quarta-feira, 16 de outubro de 2019

UM REENCONTRO INUSITADO


UM REENCONTRO INUSITADO - Gilberto Cardoso dos Santos"Pela manhã semeia a tua semente, e à tarde não retires a tua mão, porque tu não sabes qual prosperará, se esta, se aquela, ou se ambas serão igualmente boas." (Eclesiastes 11:6)

Na manhã do dia dos professores, sem fazer a menor ideia da surpresa que teria naquele dia, abri um arquivo pessoal intitulado "Bálsamos verbais", onde guardo mensagens de ex-alunos agradecidos. Revi a  de José Aílton de Farias, que dizia:


Muito obrigado, querido professor. Me sinto muito lisonjeado por suas palavras... Sinto muita saudade da minha dura infância e adolescência; muitas coisas marcaram demais na construção da minha pessoa, inclusive, posso citar sem titubear, você como professor: às vezes pareceu tão chato para uma parcela dos alunos, mas no fundo você sempre soube o que fazia. Me lembro da 5ª série no Cosme Marques, dos contos em forma de trova como 'O homem da vaca e o poder da fortuna', 'O Sabido sem estudo', 'A chegada de Lampião no inferno'... Meus Deus! Como foi bom. Eu relia esses contos incessantemente na minha rua para os meus irmãos pequenos, primos e colegas. Era incrível! Poesias eternas! Tenho muitas coisas para falar do professor Gilberto. Hoje posso dizer que passei por graduação, técnico e especialização e tive ótimos professores, mas você sempre me vem na mente como um dos melhores!                                 
Muito obrigado, professor!!!

Deu-me vontade de reencontrar Aílton, que não tinha visto há anos. Busquei-o no Facebook, mas não o achei. Pus-me a pensar  no que ele era  quando meu aluno e no que veio a tornar-se: um cidadão de bem e bem sucedido, graças aos estudos.

Lembrei de uma noite em que estava com os amigos Rogério, Marcelo e Edgley na Praça Tequinha quando, um pouco ao longe, tendo ao fundo o cemitério, vi que alguém me observava com interesse. Reconheci-o, era Aílton. Parecia querer aproximar-se, mas não ousava. Mantinha resquícios daquela timidez que tinha quando no ensino fundamental. Finalmente avançamos um em direção ao outro e fizemos aquela saudação calorosa própria dos que se gostam e não se veem há décadas. 
De fato, ele queria falar comigo. Queria dizer-me o quanto fui importante em sua vida e formação. Disse-me que ainda guardava os cadernos do tempo em que estudava comigo. Havia  chorado ao reler os diários que eu o incentivara a fazer. Disse-me o quanto estes escritos o haviam ajudado em concursos e no ENEM. Havia passado em oitavo lugar para Engenharia Civil e ganhara uma bolsa. Era policial e tinha outros planos para a área acadêmica.

Após esse contato, não mais o reencontrei, até à tarde do Dia dos Professores de 2019. Precisei ir à escola onde ele estudou para solicitação de um documento. Era um dia duplamente significativo para mim;  estava prestes a aposentar-me, já de licença e no fundo no fundo queria sentir que valera a pena dedicar-me tanto à educação.

Qual não foi minha surpresa ao ver que Aílton lá se encontrava! Mutuamente nos emocionamos e eu senti os efeitos de uma má lição aprendida na infância: Homem que é homem não chora. 

Não choramos, mas de diversas outras formas demonstramos a todos que ali estavam o quanto estávamos satisfeitos pelo reencontro.

Relembramos alguns cordéis utilizados como paradidáticos: O Sabido sem estudo, A chegada de Lampião no Inferno, Homem de Sorte etc.

Carlos, o diretor, fez saber a ele que eu havia publicado uma obra - um livro com aquele tipo de texto que tanto o ajudara no desenvolvimento da leitura. Aílton não titubeou em manifestar interesse pela obra e até sugeriu o preço: "Quanto é, cem reais?"

Disse-lhe que, para ele, faria por 29,99.

Enquanto fazia sua dedicatória, fiquei a pensar quão significativo era aquele reencontro. Ele havia retornado à sua inesquecível escola Cosme Marques exatamente no dia dos professores!

Tive outras boas surpresas: a professora Jaiane, minha substituta, é irmã dele; além disso, ele planeja realizar um grande sonho, o de tornar-se educador!

Fiquei feliz demais ao saber que ele, mesmo já de vida feita (É cabo, prestes a virar sargento), com boas formações e pós-graduações,  planeje dedicar-se à missão de educar.

Na verdade ele é um educador nato. No texto inicial, escrito por ele, lemos: "Eu relia esses contos incessantemente na minha rua para os meus irmãos pequenos, primos e colegas." Em sua ausência, disse-me sua irmã: "O que eu sou hoje, devo a Aílton. Não apenas eu, mas toda nossa família. Ele me colocava pra estudar uma, duas horas e eu só podia sair dali depois que fazia as tarefas."

Querido leitor, cabem muitas exclamações e reticências na frase afirmativa dele: "Sinto muita saudade da minha dura infância e adolescência." Páginas e mais páginas poderiam ser escritas sobre as adversidades desse período. "Dura", para ele, significa bem mais do que encontraríamos no dicionário.

Circunstancialmente, teve que engatinhar e arrastar-se por um bom tempo,  mas os livros e a escola lhe deram asas. Imaginem, então, quão maravilhoso é para mim poder colocar agora em suas mãos mais um livro - não mais aquelas apostilas mal impressas que alavancaram sua formação -, mas o meu livro, o meu Maço de cordéis - lições de gente e de bichos!

Muitas são as lições que Aílton pode deixar para aqueles que são aprovados todos os anos, mas mal sabem ler, mal sabem redigir uma simples carta.

Tudo foi maravilhoso nesse dia dos professores. Só me arrependo de uma coisa:  

Eu acho que deveria ter cobrado os cem reais.








4 comentários:

  1. Poxa, professor! Que texto maravilhoso. Me senti lisonjeado. Que honra fazer parte dessa história!
    O que eu posso dizer é que não mude nada do texto. Vou enviar para Jaiane. E também imprimir e colocar num quadro na parede onde eu estiver morando...
    Fazendo um homem 'formado' chorar! - José Aílton de Farias

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  2. meu amigo, Professor, Poeta! Que bela história... de uma magnitude ímpar! Frutos da retidão de caráter em seu trajeto como homem e profissional. Grande exemplo! ����

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  3. Que história fantástica! Que escrito maravilhoso! Também fui aluna da E. E. Cosme Ferreira Marques em mil novecentos e bolinha, tive como professora a saudosa Hilda Dias da Silva Leitão. - Joseni Santos

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  4. Que maravilha! Emocionante!
    Que história linda a desse rapaz!
    Ele além de Cabo prestes a ser sargento, concluiu a engenheira civil que é mencionada no texto?
    Sempre marcamos profundamente a vida dos que passam por nós, por isso nossa missão é dupla: educar para a vida aqui na Terra e principalmente educar para a vida eterna no céu!
    Parabéns, meu querido irmão, isso só reforça sua sublime missão, você é sabedor da maior de todas as mensagens, aquela que salva nós dos sentidos, então não deixe que esses "Ailtons" passem por você sem saber a mensagem maior! - Ariani Borges

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