quinta-feira, 23 de maio de 2019

MENSAGEM À SENHORA SANTOS

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!










Caríssima e áurea senhora Santos:

O poema O tempo foge, de Ricardo Gondim é belíssimo. Dedico-o a você neste dia. No poema acima, você teve uma versão resumida, indevidamente podada, de algo escrito pelo pastor Ricardo Gondim e publicado no livro "Eu creio, mas tenho dúvidas". Vale a pena ser lido na íntegra ou escutado na voz de Abujamra. O analfabetismo funcional, a leitura apressada e a ausência de sentimento verdadeiro dos que fazem copy paste em datas como esta, fizeram com que acabasse sendo atribuída a Mário de Andrade, apenas citado no texto.

Quero, neste instante, falar à senhora Santos, carinhosamente conhecida como "Maria de Bião", "Maria, mãe de Débora", "Conceição", "Ceição" e - a referância que mais me agrada - "Maria de Gil".

(Aos demais leitores, apresso-me em explicar: o senhora Santos vem de uma série que assistimos juntos, a do detetive Columbo. Nas intrincadas e envolventes tramas, a esposa jamais aparecia, mas era citada com frequência, a cada episódio. Era a senhora Columbo. Ausente da tela, - bem menos presente que Lombardi nos programas de Sílvio Santos - mostrava sua importância no desenvolvimento dos diálogos e na efetiva solução dos casos. Por trás da vida do grande investigador, como na minha, havia uma mulher de grandiosa importância. No entanto, apenas seu sobrenome nos foi revelado.)

O texto de Ricardo Gondim não se aplica cem por cento a você e eu espero que não decida segui-lo à risca. Você tem mais futuro do que passado, não é uma "sem futuro". Seu passado e seu presente atestam o quanto você, ao longo de todo o tempo manteve-se fiel a tudo e a todos, jamais decepcionando - exceto por justa causa.

Você é, invejavelmente, quase perfeita!

Mas, e o presente - o seu presente - de você que é tão presente em nossas vidas e nosso melhor presente? 

São perguntas que nos fazemos, seguindo ordens da consciência, pois muito é o bem que nos tem feito.

Que presente lhe estamos dando ou lhe daremos além de nossa presença? De que modo este presente se converterá em lembranças, à medida que o futuro for chegando?

Presentes ou ausentes? Como estamos, em sua vida e em seus sentimentos?

Nós - esposo, filha e demais familiares - é que devemos responder a isso.

O poema fala sobre a fuga do tempo. 

O tempo fugiu para mim e para você, continua a fugir, mas não fugimos um do outro. Demo-nos às mãos em meio à correnteza. Às vezes nos vimos à "terceira margem" (só no amor há lugar para esta terceira margem no rio do tempo) - jamais perdemos ou quisemos perder um ao outro de vista.

Você vive "O valioso tempo dos maduros", mas longe está de apodrecer. 

É uma mãe fantástica, uma esposa nota dez (a quem sou eternamente grato) e um privilégio na vida de todos com quem convive. Sempre bênção, jamais maldição!

Você foi solução para os problemas de muitos - de amigos e de familiares. Todos que de você precisaram de algum modo foram beneficiados. Nem aos ingratos você decepcionou. Pelo contrário: surpreendeu.

Não é à toa que a você recorrem - e como recorremos - pois você é sinônimo de eficiência e de altruísmo. 

Não nascemos éticos, mas você parece ser uma exceção.

Se lhe pagarem o bem com o mal ou com a indiferença, lembre-se Daquele que, havendo curado dez leprosos, teve o agradecimento de apenas um.

Perdoe-nos quando formos ingratos e nada mais merecermos.

Que este dia comum torne-se incomum para você, pela certeza do amor que lhe temos, do quanto é importante para nós todos e do quanto fomos abençoados desde que entrou em nossas vidas.

Você foi para seu pai uma filha fantástica. Fez o que pôde e mais um pouco para que seus últimos dias fossem os melhores. E continua a ser para sua mãe uma filha ideal.
Como irmã, jamais deixou a desejar.

Você é uma pessoa do bem, inegavelmente inteligente e habilidosa.

Quem a conhece de perto jamais duvidaria disso.

Além de esposa, companheira do dia a dia e mãe de minha maravilhosa filha (a quem tão bem educou), você é minha melhor amiga. Que estas palavras, emolduradas no  necessário silêncio fulgurem diante de você como a exata expressão do que penso e sinto.

Beijos e abraços,
Feliz aniversário!!!

Gilberto Cardoso dos Santos

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