sexta-feira, 6 de novembro de 2020
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
REFLEXÕES DE UM PRÉ-FINADO
REFLEXÕES DE UM PRÉ-FINADO
Hoje amanheci sentindo necessidade de refletir sobre a morte, mas de modo vago e sem muito compromisso com conclusões pois, como disse Fernando, "a única conclusão é morrer". Resolvi rever o que o Eclesiastes diz a respeito da indesejada. Logo no capítulo 1 (verso 11), encontrei o seguinte:
"Ninguém se lembra dos seus antepassados. E também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados por seus pósteros."
Coloquei à prova a afirmação e não consegui ir além de minha avó materna, a quem não conheci, que tocou fogo em si mesma antes que eu viesse ao mundo. Minha mãe, por sua vez, morreu antes que eu completasse os quatro anos; não teve tempo de repassar-me o pouco que devia saber. Sou filho bastardo. Venho de famílias pobres, destroçadas e fadadas ao anonimato.
O que as pessoas sabem sobre seus antepassados, quando o sabem, é em geral bastante vago e dependerá da importância social que estes tiveram. Os mórmons, por seu interesse em batizar-se pelos que já se foram, tentam inverter essa realidade, mas se fizéssemos uma consulta ampla, veríamos que este versículo representa a realidade de 99 por cento da humanidade. Um amigo escritor disse-me que, não crendo em uma outra vida, esperava imortalizar-se através de seus livros. De fato, deixar uma obra escrita - desde que significativa - é um dos poucos meios de que dispomos para que nosso nome permaneça na posteridade. Confesso-lhes que isso para mim não faz muito sentido, pois estarei morto de qualquer jeito. Se num céu ou num inferno, ter meu nome divulgado em futuras gerações parece-me bem pouco relevante. E se completamente morto, de nada me adiantará.
O fato é que seremos esquecidos e talvez só ocasionalmente lembrados, em dias como o de hoje. Eclesiastes 2:16 nos diz em linguagem atualizada:
"Ninguém lembra para sempre dos sábios, como ninguém lembra dos tolos. No futuro todos nós seremos esquecidos. Todos morreremos, tanto os sábios como os tolos."
O livro de Eclesiastes, dizem alguns, foi escrito por alguém que estava com depressão. Não duvido disso. Parece ter sido escrito por alguém que viveu na abundância e descobriu por experiência própria que o prazer não nos garante a felicidade. A visão pessimista dele ecoa nos versos de Ruben Dario, que disse em "LO FATAL":
"Feliz é a árvore que é apenas árvore.
E também a pedra porque ela não tem vida,
Pois não existe dor maior do que estar vivo,
Nem maior desespero do que a vida consciente.
Ser e não ter rumo certo.
E o medo de ter sido e um futuro pavor,
E a certeza espantosa de amanhã estar morto
E sofrer pela vida, pela morte,
Pelo que não sabemos e apenas suspeitamos.
E não saber aonde vamos
Nem de onde viemos...!"
Sempre que medito na mensagem do Eclesiastes e nestes versos, recordo-me do clássico filme Sociedade dos poetas mortos. Em sua primeira aula, o polêmico professor Keating (Robbin Williams) pede que um dos alunos leia a primeira estrofe do poema intitulado PARA AS VIRGENS, QUE APROVEITEM O TEMPO:
Depois, explica que o termo latino equivalente a este sentimento é CARPE DIEM, "aproveite o dia", e pergunta que motivo teria levado o autor (Robert Herrick, 1591 - 1674) a escrever aqueles versos. E por fim explica:
"Porque somos pasto para os vermes, rapazes. Acreditem ou não, todos nesta sala um dia vamos deixar de respirar, vamos ficar frios e morrer."
Em seguida, leva-os para um painel de fotografias das turmas antigas e, enquanto lhes direciona o olhar para certos detalhes, diz:
"Não são muito diferentes de vocês, não é? O mesmo corte de cabelo. Cheios de hormônios, como vocês. Invencíveis, como vocês se sentem. O mundo é a ostra deles. Acreditam estar destinados para grandes coisas, como muitos de vocês. Os olhos deles estão cheios de esperanças, como o de vocês. Eles esperaram até ser tarde demais para mostrarem do que eram capazes? Mas se vocês se aproximarem melhor, nos ouvirão sussurrar o legado deles. Aproximem-se. Escutem. Ouvem? Carpe. Carpe diem. Aproveitem o dia, rapazes. Tornem a vida de vocês extraordinárias."
Vejo grande semelhança entre este filme e a mensagem de Eclesiastes, ao qual o teólogo e pastor René Kivitz chama de "O Livro Mais mal-Humorado da Bíblia".
O objetivo, porém, deste filme e do livro de Salomão não é nos deixar em um baixo astral profundo, mas nos dar motivos para sermos felizes dentro das reais possibilidades que a vida nos oferece. O filme e o livro bíblico querem nos alertar contra o perigo de vivermos mecanicamente, mais preocupados com o TER que com o SER. O "Carpe diem", no Eclesiastes aparece em alguns trechos como, por exemplo, no cap 8:5:
"Portanto aconselho que se desfrute o melhor que a vida pode proporcionar, porquanto debaixo do sol não existe nada mais feliz para o ser humano do que simplesmente: comer, beber e alegrar-se. Essa é a felicidade que nos ajudará a superar os difíceis dias de trabalho durante todo o tempo de vida que Deus nos conceder debaixo do sol!"
Carpe diem (aproveite o dia) não significa trabalhar em excesso, entregar-se ao estresse e sim, usufruir das alegrias disponíveis. Não significa, também, que devamos cair no extremo apontado por Paulo, já presente em sua geração: "Comamos e bebamos que amanhã morreremos.". O eu lírico do Eclesiastes nos diz:
"Então resolvi me divertir e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é ilusão." (Ec. 2:1)
A busca do prazer, ao ultrapassar certos limites, torna-se uma fonte de infelicidade. O Carpe diem, para alguns, infelizmente, se transformou num suicídio a prestações.
Sempre que penso neste filme temo pela possibilidade de efeitos nocivos. Nem todos o entendem adequadamente. Penso no fim trágico de um dos personagens e me pergunto até que ponto essa nova percepção da vida - meio míope, segundo entendo, no caso dele - não foi também responsável por seu suicídio.
O próprio ator que protagonizou tão bem o filme provocou seu próprio fim e a gente se pergunta o quanto da trama que o imortalizou teve influência em sua morte. Talvez nenhuma, claro.
À semelhança do Eclesiastes, atribuído ao rei Salomão, há um poema que dizem ser da autoria de Walt Whitman, que muitos julgam erroneamente ser o poeta referido no filme Sociedade dos Poetas Mortos. intitulado Carpe Diem e provavelmente apócrifo, o poema diz:
O poema difere em muito do estilo do irreverente poeta, tem uma forte pitada de autoajuda e sucesso garantido entre os internautas. Não deixa de ser interessante por isso.
Enquanto divagava sobre estas coisas, coloquei Epitáfio, dos Titãs, no loop:
[...]
Sempre que ouço essa música, emociono-me. Lembro das vezes que a cantei com meus alunos. Era meu modo de dizer-lhes "carpe diem". Fico a pensar em quantos viveram ou têm vivido inadequadamente suas vidas, mas me pergunto: Vale a pena sofrer pelo que não tem mais jeito? Haverá, porventura, alguém na face da Terra que tenha existido de modo perfeito? Como seria uma existência realmente ideal? Não encontro respostas, exceto dogmáticas.
Hoje acordei tarde; teria indevidamente desperdiçado a manhã? Me senti tão bem acordando tarde... após o café, deu-me o desejo de escrever estas coisas, uma crônica, talvez. O dia é propício para que pensemos em nossos queridos que deixaram de existir. Quantas mortes surpreendentes, inesperadíssimas, durante esta pandemia!
Concluo este texto lutando contra a tristeza. Preguiçosamente, ponho um ponto final em minhas ilações, faltando um minuto para o meio-dia. O dia é propício para que bem o aproveitemos, mas como fazê-lo exatamente hoje, com tantas lembranças tristes?
Gilberto Cardoso dos Santos
Santa Cruz, 02.11.2020.
facebook.com/gcarsantos email: gcarsantos@gmail.com
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
domingo, 13 de setembro de 2020
domingo, 30 de agosto de 2020
O ABECÊ DA DOUTORA - A vida de Valdenides num folheto de cordel
O ABECÊ DA DOUTORA - A vida de Valdenides num folheto de cordel
(Autores: Valdenides Cabral e Gilberto Cardoso dos Santos)
A
Aqui fala Valdenides
De sobrenome Cabral
São José do Sabugi
É minha terra natal
Sou filha do Seridó
Residi em Caicó
Distante da capital.
B
Bem verdade é que Deus dá
Somente um verso ao poeta
E ao restante do poema
É o diabo quem completa
Vou contar a minha história
De poesia e vitória
Com o diabo longe meta.
C
Como me tornei poeta
De mim mesma me perdi
E um dia, lá nas cacimbas
Do meu velho pai ouvi
“Tome tento na subida
Pois é íngreme a descida
Faça como a adverti.”
D
Disse: “Evite escorregar
Pois o erro é doloroso
Só Jesus Cristo desceu
E subiu vitorioso
E quando no céu chegou
Feito Deus comemorou
E disse todo manhoso:”
E
“Enquanto estive na Terra
Muita coisa sucedeu
Mas no meio dos enganos
Meu poder prevaleceu
Nem mesmo na minha infância
Pratiquei alguma errância
Por isso lá mando eu!””
F
Foi meu pai, sábio nas coisas
Da Terra e do Céu também
Que queria que eu vivesse
Da maneira que convém
Pra tudo quanto dizia
Orientava ou pedia
Queria ouvir meu amém.
G
Gentil às vezes, queria
Que eu fizesse um juramento
De perder a virgindade
Somente no casamento
Ou, pra não ser rapariga
Nesse mundão duma figa
Que eu entrasse num convento.
H
Honrada eu devia ser
Rezar, pedir oração
E não viver nessa vida
Entregue à corrupção
Pra não virar pecadoraE cair na perdição.
I
Idílico, cantarolava
Versos para me ninar
E me mostrava as princesas
E os príncipes d’além mar:
E eu dormia sonhando
Tanta coisa imaginando
Que não quero nem lembrar.
J
João Evangelista eu via
No Pavão Misterioso
Que levantou voo da Grécia
No seu transporte engenhoso
Princesa da Pedra Fina,
De Magalona e Porcina
Na voz do pai cuidadoso.
L
Lembro que escrevi uns versos
E botei meu pai pra ler
Ele os chamou de coisas
E me mandou refazer
Disse assim: “Faça cordel
Seja à métrica fiel
Sem das rimas esquecer.”
M
Mas não fiquei desgostosa
Ao ver o seu desprazer
Pois conhecia o meu velho
E esse seu jeitão de ser
Na sua simplicidade
Mostrava sinceridade
Jamais tentou me ofender.
N
Não deixei de ser poeta
Apesar da frustração
Poetizando sem rima
E sem metrificação
Meu velho não entendia
Pois cordel não parecia
Eram versos sem noção.
O
O tempo me deu uns príncipes
Do reino da poesia
E princesas da palavra
Gente que me comovia
Gilberto Mendonça Teles
Também Cecília Meireles
Quintana me divertia.
P
Perdi-me, mas me encontrei
Na poética de Alfonsina
De Zila, Diva, Marize
Hilda, Lígia e Marina
Conceição, Adélia Prado
Poetas do meu agrado
Cuja escrita me fascina.
Q
Quando um João, não o Evangelista
Que também era Cabral
Me conduziu às alturas
Com a poética original
Não de cordel, certamente
Cheio de rima aparente
Senti algo especial.
R
Radiante, achei na prosa
A essência da poesia
Cortázar me fez alada
Com as penas da fantasia
Vi-me uma Alice no espelho
E ao conversar com o coelho
Achando-me, me perdia.
S
Somente nas poesias
Ao meu pai não agradei
Graças aos livros que li
Professora me tornei
Íngreme foi a jornada
Mas eu me tornei prendada
E no lar me recatei.
T
Tive o prazer de encontrar-me
Na função de educadora
Asas de livros abertos
Me tornaram pós-doutora
Hoje, já aposentada
Professora e mãe amada
Sinto que fui vencedora.
U
Uns cordéis de carne e osso
Ainda pude fazer
Rimados, metrificados
Como deveriam ser
A minha filha e meu filho
Aos meus olhos trazem brilho
E desejo de viver.
V
Vou aos trancos e barrancos
Com medo de escorregar
Dizendo Madadayô,
Mandando o fim se afastar
Prossigo de fronte erguida
E até o ocaso da vida
Eu quero poetizar.
X
Xucra ao tracejar meus versos
Na brancura do papel
Ainda quero um poema
À rima e à métrica fiel
Repleto de poesia
Que caiba na melodia
Da voz de um bom menestrel.
Z
Zelosa em tudo que faço
Quero ter um ABC
Que agradaria a meu pai
Como o que agora lê
Um resumo da existência
Aninhado na cadência
Completo, de A a Z.
o primeiro verso
e o Diabo responde pelos outros,
vou contar a vocês a minha história,
que por ser tão cheia de vitórias,
dispensei a ajuda do segundo,
para traduzir no meu verso
o dia que me perdi de mim
pra ser poeta.
Um dia, lá longe, nas Cacimbas,
onde se perdeu a minha infância
ouvia meu pai dizer
tome tento na subida
porque o que dói nas errâncias,
neste mundo de Meu Deus,
é a íngreme descida
que só o Grande desceu.
cheio da empáfia dos Deuses,
dizendo todo manhoso
que lá “também mando Eu”.
Meu pai sabendo das coisas
da Terra e do Céu também,
fez-me fazer juramento
que neste mundão de uma figa
não virasse rapariga.
Melhor viver num convento,
rezar, pedir oração,
pra não virar pecadora
nem ser uma sofredora
como as que o mundo já tem.
Cantarolava seu versos
como canção de ninar
E me mostrava as princesas
e os príncipes d’além mar:
o João Evangelista,
do Pavão Misterioso
Princesa da Pedra Fina,
Magalona e Porcina
e eu dormia sonhando
com Castelos e feitiços,
que não quero nem lembrar.
E quando escrevi meus versos
E meu pai chamou de coisas,
Mandou logo refazer: faça cordel
Que é meu gosto.
Se não conhecesse o velho
E o seu jeitão de ser,
Tinha sentido desgosto.
E fui crescendo na vida
Conhecendo outros príncipes
Desses que escrevem livros,
Me deixando dividida:
Bandeira, Quintana, João,
Cabral que nem eu, por certo...
Depois um tal de Gilberto
Que tocou meu coração.
Também conheci princesas:
Lígia, Clarice, Marina,
Hilda, Cecília, Adélia,
Zila, Diva e Marize,
Todas livres, acenando
pros versos que ainda não fiz.








