

Não era minha mãe, mas aprendi a chamá-la de mãe Ana. Quando minha verdadeira mãe morreu, eu tinha menos de quatro anos. Nada entendi daquele momento. Enquanto a velavam na casinha onde – ainda não sabia eu – passaria a morar, eu brincava e ria embaixo da mesa. Alguém me repreendeu pelo comportamento irreverente, e muito chorei por isso. Dali saiu mamãe para o cemitério, e ali fiquei sob a tutela desta segunda mãe, eu, dois irmãos e uma irmã.

Minha mãe legítima também havia sido criada por ela. Ela própria nunca teve filhos. Acreditamos que fosse estéril. A ela se referiam como Dona Ana, ou Ana do finado Mané João, a quem não tive oportunidade de conhecer.

Cedo vieram as peripécias próprias de cada idade. No telhado suportado por caibros e  varas tortas, via-se um pedaço de mangueira, pouco mais de meio metro. Não estava ali para cumprir a real função para a qual havia sido feita – a de conduzir água – todavia tirava água dos meus olhos, e como tirava!

A cada ato infracional, a cada pecado, eu era instado a olhar para o alto. Mirava, para além das telhas, para o olhar severo de Deus; mas o que eu via mesmo era a mangueira que parecia hibernar á semelhança de cobras, à espera do momento de ser empunhada pela vigorosa mão de minha avó e picar-me aparentemente sem piedade. Raras vezes ela dali a retirava. Com severidade similar à dos profetas velho-testamentários, a apontava e fazia promessas nada agradáveis. Apenas isso, o mostrá-la, tinha enorme efeito sobre meus instintos rebeldes. 

Às vezes, porém – raríssimas vezes -, eu não era dono mim e cometia falhas imperdoáveis. Mesmo a casa sendo baixa, dona Ana precisava ficar na ponta dos pés, como bailarina, e estendia o braço para retirá-la. Eram instantes enlouquecedores. Se eu tentasse correr, vinha a ameaça de que a surra seria maior. Sem sair do lugar e seguro pelo braço, aguentava a primeira lamborada nas pernas. A dor era lancinante. Eu não resistia e começava a gritar pedindo misericórdia, por mais que ela ordenasse que calasse a boca. Desde a primeira vez que apanhei passei a fazer uso de um vocativo, que espontaneamente brotava do fundo de meu desespero: Mãe Aninha do céu.

Enquanto pulava igual pipoca no caco, gritava mais ou menos assim: “Ai! Ai! Dê mais não, mãe Aninha do céu!

A cada surra, os vizinhos ouviam a expressão inusitada e isto se transformou num bordão e apelido. Riam de mim enquanto repetiam “Ai, mãe Aninha do céu!” 

Mãe Aninha do céu era algo que eu dizia apenas quando era castigado. Fora isso, chamava-a apenas de mãe Ana.


Hoje, mais do que nunca, vejo quanto foi do céu aquela que tomou conta de mim e de meus irmãos quando mais precisávamos. Se hoje pudesse vê-la, não necessitaria estar com a mangueira à mão para me ouvir chamá-la assim.  






Sua posse na academia de cordel do estado não é para menos. Estou aqui emocionada com sua crônica de família. Mãe Aninha do céu, nem sabia ela que faria desse menino, um homem de coração tão grande. Esse texto me emocionou tanto quanto aquele que você escreveu para a professora Valdenides Cabral Dias. Não consegui conter conter a sequência de lágrimas. - Débora Raquiel Lopes


Belíssimo conto, querido.  Parabéns, apesar da perda. Mas nessas horas , a escrita tem poder curador. - 
Valdenides Cabral Dias

Linda história. Por isso vc é quem é E tem tamanha sensibilidade - 
Juciana Soares

Grande professor Gilberto Cardoso Dos Santos, texto muito triste, porém não deixa de ser emocionante e belo. - Luciana Souza

Selma Crisanto: Emocionante amigo!