quarta-feira, 9 de outubro de 2019

PROCURE O JADSON (DEDIM) - Gilberto Cardoso dos Santos



Procure o Jadson (Dedim) - Gilberto Cardoso dos Santos


"A melhor propaganda é feita por um cliente satisfeito" disse Philip Kotler e isso é um consenso no mundo do Marketing. Não é à toa que contratam bons atores, capazes de fingir bem o quanto amam determinado produto.

Mas nada substitui uma pessoa genuinamente satisfeita.

Quero, porém iniciar essa crônica e testemunho falando de literatura. No livro Les Miserables, de Victor Hugo, há uma cena que muito me comove. Jean Valjean, ex-prisioneiro em liberdade condicional, mesmo com dinheiro, vagueia de uma pensão a outra, busca abrigar-se até numa casinha de cachorro, mas ninguém lhe dá a mão. Por fim, na praça escura que mais parece um congelador, entabula conversa com uma senhora desconhecida e ocorre a seguinte cena e diálogo:

— Já bati em todas as portas.

— E o que houve?
 — Em todas, me recusaram abrigo.
A mulher pegou no braço do homem. Apontou, do outro lado da praça, uma casinha branca.
— Naquela porta, já bateu?
— Não.
— Pois é lá que deve bater.


A casinha branca, vemos mais adiante no livro/filme, pertencia a Monsenhor Benvindo, onde Jean Valjean de fato resolveria os seus problemas.

Mas esqueçamos os graves problemas de Jean Valjean e voltemos ao meu.
O meu problema era o seguinte: Em casa eu tinha uma máquina de lavar louças com pouco mais de um ano de uso, mas já sem funcionar. Só fazia barulho. Bati em diversas portas. Nenhum dos que mexem com máquinas de lavar roupa se dispôs a consertá-la. Diziam: Procure fulano. Procurava e fulano dizia que não sabia, mas renovava minha esperança apontando outro técnico. Apareceu um técnico, um único, que viria doutra cidade (e caro!) para vê-la. Marcamos sua vinda, passaram-se meses e nada. O jeito seria levar a máquina até a capital ou a Currais Novos onde havia um técnico ocupadíssimo que a veria e faria um diagnóstico.
Até que conheci Jadson, um menino, à primeira vista. Conheci-o quando trabalhava para o cunhado. Levei 2 ventiladores velhos e gostei do trabalho dele. Percebi um sincero desejo de resolver o problema do modo mais econômico. Gostei do serviço dele e do cunhado.
Um dia, passei pela oficina, e seu pai, que não sabia do meu problema, ocasionalmente ali se achava. Não o conhecia, mas vi que ele mirava com satisfação o seu rapaz. Puxou conversa comigo e disse-me com orgulho: "Esse meu filho é muito inteligente. Qualquer coisa ele desenrola."
Interrompi o trabalho que estava sendo feito, chamei o Jadson e perguntei se ele seria capaz de consertar lava-louças.. Disse-me ele que nunca tinha mexido num deles, mas poderia consertar, sim. Marquei com ele pra hora do almoço, quando saísse do trabalho. E acrescentei: "Você vai lá e vê se dá pra consertar. Se conseguir, tudo bem. Se não, não tem problema."

Mas ele foi firme: "Pode ficar tranquilo que eu vou consertar sua máquina!"

Admirei-me da convicção. Ao meio-dia ele chegou a minha casa, pontualmente. Recusou-se a comer qualquer coisa, não tinha tempo a perder.
Era visível o seu desconhecimento daquele tipo de máquina. Para piorar, tentava improvisar ferramentas para o conserto.
Depois de aparentemente haver detectado o problema, olhou para um micro-ondas e perguntou como ele estava. Disse-lhe que não funcionava mais. Pediu-me permissão para retirar uma peça dele pra consertar a máquina. Que não me preocupasse. Planejava deixar as duas máquinas funcionando. Confiei.

Pois não é que tudo deu certo?

Tanto a máquina quanto o micro-ondas foram devidamente consertados!

O nome dele é Jadson, mas o chamam de Dedim. Não "Dedim" como diminutivo de dedo. Deve-se pronunciar como se começasse com "dé". No entanto, ele lembra o menino do dedo verde, ou o Rei Midas. Seus dedos mostram-se mágicos na arte de acrescentar vida útil a objetos em processo de obsolescência. Bem que poderia ser apelidado de Dedinho, no sentido de dedo pequeno.

Enquanto trabalhava, Jadson me falou de seus sonhos e projetos. Um deles era trabalhar por conta própria. Morava em casa alheia e queria encontrar um lugar que durante o dia fosse oficina e à noite lhe servisse de casa. Já tinha um prédio em vista! Desejava muito vencer na vida e ajudar os pais.


Olhei para aquele jovem de poucos estudos. Sequer concluíra o primeiro grau, mas tão inteligente e desejoso de vencer honestamente. Tinha uma tatuagem, e por causa dela perdera um grande amor. Os pais haviam imaginado que ele era um vagabundo. Mas ele iria mostrar a todos que não era o que pensavam. Não o julguemos pela aparência e marcas no corpo como fizeram com Jean Valjean.

Enquanto consertava minhas máquinas, Jadson falava como um homem de meia idade, cheio de responsabilidades. Pedi-lhe que quando tivesse sua própria oficina me avisasse, mas não disse o porquê.
Há poucos dias recebi sua ligação: "Professor, já estou na minha oficina. Venha conhecer."
Fui, e ao tirar as fotos ele me perguntava a razão de estar fazendo aquilo. Não lhe disse.

Fico feliz por meu amigo Jadson. Posso até estar enganado, mas vejo em seus olhos singeleza de propósitos, uma bondade natural e um nível de inteligência acima do normal. Alguém que quer para si, mas satisfazendo a perspectiva do cliente. Ele me lembra o protagonista de “François, o menino abandonado”de George Sand, livro belamente traduzido por Liliane Mendonça.


Finalizo, dizendo como a velhinha do livro Os miseráveis:

Caso tenha algo precisando de conserto, bata na porta do Jadson. Quem sabe, ele poderá resolver o seu problema.

Fica logo ali na Travessa Paz e União (no centro de Santa Cruz/RN). Você pode falar com ele pelo fone 84 988555207 e pelo WhatSapp (84) 998643372

Procure pela J&F





Gilberto Cardoso Dos Santos
Gilberto Cardoso Dos Santos




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