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sábado, 14 de maio de 2011

Entrevista em Poesia com Marcos Cavalcanti


GILBERTO

Me responda em poesia

tudo que eu perguntar

em verso branco ou escuro

não irei discriminar

fale-nos de sua infância

de alguma circunstância

que vive sempre a lembrar


MARCOS CAVALCANTI

Meu caro amigo Gilberto

Responder-lhe é bem preciso

Foram tantas as brincadeiras

Numa infância de sorriso:

Biloca, tô no poço, porrinha,

Garrafão, tica-tica, remandinha

Eis algumas que rememorizo

No palco da minha infância

Nas ruas do meu bairro Paraíso.


GILBERTO

Trace de si um perfil

em minibiografia

Diga quando despertou

seu amor à poesia

de seu apego à leitura

e grande amor à cultura

que pra sempre o marcaria


MARCOS CAVALCANTI

De quatro frutos sou o primeiro

Das árvores Quinca e Terezinha

Vivo feliz com a minha esposa

Ao lado de nossas duas filhinhas

A poesia foi gestada na leitura

E se é que eu tenho alguma cultura

Credito as quatro professorinhas:

Artes, filosofia, ciência e história,

São estas as minhas madrinhas.


GILBERTO

Grande Marcos Cavalcanti

na poesia tão forte

verdadeira sumidade

no Rio Grande do Norte

Você fica preocupado

quando às vezes é chamado

de O Poeta da Morte?


MARCOS CAVALCANTI

Se sumidade é sumido

Aceito o seu qualificativo

Mas não ligo para rótulos

Seja adjetivo ou substantivo

Se a minha poesia é forte

Tirou a força da morte

É por isso que estou ativo

Fazendo poesia necrológica

Para leitor morto-vivo.


GILBERTO

Por que o tema da morte

tem sido tão explorado?

O ter que morrer pra sempre

o deixa preocupado?

O que o faz escrever

é a vontade de ser

postumamente lembrado?


MARCOS CAVALCANTI

No Viagens ao Além-Túmulo

O tema da morte é o principal

Mas não apresenta novidades

Nada há de excepcional

A morte é apenas um processo

Como qualquer outro do universo

Um fenômeno simples e natural

Escrevo porque amo a poesia

Sem fardão ou pose de imortal!


GILBERTO

O que me dizes da rima,

do verso metrificado;

poesia é algo mais

que o verso bem comportado?

Quanto ao valor cultural

o que pensas afinal

do verso de pé-quebrado?


MARCOS CAVALCANTI

Gilberto, meu caro amigo

Eu não tenho competência

Para responder tal questão

Se a poesia é uma ciência

De medir, pesar e esquadrinhar,

Não sou eu quem vai regular

A poesia em sua essência

Nem engessar pé-quebrado

Com a minha incompetência.


GILBERTO

Que prêmios já recebeu?

que obras já publicou?

Em que palcos importantes

Você se apresentou?

nas declamações que fez

porventura houve uma vez

em que alguém o vaiou?


MARCOS CAVALCANTI

Não quero falar de prêmios

E são bem poucos, meu amigo

Não têm lá grande relevância

E estão cá, no coração que abrigo

O livro primeiro e sem acúmulo

Foi o Viagens ao Além-Túmulo

E o segundo que jaz comigo

Tem por título: Imarginário

É só isso e mais não digo.


GILBERTO

Você se diferencia

por se declarar ateu

quando foi exatamente

que a sua fé perdeu?

qual o grande argumento,

prova cabal, pensamento

que disso o convenceu?


MARCOS CAVALCANTI

Não é pouco o que me pedes

Para eu responder de repente

A fé que você mesmo tinha

Hoje já está bem diferente

E nem o melhor menestrel

Consegue por num cordel

Resposta única e convincente,

Por essa razão eu vos digo

Respeite-se o de fé e o não crente.


GILBERTO

"Sem Deus a vida é burra"

Afirma Diadorim

No Grande Sertão - Veredas.

Você também pensa assim

ou acha isso tolice?

Se acaso Deus existisse

seria bom ou ruim?


MARCOS CAVALCANTI

Sem Deuses e sem diabos na mente

Tenho vida plena, apoiado na razão

O Belo, o Bem, o Justo, a Virtude

Não são monopólios da religião

Aprendi muito com a filosofia

Com a literatura e com a biologia

Para ter a minha própria convicção

Que o mundo é como se apresenta

Seja você pelo sim, seja você pelo não.


GILBERTO

Você não acha que a fé

é algo essencial

que o mundo fica vazio

sem o sobrenatural?

A fé e a religião

não causam transformação,

evolução cultural?


MARCOS CAVALCANTI

Não quero ser tão redundante

Já lhe apresentei uma resposta

Muito simples, sincera e humilde

Não sei se alguém gosta ou desgosta

Vivo na natura, sou um ser natural

Sem metafísica ou sobrenatural

E não faço conjectura ou aposta

Que o desenvolvimento da cultura

Tenha só na religião a mesa posta.


GILBERTO

Que coisas da natureza

mexem com seu sentimento?

Recite um belo poema

e um belo pensamento

nas relações pessoais

quais conceitos morais

regem seu comportamento?


MARCOS CAVALCANTI

Das coisas da mãe natureza

Tudo me traz contentamento

A chuva, o mar, a serra, o sertão,

A flor, o sol, as estrelas e o vento,

E nas ações e relações interpessoais

Não alimentar preconceitos sociais

Andar na Lei, ter bom pensamento

Ser solidário, justo, amável e educado

Eis ai, meu poeta, o que sustento.


GILBERTO

O que é a poesia

para Marcos Cavalcanti?

por que defende a cultura

de maneira desgastante?

Nas batalhas que enfrentou

que sucessos alcançou

e qual se mostrou frustrante?


MARCOS CAVALCANTI

A poesia é o olhar de uma criança

É o assoviar sibilante do vento

É o leite da mãe que do seio brota

Para saciar a fome de seu rebento

Já a cultura, só enriquece, não desgasta

Passadista, ultramoderna ou iconoclasta

É luta sadia e sem arrependimento

Viver é combate! Disse um grande poeta

E eu faço disso, meu mandamento.


GILBERTO

Na cultura erudita

cite alguém que o fascina

e um que bem represente

a cultura nordestina

ainda dentro do tema

o que pensa do poema

Morte e Vida Severina?


MARCOS CAVALCANTI

Você me pede dois nomes

Mas um só nome diz tudo

Não há que se fazer distinção

O que seria um absurdo

Cultura erudita ou popular

Nas duas se pode conjugar

Um só nome “severino” , graúdo

Mais de cem livros nos escreveu

Mestre Luís da Câmara Cascudo.


GILBERTO

Qual sua maior virtude

e qual seu maior defeito?

política e religião

merecem nosso respeito?

E este mundo esculhambado

destruído e maltratado

acha que ainda tem jeito?


MARCOS CAVALCANTI

Analisou sua vida, Montaigne

Em seus ensaios imortais

“Conhece-te a ti mesmo”,

Ensinou Sócrates aos demais

Se eu tenho alguma virtude

Que com o tempo eu não mude

E os defeitos que são tantos e tais

Se transformem neste mundo absurdo

No mais nobre entre os nobres metais.


GILBERTO

Você mandou escrever

em palavras garrafais

ao lado de sua casa

assim: "Poesia e Paz"

entre Paz e Poesia

qual delas escolheria

qual dos termos vale mais?


MARCOS CAVALCANTI

Meu caro poeta Gilberto

Um mundo de poesia seria a paz

Um mundo de paz seria pura poesia

Essa conta, meu amigo, não se faz

Paz e Poesia são como dois estribilhos

São também como dois filhos

Não me pergunte qual vale mais

Porém uma coisa eu lhe garanto

Amo a poesia e o pacifismo contumaz.


GILBERTO

Fale sobre Santa Cruz

ressaltando seus valores

Suas últimas palavras

dirija a nosso leitores

e fale com emoção

de sua associação

de poetas e escritores.


MARCOS CAVALCANTI

Santa Cruz é o meu berço

É o meu torrão mais querido

Não há palavra que descreva

O que por ela tenho sentido

Ressaltar seu valor, a sua cultura

Por meio da arte e da literatura

É molhar no já bem chovido

A ASPE, sou eu, é você, quem quiser

Venha e serás mais um comovido.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

IMPORTANTE ENTREVISTA COM ESTUDIOSO DO CANGAÇO


ENTREVISTA COM DR EPITÁCIO, ESTUDIOSO DO CANGAÇO

GILBERTO: Olá, Dr. Epitácio! Fale-nos sobre sua pessoa, profissão e trabalhos que tem desenvolvido.

DR. EPITÁCIO: Sou médico psiquiatra por formação. Pertenço ao quadro de saúde da Polícia Militar e do Hospital Psiquiátrico Dr. João Machado, em Natal, onde resido. Trabalho em várias cidades do estado. Nasci em Catolé do Rocha/PB, “a praça de guerra”, como chama o conterrâneo Chico César, e fui criado no Patu, no médio-oeste potiguar, terra natal de Jesuíno Brilhante.

GILBERTO: Desde quando surgiu seu interesse pelo fenômeno do cangaço e o que o motivou a estudar o tema com tanto empenho?

DR. EPITÁCIO: Herdei o meu nome do meu pai Epitácio Andrade, ex-prefeito de Patu, que foi aluno do Professor Raimundo Nonato, no Colégio Diocesano de Mossoró. Doutor Raimundo Nonato é o autor de “Jesuíno Brilhante, o cangaceiro romântico”, sendo, portanto, o principal biógrafo de Jesuíno. Na minha infância, os meus pais recebiam e acolhiam o Professor Nonato em nossa residência em Patu, quando ele vinha pesquisar no acervo da casa paroquial. Talvez por meu nome significar “ofício de estado”, sentia-me na obrigação de acompanhá-lo em suas investigações. Posteriormente, passei a entender o resgate da nordestinidade como um ofício de estado.


GILBERTO: Fale-nos, em linhas gerais, sobre a figura do cangaceiro Jesuíno Brilhante e sobre o que mais chama sua atenção na pessoa dele.

DR. EPITÁCIO: Jesuíno Alves de Melo Calado, “Jesuíno Brilhante”, apelido para homenagear um tio, nasceu no Sítio Tuiuiú, na zona rural de Patu, no Oeste do Rio Grande do Norte, em o2 de janeiro de 1844, e morreu na Comunidade rural Santo Antônio, em São José de Brejo do Cruz, na fronteira paraibana, em dezembro de 1879. A sua capacidade de transformar a tragédia cotidiana sertaneja em questão política, acredito ser sua característica mais louvável.


GILBERTO: Há alguma associação entre seus estudos na área da psiquiatria e o tema do cangaço? Do ponto de vista psiquiátrico, poder-se-ia dizer que Jesuíno Brilhante, mesmo tendo vivido uma vida tão fora do comum, fosse uma pessoa normal?

DR EPITÁCIO: A violência é o principal fator estressogênico na sociedade contemporânea. Estudar os seus determinantes sociais ajuda a compreender o sofrimento psíquico das pessoas. No “Banquete dos Signos”, o poeta de Brejo do Cruz diz assim: “Discutir o cangaço com liberdade é saber da viola, da violência...”, fazendo-nos acreditar que compreendendo conflitos familiares e outros determinantes do cangaço, poderemos elaborar mecanismos de superação da violência humana, com arte, com poesia, com música. Jesuíno era um sertanejo comum até ser vítima da violência, quando partiu para o cangaço. Neste caso é preciso parafrasear outro poeta: “De perto, ninguém é normal”.


GILBERTO: Seus estudos são direcionados exclusivamente à saga de Jesuíno brilhante ou outros personagens e fatos relativos ao cangaço entram em pauta?

DR EPITÁCIO: Entrei para a Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço a convite de Kydelmir Dantas, em 2005, quando apresentei a tese: “A Importância Histórico-social do Cangaço de Jesuíno Brilhante”, defendida numa sessão de estudiosos do cangaço, no museu Lauro da Escóssia, em Mossoró. Realizei pesquisa etnográfica sobre o cangaceiro Liberato Cavalcanti de Carvalho Nóbrega, contemporâneo de Jesuíno Brilhante, inspirando o Poeta Gil Hollanda a compor o cordel “O delegado que virou cangaceiro”. Produzi, em parceria com o Coronel PM/RN Ângelo Mário de Azevedo Dantas, o artigo: “O Fogo da Caiçara – Início da Resistência ao Bando de Lampião no Rio Grande do Norte”. No momento, estou empenhado na viabilização de lugares de memória do cangaço, uma conseqüência direta da aprovação da dissertação de mestrado da Professora Lúcia Souza, de quem fui coorientador.

GILBERTO:Do ponto de vista psiquiátrico, como analisa o desejo de justiça e vingança inerente ao ser humano que busca fazer justiça com as próprias mãos?

DR EPITÁCIO: A prática da vingança é a realização da justiça com as próprias mãos, que consiste na persistência de impulsos heterocidas primitivos do animal humano. Do ponto de vista social, é a manutenção da lei do Talião: “Dente por dente, olho por olho”. É a contramão dos caminhos civilizatórios.

GILBERTO: Trace um quadro comparativo entre Jesuíno Brilhante e Lampião.

DR EPITÁCIO: Estou formulando um projeto de pesquisa que procura contextualizar a história das principais lideranças do cangaço (Jesuíno Brilhante, Antônio Silvino, Lampião e Corisco) com a evolução do diagnóstico da personalidade psicopática. Estou com 45 anos e acredito que levarei até o resto da vida pra concluí-lo, se chegar a concluir. Este projeto permitiria desenvolver, como técnica de investigação científica, uma espécie de “necrópsia psiquiátrica”. Como tenho consciência que esta não é uma tarefa para uma pessoa só, estou recebendo o suporte teórico do Doutor em Psiquiatria Ivanor Veloso; convidei o Psicólogo Júlio Cesar Ischira para ingressar no projeto; e vou convidar a colega psiquiatra Suzana Brilhante, da descendência de Jesuíno, para colaborar com esta formulação científica. Utilizo este comentário para justificar a dimensão da complexidade da resposta a sua pergunta. Se fosse realmente traçar um paralelo entre Jesuíno e Lampião, apresentaria inferências históricas, não conseguiria, no estado atual do conhecimento científico, descrever, fidedignamente, suas personalidades.

GILBERTO: O que, de seu conhecimento, já se produziu em termos de literatura culta ou popular e arte cinematográfica sobre a pessoa de Jesuíno Brilhante? Que trabalhos destacaria?

DR EPITÁCIO: Podemos dividir a produção literária sobre o cangaço de Jesuíno Brilhante em autores memorialistas, como Raimundo Nonato, José Gregório, Alicio Barreto, Frederico Pernambucano de Melo e Luiz da Câmara Cascudo, que fica na transição com os ficcionistas, como Rodolfo Teófilo e Gustavo Barroso. O menestrel Ariano Suassuna dedicou seu romance “A Pedra do Reino” a Jesuíno Brilhante. A literatura de cordel é extremamente significativa para a memória do cangaço, sendo cordelistas importantes: Rodrigues de Carvalho, autor do “ABC de Jesuíno”, Gil Holanda, Luiz Antônio de Malta e Zé de Alzerina. O comunicador Miguel Câmara Rocha editou dois números da Revista “Roteiros de Patu”, que narra o conflito dos brilhantes com os limões, com base no livro “Solos de Avena” de Alício Barreto, editado em 1905. O filme “Jesuíno, o cangaceiro”, do Cineasta ipanguaçuense William Cobbet, produzido em 1972, reveste-se de importância cultural para o Rio Grande do Norte por ter sido o primeiro, integralmente, rodado no estado e o trânsito dos atores, durante as filmagens em Natal, ter originado o nome da “Praia dos Artistas”. Destacaria duas produções culturais sobre o cangaço de Jesuíno: O espetáculo teatral “O Auto de Jesuíno”, do Dramaturgo Ricardo Veriano, editado no período de 2001 a 2008, durante a feira da cultura de Patu, e “Jesuíno Brilhante em História de Quadrinhos”, de Emanoel Amaral e Alcides Sales.

GILBERTO: Acha que se tem dado a devida importância à preservação da memória de Jesuíno ou o Rio Grande do Norte peca nesse aspecto?

DR EPITÁCIO: Não conheço iniciativas de governo voltadas para o desenvolvimento da memória do cangaço de Jesuíno Brilhante. Só conheço ações independentes, construídas com muitas dificuldades e, praticamente, sem apoio.

GILBERTO: Qual a importância de se batalhar para manter viva a memória de uma pessoa com o perfil de Jesuíno Brilhante; seria apenas um hobby ou muito mais que isso?

DR EPITÁCIO: O desenvolvimento da memória do cangaço de Jesuíno permite o alargamento da compreensão de nossa história, da história do Sertão, do Brasil e dos fenômenos sociais, ampliando nossos horizontes culturais, favorecendo a criação de alternativas de desenvolvimento sustentável para uma das regiões mais pobres do mundo. Como também, possibilita a superação de idéias e comportamentos preconceituosos, melhorando a consciência política do povo, ajudando a formar massa crítica.

GILBERTO: Que projetos tem em mente relativos à preservação da memória de Jesuíno Brilhante?

DR EPITÁCIO: Estou empenhado na viabilização de lugares de memória do cangaço, em dois epicentros principais: o município de Patu, lugar de nascimento de Jesuíno Brilhante, onde defendemos a criação de uma reserva ambiental que englobe o conjunto de serras do município, possibilitando a preservação das cavernas que o cangaceiro utilizava como esconderijo e desenvolvimento do turismo ecológico, adsorvendo-se ao turismo centrado no Santuário do Lima; e o outro epicentro é o município de São José de Brejo do Cruz, na Paraíba, lugar da morte do cangaço, onde defendemos a implantação de um parque temático do cangaço. Fora destas articulações políticas, estou ultimando a feitura do livro “A Saga dos Limões – Negritude no Enfrentamento ao Cangaço de Jesuíno Brilhante”

GILBERTO: O que se conseguiu resgatar dos objetos pessoais de Jesuíno e onde esse material pode ser visto?

DR EPITÁCIO: Recentemente, eu e Ricardo Veriano descobrimos uma relíquia que pode ter pertencido ao cangaceiro brilhante. No próximo dia 29 de abril de 2011, em Currais, numa pousada rural, estaremos apresentando o punhal de Jesuíno e estimulando um debate com estudiosos do cangaço para testar a autenticidade da descoberta. Na casa da cultura de Campo Grande/RN, encontram-se a moringa e a garrucha. No museu Lauro da Escóssia, em Mossoró/RN, está o bacamarte “Bargado”. E em Martins/RN, encontra-se o bacamarte de cano longo, pertencente ao acervo do autodidata Júnior Marcelino.


GILBERTO: Fale-nos sobre o documentário que produziu sobre o local da morte do cangaceiro.

DR EPITÁCIO: Em 2005, produzi o Documentário: “O lugar da Morte de Jesuíno Brilhante”, que apesar das limitações técnicas subsidiou o projeto, que resultou na dissertação de mestrado da Professora Lúcia Souza. O roteiro da produção é centrado no depoimento do cidadão centenário Mário Valdemar Saraiva Leão, fundador da cidade de São José de Brejo do Cruz, que apontou em visita a localidade, chamada “Serrote da Tropa”, na comunidade rural Santo Antônio, como o lugar mais provável da morte de Jesuíno, ratificando as informações dos memorialistas. O documentário tem a participação do cancioneiro octogenário Chico Mota e do repentista Zé de Alzerina, conterrâneo do Sítio Tuiuiú. Uma dupla de descendentes de Jesuíno Brilhante entoa a música de domínio popular “Corujinha”, que era cantada por Jesuíno e seu bando. Ao som de grupos culturais do município, a benzedeira Francisca de Mica encenou um fechamento coletivo de corpos, tradição ritualística dos tempos do cangaço de Jesuíno Brilhante.

GILBERTO: Conte-nos fatos relativos à vida de Jesuíno que fazem parte do imaginário popular mas não têm qualquer base histórica.

DR EPITÁCIO: O Professor Raimundo Nonato procurava, insistentemente, alguma certidão de casamento que constasse o nome de Jesuíno Brilhante como padrinho. Nunca conseguiu encontrar. Porém, na história oral do cangaceiro romântico constam inúmeras referências que ele reparava a honra de moças pobres seviciadas pelos filhos dos ricos fazendeiros da região, no seu processo de iniciação sexual, forçando-lhes o casamento. Os apologistas de Jesuíno afirmam que isso ocorria por uma questão puramente ética, que estava relacionada a moral inabalável de Jesuíno. Nossos dados apontam para a determinação econômica da ação do cangaceiro, ou seja, forçando o casamento não-programado, Jesuíno introduzia novos atores sociais na divisão da terra.

GILBERTO: Para o senhor Jesuíno deve figurar como herói ou bandido? Por quê?

DR EPITÁCIO: Tem-se que contextualizar, historicamente, as ações cangaceiras de Jesuíno. Não devemos fixá-lo num ponto dessa polaridade herói-bandido. A palavra, que julgo mais adequada para a resposta é do antropólogo Roberto da Mata, relativizar.

GILBERTO: Como diferencia o fenômeno do cangaço das gangues que controlam certas regiões pobres do Brasil?

DR EPITÁCIO: O cangaço é um fenômeno geo-histórico, que ocorreu da segunda metade do século XIX ao início da década de 40 do século XX,principalmente nas áreas rurícolas do Sertão do Nordeste Brasileiro. A alta delinqüência é um fenômeno da contemporaneidade, que se espalha nas grandes cidades, sobretudo, no espaço suburbano. No cangaço não havia intenções de tomada do poder político, simplesmente porque o líder cangaceiro era a incorporação do poder absoluto. Na marginalidade organizada, não há intenções de tomada de poder pela total ausência de um referencial ideológico. Poderíamos pensar várias outras diferenças.

GILBERTO: Que acha da abordagem dada à vida de Jesuíno na novela Cordel Encantado?

DR EPITÁCIO: É uma abordagem ficcionada, que tende a reforçar o processo de mitificação do cangaço. Algumas pessoas da produção da novela conhecem a professora Lúcia Souza, e estão articulando um encontro para conhecer a tese. O próprio ator Cauã R..., que faz o papel de Jesuíno, poderá receber algumas orientações da mestra em cangaço. Caso isso venha a acontecer, com certeza, serão assimilados elementos críticos que melhorarão a capacidade de transformação social da novela.

GILBERTO: Qual o papel e importância da leitura em sua vida, como se deu sua entrada no mundo dos livros e que autores o influenciaram?

DR EPITÁCIO: Comecei a ler influenciado por minha mãe Lourdinha Holanda e pela Professora Raimunda Cleonice Dantas, Dona Nice. Na infância, recebi a influência de Monteiro Lobato. Na adolescência, do médico Ernesto Che Guevara. Para desenvolver os estudos sobre Jesuíno Brilhante, a principal influência, foi, sem dúvidas, do Professor Raimundo Nonato. Já na fase adulta, percebo a influência de Euclides da Cunha, Josué de Castro e do Escritor peruano Mário Vargas Llosa. Quanto ao papel e a importância da leitura, não consigo identificar outro caminho que possa mais contribuir com a busca pela plenitude humana, que não seja o caminho das letras. Por outro lado, Seu João de Artur, que comanda um grupo folclórico e afirma que “ a diversão é necessária”, diz que o homem deve ser “ou bem lido, ou bem corrido”.

GILBERTO: Cite algum pensamento, trecho de livro ou poesia que aprecia muito.

DR EPITÁCIO: Um pensamento matemático-cabalístico: “Deus é o conjunto de pontos de uma esfera sem circunferência”.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Casa da Cultura Santa Cruz



A atual liderança da Cultura em Santa Cruz tem, a meu ver, se empenhado em dar o melhor de si na realização de eventos culturais. Não me disseram, mas imagino que sofram com a burocracia e falta de recursos. Ali, literalmente, há algo que não cheira bem. Busquei fazer um relato nos seguintes versos, postos para apreciação do leitor:

PROBLEMAS NA CASA DA CULTURA

1
A cultura em Santa Cruz
atingiu bons patamares
exala um cheiro suave
respiramos novos ares
Temos o grupo Arte-Viva
que de forma criativa
põe a poesia em cena
o Arraiá do Coentão
temperando a emoção
e o Grupo Lua Serena.

2
Santa Cruz tem abundância
de excelentes artistas
atores de qualidade
artesãos e cordelistas
E onde era prisão
se fez edificação
de um espaço cultural
onde a alma tem seu lume
e se exala o perfume
da arte regional.

3
Essa casa é um oásis
um viveiro de talentos
palco de mil emoções
e importantes eventos
Nessa antiga cadeia
hoje se ergue a candeia
da cultura popular
se antes gente prendia
hoje solta a poesia
e a deixa livre voar

4
Todavia nesse espaço
- Jardim da imaginação
onde flores desabrocham
com cores em profusão
Há falhas estruturais
necessidades vitais
ficam sem atendimento
por escassez monetária
sua parte sanitária
exala um cheiro nojento.

5
Nesse recanto adubado
nossa cultura floresce
a alma se regozija
porém o corpo padece
se o intestino pedir
para você expelir
urina e bolos fecais
na hora da agonia
esqueça da poesia
corra pra outros locais.


6
O fedor se sente ao longe
não tem iluminação
alguns urinam da porta
o mijo escorre no chão
trincos de portas partidos
sanitários entupidos
sem descargas, repelentes
essa mancha na paisagem
tira a força e a coragem
dos artistas mais valentes.

7
Isso há tempos acontece
é preciso resolver
mas nada tem sido feito
e a casa vive a feder
fica como chaga aberta
Ninguém limpa ou conserta
e a coisa vai piorando
chego a ficar espantado
com o descaso mostrado
e me pergunto: Até quando?

8
Antes, quando era prisão,
nos espaços carcerários
os presos se aliviavam
em imundos sanitários
mas hoje ali a cultura
decreta ao homem soltura
liberta-o da rotina
e este não pode sofrer
constrangido a conviver
com tão grande fedentina.

9
Rogo às autoridades
e quem sabe a voluntários
que resolvam o problema
limpem esses sanitários
matéria fecal impura
não aduba a cultura
isto todo mundo sabe
libertar dos excrementos
a essa casa de eventos
às autoridades cabe.

10
Percebe-se claramente
que a classe governante
não costuma ver a arte
como algo relevante
Portanto fica o apelo:
que se trate com mais zelo
essa instituição
Este mundo vai mudar
Quando se priorizar
arte e educação.



Autor: Gilberto Cardoso dos Santos


Abaixo, o comentário de um sociólogo e educador sobre o post da Casa da Cultura:
Teixeirinha Alves disse...

Os versos são excelentes, Gilberto!
Lendo, já "senti" o mau cheiro.
Que pena nossa Casa de Cultura está passando por isso!
Essa luta é de todos!


RESPOSTA:


Tais palavras, Teixeirinha,

me trazem certa grandeza

grandeza que é menos minha

mais de sua gentileza

pródiga em elogiar

algo que vem a lhe dar

um certo ar de nobreza.


Agradeço, também, pelo seguinte comentário:


PARTIDO VERDE SANTA CRUZ RN disse...

Amigo auspicioso é você! ... Que tem sido uma referência em Santa Cruz quando a o assunto é cultura parabéns e boa sorte!