terça-feira, 7 de novembro de 2017

Marco Haurélio: entrevista sobre cordel, em versos

Entrevistador: Gilberto Cardoso dos Santos
Entrevistado: Marco Haurélio Fernandes

 Xilogravura de Jefferson Campos, especialmente feita para ilustrar a entrevista.

Mais opçõ 
Foi em “Tecendo Linguagens”,
Um livro de português,
Que algo de Marco Haurélio
Vi pela primeira vez:
A capa de um cordel
feito pelo menestrel,
Mas nada do que ele fez.

Antes, alguém me falou
De sua vinda a Natal;
Disseram que ele deu
Aula substancial;
E eu resolvi pesquisar
E por fim entrevistar
Ao grande intelectual.

Com prazer ora apresento
A Marco Haurélio, escritor,
Cordelista premiado,
Profundo pesquisador
Do lirismo nordestino
Que se fez, desde menino,
Do cordel um defensor.

Marco Haurélio, de início,
Fale-nos de seu passado;
Das influencias que teve;
Do lugar em que foi criado;
Dos cordéis que escutou
E como isso o levou
A ser tão requisitado.

MARCO HAURÉLIO:

Nasci no sertão baiano.
O local? Ponta da Serra,
Comunidade rural
Onde o céu encontra a terra
E onde eu escutava histórias,
Baús de muitas memórias
De tempos de paz e guerra.

Quando pequeno, eu ouvia
Juvenal e o Dragão,
O Herói João de Calais,
Rosinha e Sebastião,
A Coragem de um vaqueiro,
O Santo do Juazeiro,
História do Boi Leitão.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Fale-nos de suas obras.
Dos livros que publicou,
Qual que mais lhe dá prazer?
Quantos prêmios já ganhou?
Seu legado é muito rico
Pois pra fazer Velho Chico
A Rede Globo o buscou!

 MARCO HAURÉLIO:

Publiquei quarenta livros,
Entre contos e cordéis,
Mais dezenas de folhetos
Aos velhos mestres fiéis.
Alguns prêmios recebi,
Porém reafirmo aqui:
Meus livros são meus lauréis.

À novela Velho Chico,
Eu servi de consultor,
Criei algumas histórias,
Também fui compositor,
Ao estilo do cordel,
Pra Xangai e Maciel,
Uma dupla de valor.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Dos muitos cordéis que leu
Se tivesse que eleger
Dois ou três entre os demais
Quais iria escolher
Como os mais valiosos?
Que cordelistas famosos
Você recomenda ler?

MARCO HAURÉLIO:

Já li bastante romance,
Porém os de maior brilho
Foram Alonso e Marina,
Do qual não me desvencilho,
Também A Sorte do Amor
Do notável trovador
Manoel d’Almeida Filho.

Cada um lê o que quer
Neste distinto celeiro.
Em minha estante, porém,
Moram Delarme Monteiro,
O grande Leandro Gomes,
Minelvino e outros nomes
Do bom cordel brasileiro.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

O cordel subsistiu
À nossa modernidade
Mas parece hoje passar
Por crise de identidade,
No entanto se fortifica!
Ratifica ou retifica?
Corrija-me, por bondade.

 MARCO HAURÉLIO:

O cordel nunca mudou,
Mesmo com novo suporte,
Pois soube se adaptar,
Mostrando ser muito forte.
E se assim não ocorresse,
Perdia o povo o interesse
E decretava-lhe a morte.
Mais opções

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Há mitos sobre o cordel
Quanto a tamanho e estrutura;
Há quem ache que na capa
Tem que ter xilogravura;
Até tipo de papel
Escolhem para o cordel;
Linguagem, cor e largura.

MARCO HAURÉLIO:

Cordel é sempre cordel,
Isso afirmo com orgulho.
É Capitão do Navio,
Rufino, o Rei do Barulho,
Princesa da Pedra Fina,
A Imperatriz Porcina,
E isso independe do embrulho.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Número mínimo de estrofes
Deve-se estabelecer
Na criação de um cordel?
Quantas deveriam ser?
Os textos de Bráulio Bessa
Que fazem sucesso à beça
Que nome deviam ter?

Como costuma enfrentar
As ideias radicais
Dos que amam o cordel
Porém têm zelo demais?
Tente ao gênero definir;
Busque em versos resumir
Aspectos essenciais.

MARCO HAURÉLIO:

Creio que, para ser bom,
Precisa duma estrutura,
Contar uma boa história,
Com uma régua segura.
Declamado ou no papel,
Ouso dizer que é cordel
Quando for literatura. 

Bráulio Bessa é um performer,
Um sujeito carismático
De uma escola diferente,
Tem apelo midiático,
Conversa com o cordel,
Mas enxergo o seu papel
Num outro leque temático.

Cordel é literatura
Da letra e também da voz,
Tem origem nas sementes
Que o tempo espargiu em nós,
O canto de muitas eras,
O pólen das primaveras,
A bíblia dos meus avós.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

O cordel em sua origem
Devia ser diferente;
Como era na Europa,
- Portugal, principalmente?
Na Espanha ele existiu?
Como foi que evoluiu
Ao que é atualmente?

MARCO HAURÉLIO:

Cada país teve um gênero
Similar ao romanceiro
Depois chamado cordel
No Nordeste brasileiro.
Canções, baladas e lais,
Dessas vozes ancestrais
Nós seguimos o roteiro.

Contudo, em nosso Nordeste,
Houve um diferencial:
O cavaleiro galante
Da gesta medieval
Permutou-se no vaqueiro
Atrás do boi mandingueiro,
Perdido no carrascal.

Há histórias de princesas,
Resquícios do medievo,
Mas também há cangaceiros,
Personagens de relevo;
Sem contar os sabichões:
João Grilo, Cancão, Camões,
Num ciclo alegre e longevo.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Diferencie e aproxime
O cordel da cantoria;
Fale-nos da métrica oral,
Tão condenada hoje em dia
E em versos criativos
Cite alguns autores vivos
Que nos recomendaria.

O cordel e a cantoria
Têm valores pontuais:
Dois gêmeos bivitelinos,
Dois legados ancestrais,
Se aproximam, se repelem,
E, por mais que tagarelem,
São filhos dos mesmos pais.

MARCO HAURÉLIO:

O cordel, em outros tempos,
Se assemelhava em prosódia
À cantoria, porém,
Hoje, com outra custódia,
Se vale mais da elisão,
Sem perder a condição
De moderna rapsódia.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Rima, métrica e oração
Ao cordel servem de guia
Mas o que é oração?
Algum leigo indagaria.
E sem fugir do assunto
Ao pesquisador pergunto:
Marco, o que é  poesia?

MARCO HAURÉLIO:

Em minha concepção,
Oração é o sentido,
A razão da poesia,
O fio por ela tecido.
Poesia é harmonia,
Que foi inventada um dia
Por um deus desconhecido.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Cite uma ou mais estrofes
Ditas por um cantador,
Algum trecho de cordel
De inegável valor
Guardado em seu coração,
Digno da atenção
De nosso amado leitor.

MARCO HAURÉLIO:

“O amor quando se alberga
No peito do rico ou pobre,
Se torna logo um guerreiro
Com capacete de cobre,
E só obedece a honra
Porque a honra é mais nobre.

Se o amor é soberano,
A honra é sua coroa.
Portanto, um amor sem honra
É como um barco sem proa,
É como um rei destronado
No mundo vagando à toa.”

[José Camelo de Melo Resende, Entre o Amor e a Espada]

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Finalizo esta conversa
Conselhos solicitando
Para os que fazem cordel.
Os que estão iniciando
Em quem devem se espelhar
E o que devem evitar
No rumo que estão tomando?

MARCO HAURÉLIO:

Se conselhos posso dar:
Leia! Leia! Leia! Leia!
Leia os novos, leia os clássicos,
Ouça o canto da sereia.
Fuja dos espertalhões,
Caga-regras, mandriões,
Gigolôs da verve alheia.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Após tão boas respostas,
Precisas e prazenteiras,
Dirija aos nossos leitores
As palavras derradeiras;
Diga o que o coração manda,
Faça alguma propaganda
E vamos romper fronteiras.

MARCO HAURÉLIO:

O cordel verdadeiro é garimpado
Nas cavernas do tempo e da memória.
Quem buscar entender a sua história
Beberá nas cacimbas do passado,
Mas também estará conectado
Ao futuro, com estro soberano,
Decifrando de vez o grande arcano
Que sustenta a coluna resistente:
É passado, é porvir e é presente
Nos dez pés de martelo alagoano.

GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS:

Agradeço demais ao entrevistado
Por nos dar de seu tempo e inspiração
Respondendo à sincera indagação
De quem vê no cordel grande legado.
Exagero nenhum foi endossado.
Ser fiel às origens, eis o plano.
Sem jamais renegar o avanço humano,
Pois cordel é uma árvore frondosa
Nas raízes e frutos vigorosa,
Nos dez pés de martelo alagoano.

Agradeço a Jefferson, grande artista
e amante da arte popular,
que assumiu a tarefa de ilustrar
a tão bela e tão útil entrevista;
Ele que é do cordel apologista
E que tem poesia no tutano
não se deixa levar pelo engano
da cultura vazia e destrutiva;
ele quer que o cordel pra sempre viva
Nos dez pés de martelo alagoano.



INSTAGRAM: Jefferson.campos.xg
FACEBOOK: https://www.facebook.com/jefferson.lima.963



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

DEBATE EM TROVAS SOBRE NOSSA SENHORA APARECIDA



Ó Senhora Aparecida,
Atendei nossa esperança,
De nessa data querida,
Dar melhor vida à criança.

Gilberto Cardoso Dos Santos
Gilberto Cardoso Dos Santos:

Quando a dor se faz renhida
E elevamos nossas preces,
Ó Senhora Aparecida,
Por que jamais apareces?
 A Senhora Aparecida 
Vem a nós discretamente 
Assistindo à nossa vida
Bem mais que fisicamente!

Gilberto Cardoso Dos Santos:

Visões espirituais
Somente alguns podem ter.
Há passos fundamentais
Dados a partir do crer.
Com toda vênia devida
Do jeito que a trova avança 
Nossa Santa Aparecida 
É tida à mão da criança!

Gilberto Cardoso Dos Santos:
A razão, a mente culta,
Quer ver na fé um ardil
Mas falta à visão adulta
O que há na fé infantil
Criança sente adiante. 
Adulto para trás sente,
Pois num passado distante
Teve a criança presente.

Gilberto Cardoso Dos Santos:

Órfão, de tudo carente,
Vejo alguém de mão erguida
Buscando na mão da gente
A da mãe Aparecida.
Tem mãe desaparecida
Que deixa o filho a sofrer
Mas outro alguém dá guarida
Mesmo sem mãe dele ser.

Gilberto Cardoso Dos Santos

Ao pai que está nos céus
À mãe que está no altar
Recorremos feitos réus
Alguma mão a buscar.
Buscar dom celestial 
traz a divinal verdade 
elevando nosso astral
da infância à maturidade.

Gilberto Cardoso Dos Santos:

Obra de hábil escultor
Em um rio foi achada.
História de pescador
Foi pela fé comprovada.
Nossa Santa Aparecida,
achada por pescador,
foi com certeza esculpida
por Deus, Nosso Salvador!

Gilberto Cardoso Dos Santos:

Mão Divina, Soberana
À imagem esculpiu
Ou foi mesmo mão humana
Quem tal obra construiu?


Marcos Medeiros:

Se foi mesmo mão de gente
que a imagem fez tão bem feita
recebeu divinamente
uma mensagem perfeita.

Gilberto Cardoso Dos Santos:

O corpo decapitado
Nas malhas, surpreendeu
Logo o resto foi achado
E um novo culto nasceu.
Cabeça e corpo juntados,
sem revelar a ferida,
hoje são bem cultuados
por nossa gente sofrida.

Gilberto Cardoso Dos Santos:

Arte divina ou humana
Tal como as tábuas da lei
Fez dela Mãe Soberana
Para o plebeu e o rei.


Ao ter arte sacrossanta
nas artes tantas já vistas
todo artista se agiganta
ao ver os santos artistas.

Gilberto Cardoso Dos Santos:

Uma simples escultura
Em um rio encontrada
Moldou toda uma cultura
E a fé foi alimentada.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

A DIVINA COMÉDIA DE DANTE - Gilberto Cardoso dos Santos

A DIVINA COMÉDIA DE DANTE - Gilberto Cardoso dos Santos

1.Eis a Divina Comédia imponente, 
meio arredia à compreensão, 
obra importante para o Ocidente.                                  
2. Decerto digna de toda atenção. 
Arrepiante, mas fonte de riso 
fruto de um tempo de superstição.
3. No Purgatório, Inferno e Paraíso 
De tão humana  e trágica odisseia 
vemos alguém que usa seu bom siso 
4. sem retirar viseiras da ideia. 
Ler traduzida traz-nos prejuízo 
mas com certeza farta é a colmeia. 


Gilberto Cardoso dos Santos



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A NADA FÁCIL ARTE DE EDUCAR - Gilberto Cardoso dos Santos


A NADA FÁCIL ARTE DE EDUCAR - Gilberto Cardoso dos Santos


Vi uma entrevista de um famoso pianista, cantor e compositor americano, concedida a Amaury Júnior. 

Foi perguntado ao sexagenário artista a quais pessoas ele agradecia por tão bem sucedida carreira. Sua resposta foi curta, sem titubeios: “Agradeço a minha mãe”.

Ante o aparente espanto do entrevistador, explicou: “Minha mãe me botava pra praticar, praticar, praticar... Eu odiava aquilo, detestava música! Mas ela insistia pra que praticasse ao piano. Se não fosse por ela eu não estaria aqui sendo entrevistado por você, não teríamos o que conversar. Talvez hoje eu trabalhasse numa loja de roupas, seria qualquer outra coisa... Portanto, tudo que sou devo a ela”.

Aquela entrevista, assistida por acaso, deixou-me pensativo sobre a difícil arte de educar. Qual o limite entre o não e o sim, pergunto-me. Até que ponto, devemos considerar os desejos, a felicidade imediata, disposições e indisposições de nossos filhos naquela idade em que o que mais importa é a diversão? Seria o correto, como fez aquela mãe, desagradar no presente para produzir um bem futuro? Teria hoje ele tão reverente sentimento de gratidão (observem que não citou ninguém, além dela!) caso ela o tivesse deixado à vontade e tivesse dito “Está bem, filho, se não quer fazer os exercícios, não tem problema”? 

Creio que através da disciplina – amarga naquele momento - aquela mãe o conduziu à autodisciplina. Consequentemente, esmerou-se na arte de tocar. Entre os momentos áureos de sua carreira, consta o dia em que tocou para o presidente Barack Obama.

Que orgulho daquela genitora ao longo da vida ao ver seu bebezão brilhando nos palcos, hiper feliz e bem sucedido! Será que valeu a pena para aquela mãe ser odiada durante o período em que insistia com o filho? Doía imaginar que em seu íntimo o filho a adjetivava de CHATA, mas aquela mãe diria que SIM, valeu a pena!

Será que valeu a pena sacrificar parte da infância para submeter-se aos desejos da mãe? O pianista responderia SIM, indubitavelmente. Para Rosely Sayão, famosa psicóloga, "Educar pressupõe sempre desagradar à criança".Todavia, não dá para ser taxativo, não há uma receita única. Qual nível de chatice se mostrará benéfico à criança? Em que medida e em que áreas deveríamos ser democráticos? Decerto é inspirador o testemunho do pianista  e com certeza útil a quem mima em excesso. Mas cada ser é único, cada caso é um caso. O que funciona com um pode não dar certo com outro. 

domingo, 6 de agosto de 2017

A ALA VIP DO FESTIVAL (Gilberto Cardoso dos Santos)



A ALA VIP DO FESTIVAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

Construíram um curral vip
Lá em Serra de São Bento
Um bom trabalho de equipe
Que visa o afastamento
Da alta sociedade
Decerto uma novidade
Que trouxe constrangimento.

Visando, sim, o sossego
De quem possui cartão VISA
Ou MASTER, sem muito apego
Que de destaque precisa
A astúcia empresarial
No espaço municipal
Ao status improvisa.

No festival de Inverno
Da bela cidadezinha
Gente de gravata e terno
Que anda dentro da linha
Poderia, sossegada,
Beber bebida importada
Longe de quem nada tinha.

Claro que deve ser chato
Ver um e outro chegando
Pessoas sem fino trato
De você se aproximando
Pra pedir ou pra roubar
Por isso é bom se isolar
Mesmo que caro pagando.

Há quem critique quem fez
Mas há quem ache normal
Neste mundo só têm vez
Os donos do capital.
Ache bom ou ache ruim
Em todo canto é assim
Há divisão social.

Afinal, a insegurança
Leva ao isolamento
Quem muito tem na poupança
Quer melhor atendimento
Um tratamento mais terno
No Festival de Inverno
Lá de Serra de São Bento.

Nada contra ou a favor
Mas muito pelo contrário
Determina-se o valor
Pelo fator monetário
Acontece em todo canto
Não deve causar espanto
A quem só ganha um salário.

Eu se for de fora fico
Porém vou juntar dinheiro
Quero dar uma de rico
Neste lugar prazenteiro
Retirarei da maleta
Uma expressiva gorjeta

Pro garçom hospitaleiro.

sábado, 1 de julho de 2017

PRECE AO DEUS DOS BRASILEIROS - Gilberto Cardoso dos Santos



PRECE AO DEUS DOS BRASILEIROS
(Gilberto Cardoso dos Santos (gcarsantos@gmail.com)


Senhor Deus dos enganados! 
Desperta-nos, Jesus Cristo!
É sonho ou realidade
Tanto horror que temos visto?!
Juízes, feito monarcas
Sugam as riquezas parcas
Da explorada nação
Repulsivas são as ondas
Que nos chegam hediondas
Do mar da corrupção.

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizem que és brasileiro
Temos bancada evangélica
Teu nome está no dinheiro
Com a mão na Bíblia Sagrada
Juram que não farão nada
Contra a Constituição
Mas é tudo hipocrisia
Teu nome lhes propicia
Domínio e ostentação.

Senhor Deus dos castigados
Pelo próprio egoísmo!
Na política demonstramos
Nosso analfabetismo
Tu, que te indignaste
E do templo expulsaste
Mercenários, vendilhões
Varre nossa consciência
Dá-nos luz e mais prudência
Em tempo de eleições!

Senhor dos desenganados
Milhões de vezes traídos!
Com paciência de Jó
Temos sido oprimidos
Em um beco sem saída
A nação desfalecida
Não enfrenta o opressor.
Põe de pé os derrubados
Que acham que estão deitados
Em berço de esplendor!

Santa Cruz, 01/07/2017


terça-feira, 30 de maio de 2017

A ingratidão no banco (dos réus) - Gilberto Cardoso dos Santos



A ingratidão no banco (dos réus)

Vez por outra algo inesperado acontece e quebra nossa rotina, leva-nos a reações inesperadas. Hoje, por exemplo, quando ia saindo do banco – assustado com a onda de violência que assola o país - fui abordado por uma bela mulher que assim me abordou:
- Ei, psiu! 
Como não é todo dia que uma mulher nos dá psiu, retornei solícito para saber o que ela queria.
-Esse celular é seu? - completou ela. E exibiu um aparelho de tamanho médio. Não dava para saber se era top de linha, mas era um celular.
Tão atrativo era o aparelho que, apesar da capa cor-de-rosa, fiquei em dúvida se seria meu ou não. O fato é que é que eu havia deixado o meu em casa tomando carga e isso não me deixava alternativas.
Após pequena pausa e grande relutância, respondi que não era meu. E a jovem senhora, com o celular erguido como quem faria uma self, indagou em voz alta aos demais:
- Alguém aí é dono deste celular?
E nada de o dono ou dona aparecer; alguns menearam a cabeça negativamente e outros responderam com um monossilábico e relutante não. Mas ela insistiu na pergunta e finalmente uma respondeu ao longe:
- É meu!
Enquanto a suposta dona se aproximava, olhei para a mulher, aproximei-me dela e disse:
- Ei, minha senhora, parabéns pelo que fez! Outros não teriam tido essa preocupação que teve ou simplesmente teriam levado o celular “perdido”. Você mostrou claramente que é uma pessoa do bem, honesta e digna de toda admiração.
Ela surpreendeu-se com o elogio e sorriu. Finalmente, uma senhora magra puxando uma criança aproximou-se, estirou a mão e disse: - Sim! É meu!
A mulher entregou o celular, mas a dona não correspondeu às expectativas - pelo menos às minhas. Não expressou qualquer sinal de agradecimento. Afastou-se visivelmente irritada.
Saí do banco insatisfeito com o desfecho da história. A dona do celular saiu também em seguida, com aspecto transtornado, arrastando a filha.
Mesmo sem conhecê-la, perguntei-lhe o óbvio: - A mulher achou seu celular, não foi?
Respondeu ela:
- Sim, era meu. Foi a abestalhada dessa menina que deixou na mesinha. Parece que é doida, não presta atenção no que faz!
Disse isto e olhou enfurecida para a criança que ainda não completara uma década de vida.
Atrevidamente, perguntei-lhe:
- A senhora agradeceu à mulher?
Ela mostrou-se surpresa com a pergunta, deu uma travada nos movimentos faciais e após breve pausa disse-me que não. Tinha ficado tão agitada na hora que nem se lembrou de agradecer. E deu mostras de querer ir embora.
Como aparentava estar cônscia de seu erro, fui injuntivo:
- Volte lá; procure-a e agradeça pelo que ela fez.
- Ela parou, pareceu refletir, acatou minha “ordem” e disse:
- É mesmo, né? Eu vou lá.
Foi, mas parou ao pé da calçada do banco, justificando-se:
- Eu acho que não vou não. Nem prestei atenção nela. Não sei mais quem é.
Insisti, acossado por um zelo moral que não me é peculiar:
- Vá assim mesmo; pergunte aos que estão no banco; procure. É tão raro alguém fazer o que ela fez... Outro simplesmente teria pegado seu celular e levado. Pessoas assim merecem ser elogiadas.
E foi assim que ela, constrangidamente decidida, retornou ao banco com a menininha para agradecer.
Não fiquei para ver o desfecho que induzira. Saí dali imaginando que fizera a coisa certa e meditando na importância que a gratidão tem em nossas vidas, em seu potencial para promover o bem.
As pessoas têm fome de reconhecimento e merecem ser elogiadas principalmente quando procedem com altruísmo. É o mínimo que se pode dar a alguém que procede eticamente: um elogio.
Enquanto prosseguia e meditava nestas coisas, senti-me beliscado por uma dúvida: Por que será que a mulher perguntou justamente a mim se aquele celular de capa cor-de-rosa era meu? Será que achou que eu era gay? Mas afastei esta ideia boba e pus-me a meditar na cena daquela mulher chicoteando verbalmente a menininha; pensei na propensão que temos para a crítica; pomos ênfase nas reprovações e somos omissos na expressão de bons sentimentos.
Demonstrações de gratidão fazem bem não apenas a quem as recebe; quando escancaramos a porta para este sentimento, somos felizes. Louvar, elogiar, agradecer, são verbos que fazem muito bem. Quando buscamos razões para agradecer, vemos o lado otimista das coisas e assim, pensando positivamente, afugentamos sensações negativas. Para nós e para quem louvamos, a felicidade mostra-se mútua.
Quando em casa, resolvi por em prática o que ensinara à mulher. Mal cruzei o portão, elogiei à esposa pela arrumação da casa.
- É muito bom ter uma companheira como você: tão limpa, tão organizada, tão ciosa de suas coisas. Se eu fosse uma visita, ficaria encantado em entrar aqui.
Ela sorriu, mas a la Mona Lisa, meio enigmática.
Tomei banho e fui à mesa, almoçar. Taquei outro elogio:
- My love, é muito bom chegar em casa e encontrar a mesa tão belamente arrumada; uma comida com este visual. Bem-aventurado é o homem que tem uma esposa como você.
A mulher não resistiu:
- Me diga uma coisa, o que foi que você andou aprontando por aí? Por que você está me dizendo isso? Você não é assim! Você está agindo como marido quando apronta alguma coisa lá fora. Desembucha aí, o que você andou aprontando?
Não foi nada fácil convencê-la, e o almoço não transcorreu como planejei. Acabamos em uma leve rusga, mas valeu a pena. Ela estava certa em estranhar, pois aquilo não era comum no dia a dia!
Bem, se você perguntar a ela se isso de fato aconteceu, penso que vá negar e talvez esteja falando a verdade. Portanto, deixe pra lá sua curiosidade e contente-se com a lição. Como disse Esopo, “A gratidão é a virtude das almas nobres. Tentemos, a partir de hoje, seguir o conselho de Masaharu Taniguch: “Expresse gratidão com palavras e atitudes. Sua vida mudará muito de modo positivo.”


Vamos lá! Mãos e palavras à obra.