quarta-feira, 22 de março de 2017

Resenha da Antologia O CORDEL DA NOSSA GENTE (Gilberto Cardoso dos Santos)




Livro: Antologia O CORDEL DA NOSSA GENTE
Organizadores e revisores: Francisco Queiroz, José Acaci e Marcos Medeiros (Membros da ANLiC)
Gênero: Cordel (Antologia)
Edição: Offset Gráfica e Editora - 2017
Páginas: 133

A antologia O CORDEL DA NOSSA GENTE, do qual tive a honra de participar com mais 30 autores, surpreendeu-me positivamente. A ANLiC (Academia Norte-rio-grandense de Literatura de Cordel), caprichou na filtragem que fez de conteúdos e nos aspectos gráficos da obra. A diversidade de temas abordados, os estilos, a maestria de textos que perfeitamente atendem aos requisitos de “rima, métrica e oração”, tem potencial de agradar a todos os amantes do gênero. Trata-se de 31 cordéis, representativos da feição que adquiriu nos dias atuais - escritos por autores preocupados em adaptá-los aos novos tempos sem descuidar dos aspectos essenciais ao gênero, estabelecidos pela tradição. Trata-se, de fato, como sinaliza o titulo, do cordel de nossa gente.
A seguir, uma breve análise de cada um dos poemas que compõem esta obra, de acordo com a ordem em que aparecem no livro:

CARNAVAL EM CORDEL (Adilson Costa – Recife/ PE). Este é o primeiro cordel da antologia. Nele, o autor tem como tema o carnaval em seu estado (PE) e no restante do país. O eu poético, como em passes de magia, parece transitar livremente de uma expressão carnavalesca a outra, nos principais estados brasileiros.  É um cordel que expõe os encantos desta festividade nacional, apresentada sob uma ótica positiva. Nele, o autor não se;  limita a descrever, mas entremeia seu texto com percepções poéticas bastante lúcidas e traça paralelos entre a literatura de cordel e o carnaval.

O CANDIDATO (Agostinho Santos – Caicó/RN). O segundo cordel traz como tema a politicalha brasileira. De forma bem-humorada, o autor apresenta o que ocorre durante as campanhas – as estratégias utilizadas para enganar o eleitor. Aliás, cada estrofe inicia-se com o verso: “Quando é tempo de eleições”.

AS AVENTURAS DE TINA - A borboletinha feliz (Carlos Aires – Bezerros – PE). Trata-se de um cordel com temática voltada para a infância, endereçado às crianças, mas com potencial de despertar o interesse dos adultos, pois nele uma simpática borboletinha nos conta sua história de maneira cativante e nela podemos vislumbrar reflexos de nossa própria vida.

HEPATITE B, UM INIMIGO SILENCIOSO (Cláudia Borges – São Vicente/RN), de modo bem humorado, valendo-se de algumas expressões bem nossas e de uma didática brilhante, a autora busca conscientizar o leitor sobre os riscos que todos corremos quanto à Hepatite B. Trata-se de uma aula, mas de uma aula bem dada, com graça e leveza.

CARIRI DE “A” A “Z” – AS BELEZAS DO CARIRI PARAIBANO (Clotilde Tavares – Campina Grande/PB). Neste cordel, a autora expressa todo carinho que sente pela região onde nasceu; fala de suas origens culturais e familiares. Embora trate de aspectos geográficos e históricos do Cariri, a autora a isto não se limita: sua descrição transita entre o real e o imaginário. Do amor pela paisagem e cultura do Cariri, brota a força poética com que ela retrata lugares e personagens que se mantêm vivos em sua mente.

A CONTADORA DE HISTÓRIA E O CANARINHO CINZENTO – (Dalinha Catunda – Ipueiras/CE). Com habilidade, a poetisa entrelaça duas narrativas, a de um pássaro e a de sua tia, contadora de histórias. Trata-se de um gracioso e comovente cordel, capaz de prender a atenção de crianças e adultos.

SEMEIE BONS ATOS, FAÇA O SEU LUGAR MELHOR (Edcarlos Medeiros – Caicó/RN). Neste cordel, o poeta expõe, através de um sonho, a receita para que a vida em sociedade seja mais harmoniosa. O autor nos faz ver, com magistrais pinceladas poéticas, que nos aproximaremos mais e mais desse ideal à medida que nos fizermos sujeitos dessas transformações. Um cordel ideal para incentivar o exercício da cidadania.

AS AVENTURAS DE TILINO – Iniciação do Atirador de Baladeira (Francisco das Chagas – Pendências/RN). Com admirável habilidade, o autor descreve como se davam e ainda se dão as caçadas de baladeira no interior nordestino, através da narrativa de vida de Tilino, aprendiz do ofício. Trata-se de um cordel cuja leitura envolve o leitor do começo ao fim e o deixa com vontade de que o relato não termine ali.

XICO SANTEIRO (Gélson Pessoa – Santo Antônio do Salto da Onça/RN). Como grande divulgador da cultura popular, o poeta Gélson Pessoa escolheu um excelente nome para ser biografado. Com habilidade, o poeta nos apresenta a vida de um ilustre potiguar, mundialmente conhecido por suas habilidades na arte de esculpir. Sem dúvida, todo nordestino deveria conhecer a história deste potiguar brilhante e Gélson, ao optar por este tema, dá um importante passo que isso aconteça.

TEMPO DE FELIZ NATAL (Geni Milanez – Cerro Corá/RN). Um dos objetivos da literatura de cordel é o de registrar o modo de pensar próprio do povo – outro modo de interpretar o “da nossa gente” no título da obra. A autora, como legítima representante do Nordeste e da cultura cristã, tece belas reflexões a respeito desta que é a principal festa da cristandade.

LEMBRANÇAS (Geraldo Ribeiro Tavares -  Cajazeiras/PB). Neste cordel autobiográfico, o poeta nos conduz em seus devaneios poéticos sem preocupações com datas ou aspectos geográficos. Numa feliz escolha, o que lhe interessa é apresentar a essência do que viveu – sensações perdas e ganhos - e refletir sobre o sentido de sua existência.

A VINGANÇA DO POETA (Gilberto Cardoso dos Santos – Cuité/PB). Este cordel baseia-se em uma experiência tragicômica, vivenciada por mim e pelo poeta-cantador Hélio Crisanto. O leitor ligado às artes dificilmente não se identificará com a situação vivida. Trata-se de um cordel com potencial de provocar risos e necessárias reflexões sobre a (des)valorização do artista.

O FLAUTISTA ENCANTADO NO CONGRESSO NACIONAL – (Hélio Alexandre – Caicó/RN). O conto folclórico O flautista de Hamelin, mundialmente conhecido e tantas vezes reescrito, serve de base para a fábula produzia por Hélio Alexandre. Esta história fantástica, inteligentemente escrita, tem como protagonistas um flautista nordestino, dois repentistas, um vaqueiro aboiador e o famoso cordelista Antônio Francisco - imbuídos da missão de livrar a nação brasileira dos verdadeiros ratos, bem mais nocivos que os de Hamelin. Trata-se de uma crítica política bem tecida em versos que merecem leitura e releitura.

A HISTÓRIA DA ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LITERATURA DE CORDEL – Da ideia à fundação (Hélio Gomes Soares – Brejo de Areia – PB). Feliz foi a escolha feita pelo poeta ao optar por este tema. Ninguém melhor que ele – idealizador da ANLiC – para nos falar sobre esta instituição. Sem meias verdades, o autor nos apresenta os altos e baixos do processo de formação da academia e de sua importância para a cultura popular no Rio Grande do Norte. Trata-se de um relato bem feito, útil a todos que se interessam pelo cordel.

FORRÓ, NORDESTE E SÃO JOÃO (Hélio Pedro – Caicó/RN). Neste cordel, o autor discorre em setilhas bem construídas sobre duas tradições próprias e imbricadas da cultura nordestina. São-nos apresentadas as tradições e descritas crendices próprias das festividades juninas, tão influenciadas pela cultura judaico-cristã.

MOMENTOS DO POETA (Ivaldo Batista – Carpina/PE). Neste cordel, o poeta Ivaldo nos presenteia com divagações poéticas preciosas. De fato, como anunciado no título, cada estrofe representa um momento que, como caco de um mosaico, se junta ao todo e forma um belo quadro.

O POETA E O COQUEIRO, E A PAISAGEM DA SERRA ( Xexéu – Santo Antônio do Salto da Onça/RN). Com a habilidade que lhe é peculiar, o poeta se aventura em sextilhas cujos versos ultrapassam a fronteira das sete sílabas. De forma magistral, expõe suas reminiscências, desenha a paisagem com frases bem escolhidas, eivadas de poesia.

AS AVENTURAS DO REI BARIBÊ – ADAPTAÇÃO DE CONTO DE MALBA TAHAN (Joaquim Furtado – Fortaleza/CE). Fugindo à constatação de que “quem conta um ponto aumenta um ponto”, o autor nos brinda com uma belíssima história, oriunda da cultura árabe. Se em nada altera a narrativa, faz com que o conto ganhe em beleza, pois com precisão o adaptou às regras do cordel.

A ÁRVORE DA VIDA (José Acaci – (Macaíba/RN). Neste cordel duplamente fabuloso, Acaci nos conta a história de um poeta que, posto frente à necessidade de tomar decisões para toda a vida, fez escolha errada das opções que lhe foram oferecidas e colheu frutos amargos. Trata-se de um alerta acerca do perigo de se viver uma vida vazia, em função da aquisição de bens materiais, e de um alerta àqueles que vivem da arte e muitas vezes se deixam levar pela ambição e sacrificam seus dons no altar do mercenarismo.

A VIDA DO AGRICULTOR SEM-TERRA (Josenira Fraga – Guaramiranga/CE). Neste belo cordel, ouvimos a voz de um agricultor que nos fala de suas venturas e desventuras nas mãos de patrões exploradores. Retrata com clareza e encanto a situação do homem do campo, desassistido pela elite governante, vítima de coronéis inescrupulosos.

ÁGUA, - IMPORTÂNCIA, CONSUMO E DESPERDÍCIO (Juarez Araújo – Osasco/SP). Como o título deixa entrever, trata-se de um cordel que visa conscientizar acerca do desperdício de água em uma época em que a natureza tem sido vilipendiada pela ganância e desrespeito do homem aos recursos naturais. Ao longo do cordel, dicas são fornecidas sobre como evitar o uso indevido da água. Trata-se de um apelo poético digno de ocupar espaço nos conteúdos escolares.

SERTÃO MAGIA (Manoel Dantas – Caicó/RN). Neste texto encantador, o autor nos apresenta diferentes imagens e percepções próprias do sertão. As estrofes, aparentemente soltas, vão se juntando e formando um belo quadro, como uma colcha de retalhos bem tecida. Real e imaginário se entrelaçam nas estrofes e o resultado é positivo.

ABC DE EDUARDO CAMPOS (Marciano Medeiros – Santo Antônio/RN). Neste cordel esteticamente bem construído, o poeta Marciano, fiel às raízes do gênero, conta-nos a história de uma importante figura política do Nordeste, de grande impacto nas decisões nacionais e que quase chegou à presidência. Sua trajetória pessoal e política, bem como seu trágico fim, nos são contados com fidelidade em estrofes cuja primeira letra do verso inicial sempre corresponde à sequência do alfabeto.

DONA CORA E SEU BORÉ, UM CASAL FEITO NA FÉ (Marcos Medeiros – Natal/RN) O cordel de Marcos Medeiros traz-nos a bela história de um casamento bem sucedido, fundamentado na fé e na perseverança. Trata-se de um exemplo de união digno de ser propagado, que se contrapõe a esta época de “amores líquidos”, de relações flexíveis e pouco duráveis.

SOBRE SUSTENTABILIDADE (Moreira de Acopiara – Acopiara/CE). Neste admirável poema, o autor expõe a dimensão ética da sustentabilidade. Conforme explica, sustentabilidade abrange todos os aspectos da vida e a reciclagem, tão essencial em nossos dias, deve começar pelo ser humano. Cordel digno de ser levado às escolas de todo o país.

A POLÍTICA BRASILEIRA NO SÉCULO XXI (Rosa Regis – Mamanguape/PB). Trata-se de uma bela dissertação em versos sobre o caos políticos que todos vivenciamos. A autora reflete sobre os escândalos na política nacional e busca conscientizar o (e)leitor acerca da necessidade de escolher bem em quem votar para que de fato possamos ver o Brasil renovado. 

SERTÃO DA POESIA: VIVÊNCIAS E INSPIRAÇÕES DE PATATIVA DO ASSARÉ (Sírlia Lima – Mossoró/RN). Feliz foi a escolha feita pela cordelista - a de versejar sobre a vida de Patativa do Assaré, ícone da cultura popular e poeta-modelo. Em linguagem acessível, são-nos apresentados os principais fatos da vida deste legítimo representante do povo, cuja fama ganhou repercussão internacional.

A PELEJA DA AGULHA E DA LINHA - Um apólogo de Machado de Assis (Stélio Torquato – Fortaleza/CE). Ao transpor para o gênero cordel o famoso apólogo machadiano, o poeta optou por costurar bem os versos – nenhum fica sem rima – e o fez de modo brilhante. Se já era bom lê-lo na prosa afiada de Machado, melhor ainda agora, concatenado em versos bem construídos.

UM CANGUARETAMENSE FELIZ (Tamires Macena – Canguaretama/RN). Em estrofes autobiográficas, o autor mostra-se grato pela passagem de mais um aniversário que parece ocorrer num momento importante para os amantes do futebol – a copa do mundo; nomina amigos que partilham desta alegria, de suas origens etc. Trata-se de um eu poético embriagado pelo gozo de ser o que é: um canguaretamense amado por muitos, que tenta expor em versos tão grande felicidade.

ODE À LEITURA (Thomas Saldanha – Natal/RN). Feito em sextilhas de rima fechada, o poema “Ode à leitura”, tem por objetivo provocar o interesse pelos livros e promover o letramento. Em um país com elevado número de analfabetos funcionais, caracterizado pela superficialidade dos conhecimentos, nada melhor que a leitura como antídoto para a degradação cultural que assola o país. Importantíssimo apelo, portanto.

A LENDA DE PROMETEU NA MITOLOGIA GREGA (Tonha Mota – Taperoá/PB). Através deste poema que narra o mito de Prometeu, a autora transforma em cordel uma lenda grega muito bem avaliada na literatura universal, difundida em várias versões e sempre em pauta nos estudos da Psicanálise. Através dele, temos oportunidade de ver na cultura grega traços em comum com as narrativas judaico-cristãs, como, por exemplo, o relato do dilúvio.

A leitura desta antologia deixou-me como saldo um maior encanto pelo cordel. Trata-se de um gênero literário que evoluiu e atingiu níveis de perfeição no Nordeste, consolidando-se como instrumento de transformação social e fonte de diversão, como se pode constatar ao ler os que aqui foram agrupados. Posto em bibliotecas escolares e nas mãos de professores versáteis, esta obra há de se revelar um excelente recurso paradidático.



Resenhado por Gilberto Cardoso dos Santos, educador, poeta e prosador, formado em Letras, Especialista e Mestre em Literatura e Ensino pela UFRN.


E-mail: gcarsantos@gmail.com Fone 84 999017248




segunda-feira, 20 de março de 2017

NÃO JULGUE PELA APARÊNCIA - Gilberto Cardoso dos Santos


NÃO JULGUE PELA APARÊNCIA - Gilberto Cardoso dos Santos

O homem entrou na loja não muito bem vestido e ninguém lhe deu atenção. Olharam-no ressabiados e foram atender clientes mais promissores. Cansado de esperar, ele saiu e fez uma grande compra na loja vizinha.

Jesus disse há dois mil anos: “Não julgueis pela aparência” e o tempo tem se encarregado de comprovar a sensatez disto. Ele próprio, enquanto aqui esteve, foi vítima diária disto. Apesar de tal ordem ter procedido de tão respeitáveis lábios, poucos atentam para isso. Cristãos costumam negligenciar este preceito.

Quem não já ouviu falar de igrejas  vítimas de golpes? Lágrimas, palavras piedosas ditas com fervor, ternos caros e testemunhos mirabolantes foram suficientes para que alguém fosse visto como enviado de Deus deixando resultados amargos.

Quem não já viu o tratamento diferenciado que se concede aos que se vestem bem em quase toda instituição? Todavia, como nos diz a sabedoria popular, as aparências enganam. Comerciantes já se decepcionaram com gente bem vestida e afeiçoada, e tiveram gratas surpresas com pessoas de quem não esperavam muito.

Numa sociedade apressada e superficial, tão imbuída do espírito capitalista, o ter vale mais que o ser e a aparência vale mais que a essência. Há até quem afirme que a aparência é tudo. De fato, caro leitor, numa sociedade que julga tão superficialmente as pessoas, não devemos nos esquecer de que a primeira impressão é a que fica e ter cuidado com o visual. Todavia, bem fariam  funcionários de bancos e  atendentes de casas comerciais se atentassem para as palavras daquele que tão injustamente foi julgado devido suas origens e aparência - Jesus.

Você que me lê deve ter visto a reportagem sobre a moça velha de visual pouco convidativo (sem “aparência nem formosura” como diria Isaías) submetida às exigências dos famosos caçadores de talentos  que muito se espantaram com  sua voz. Milhões de telespectadores imaginaram-se diante de  grande fiasco, mas ela cantou e encantou. Daqueles lábios anônimos, saíram sons arrebatadores. Como a lendária voz das sereias, a todos ela atraiu  e se tornou, de repente, bela.

“Não julgue o livro pela capa”, dizem os mais afeitos à leitura. Teríamos menos mães solteiras se tal conselho fosse seguido e haveria menos discriminação e calotes. Não vote pela aparência, não dê um sim apressado ao pretendente de visual encantador, não se deixe levar  por preconceitos infundados. Procedendo assim, certamente erraremos menos e viveremos em um mundo bem melhor!

 GILBERTO CARDOSO DOS SANTOS

sábado, 4 de março de 2017

SURPRESAS COM UM BISPO, UMA IGREJA E UM CONCURSO DE POESIAS

Navegando pelos desconhecidos rumos da net, deparei-me com um edital intitulado 1º Concurso de Poesia Poeta Adauto Borges. Cliquei para obter mais detalhes e tive uma surpresa: havia sido organizado pelo departamento de uma igreja, pela Associação Batista de Ação Social. 

Instituição religiosa promovendo concurso de poesia e ainda mais com tema livre (sem proselitismo), pareceu-me coisa raríssima - foi a primeira vez que vi isso. Ao ver o prêmio - dois livros - imaginei: "Hum... eu sabia. Deverão mandar livros de crente para o ganhador! Dentre eles, quem sabe, um que trata da mordomia cristã." Busquei no site o e-mail do organizador, e perguntei sobre o teor dos livros. Esclareceu-me ele: "Não são livros religiosos." 

Fiz-lhe perguntas sobre o homenageado, o Adauto Borges, e tive uma terceira surpresa: tratava-se de um poeta vivo. Muito comum homenagear-se quem já morreu, mas dificilmente se vê um concurso literário com nome de quem ainda vive. Além de prestigiar o nome de um artista vivo, tiveram a ideia de homenagear a um poeta do povo, representante da cultura popular, o que só fez aumentar o meu encanto. Sábias decisões a destes evangélicos, pensei comigo.

A quarta surpresa me estava reservada no nome do organizador: Bispo Maroel. Pensei: "Bispo e com este nome? Não terá sido um erro? Não seria Manoel?" Descobri que não. Perguntei sobre a igreja e tive a quinta surpresa. Trata-se duma instituição que busca levar a sério a prática do amor ao próximo. Maroel enviou-me o seguinte:

Há cerca de 9 (nove) anos desenvolvemos o Projeto Sopão do Amor, no Conjunto José Ronaldo, bairro Campo Limpo, beneficiando cerca de 100 (cem) famílias carentes daquela localidade. Esse trabalho social, distribui, gratuitamente, cerca de 200 (duzentos) litros de sopa e mais de 500 (quinhentos) pães, quinzenalmente, como forma de diminuir o sofrimento e a fome dos mais necessitados que moram naquela localidade.
 Além disso, outras ações sociais foram realizadas, a saber: Projeto Esporte Cidadão, com a realização do Torneio de Futebol Cidadão, no que reuniu quatro equipes, dos bairros Novo Horizonte, Campo Limpo e Feira VI, com cerca de sessenta adolescentes entre 13 e 17 anos, em situação de risco, os quais participaram antes da Palestra de Prevenção às Drogas, pois são moradores de bairros com elevado índice de consumo de drogas.  Projeto de Qualificação Profissional, que ofereceu cursos gratuitos de Telemarketing, Atendente de Farmácia, Operador de Caixa, Secretariado e Assistente Administrativo, preparando as pessoas para o mercado de trabalho, com mais de seiscentas pessoas formadas. Projeto Drogas Não, que proporciona às pessoas da comunidade e aos alunos dos colégios do bairro a prevenção às drogas através de palestras educativas. Temos ainda, na primeira semana de dezembro, o Projeto Natal da Criança Feliz, que realiza corte de cabelo, aferição de pressão arterial, palestra de higiene bucal, além de brincadeiras e da tradicional entrega de brinquedos e presentes para mais de 250 (duzentas e cinquenta) crianças do local. 

Imediatamente lembrei das palavras de Jesus em Mateus 25:31 a 46 e da parábola do Bom Samaritano. Decepcionado como sou a respeito das igrejas que conheço - mais preocupadas em arrecadar dinheiro que em obedecer aos ensinos de Jesus - encantei-me com as ações desta denominação. Foi então que tive a sexta surpresa: 

Descobri que o bispo Maroel  é licenciado em Letras, como eu e atualmente cursa Psicologia. Sem dúvida, um pregador culto a quem deve valer a pena escutar. Num país de tantos pastores (semi) analfabetos que se julgam experts em exegese bíblica e idiomas celestiais, não deixa de ser surpreendente encontrar um versado no idioma vernáculo e em Literatura. Imagino que o texto bíblico, através de suas pregações, ganhe relevo na linguagem comum e resplenda em seus aspectos poéticos milenares. 

Dificilmente alguém tem seis surpresas, uma atrás da outra, principalmente seguidas de uma sétima: Descobri que o Maroel, além de bispo é poeta... e dos bons! 

Meditando sobre as admiráveis atitudes deste líder evangélico, decidi que participaria do concurso, mais pelos fatos acima mencionados que pelo prêmio. Fiz um poema sobre a prática do amor (algo pertinente com as ações da igreja) e no estilo popular em que escreve o poeta Adauto Borges, cordelista. Preparado o poema, resolvi deixá-lo a maturar, pois pretendia enviar algo à altura de um concurso com características tão especiais.  

Anteontem, fui ao site para preencher o formulário e inscrever-me. Tive uma penúltima surpresa: o prazo havia se encerrado! De tanto procrastinar e envolver-me com  exigências do cotidiano, passei da data estipulada. Para não perder tudo e para tornar conhecidos os fatos que tanto me surpreenderam, resolvi escrever este texto. Antes, comuniquei-me com o bispo e solicitei alguns de seus poemas. Vejam que belezas ele me enviou:


Poesia: Resquícios da solidão

A solidão é um vago olhar pelas frestas da alma
A solidão é o resultado cabal da vontade de sumir no horizonte
Desespero silencioso do espírito  na imensa e encantadora vida

Ir ou não ir?
Viver ou morrer?
Existir ou não existir?

Meu eu interior é absorvido pelo vácuo dessas tristes impressões
Deixa-me ! Liberta-me! Preciso fugir desse labirinto: a vida solitária!
O Sol brilha forte lá fora. Há tanto frio e chove aqui dentro.
Atônito, reverbero minha dor. Densas gotas de desesperança...

Um abismo fatal que me impede de ver o amanhã.
Tudo o que vi me fez chorar. Pra quê olhar mais?
Só me faz chorar, chorar...

Reflexos indescritíveis do meu ser humano.
Insolentes versos do meu cotidiano.
Será tudo isso normal? Ou apenas inópia existencial?


Silêncio enamorado

O som que me toma exige silêncio
Imenso prazer que imerge em mim
A alma úmida da luz soluça e descansa
Tacitamente declamo um soneto de dor
Percebo então tua vez a ressoar
Entendo que é hora de despir-me
Lanço fora a capa do medo
Admito o anseio que tanto palpita
Crio coragem do nada e deito-me
Só assim consegui te ouvir.


Última surpresa: Descobri que ele não se auto intitula bispo (prática tão comum nos dias atuais!). Não se trata de bispo Maroel e sim de Pr. Maroel Bispo! O que julguei ser um título eclesiástico era na verdade um sobrenome.

Após tantas surpresas, decorrentes de preconceitos e julgamentos precipitados, pergunto-me que espantos me reserva o futuro acerca desta denominação.




Foto: Maroel Bispo e sua esposa, confirmando a verdade de que por trás de cada grande homem há sempre uma grande mulher. 

Maroel Bispo é "pastor da Igreja Batista da Família em Feira de Santana-BA; escritor, poeta e amante da Vida e da Família."






domingo, 26 de fevereiro de 2017

Sete faces de rapariga - Gilberto Cardoso dos Santos


Sete faces de rapariga
  
Deixando o país de origem
Mariana se deu mal:
No Brasil ela era virgem, 
Rapariga em Portugal.

Feminino de rapaz,
Capaz de provocar briga:
Nossa linguagem mordaz
Pôs veneno em rapariga.

Verbos do amor conjugal
Poucos querem conjugar
Pois a tendência geral
É o verbo raparigar.

Nascida no cabaré
Em um quartinho cresceu
E rapariga hoje é
Como a mãe que a concebeu.

Jesus, vendo o fanatismo
Que à destruição instiga,
Se opôs ao farisaísmo
E salvou a rapariga.

Em um baixo meretrício
Uma comovente cena:
A rapariga em suplício
Clama a Santa Madalena.

Num tempo em que virgindade
Passou ser coisa antiga
O que, na realidade,
Vem hoje a ser rapariga?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DIÁLOGO POÉTICO SOBRE O TEMPO - Gilberto Cardoso e Zé Ferreira

Zé Ferreira Gilberto Cardoso

Gilberto Cardoso é poeta de verve aguçada e, diria, até belicosa... (o que tem me rendido boas reflexões e um tanto de aprendizado) vejam o que ele extraiu do meu status de WhatsApp: - José Ferreira Santos
G.C: Zé Ferreira, consciente, Sabe que a qualquer hora Irá findar a jornada Para o além vai embora "Só tenho o hoje" diz ele Pode ser engano dele Talvez só tenha o agora. Z.F: Meu caro amigo Gilberto Uma coisa lhe asseguro Não tenho medo da morte Ou de um fim prematuro Meu "agora" é afirmado Porque não vivo o passado E nem toco no futuro. G.C: Mas o que é o agora Em um sentido profundo? É o instante presente Produtivo ou infecundo Vivido com ou sem arte Dentro da milésima parte De um passageiro segundo Z.F: Pra mim, meu nobre poeta, O "agora" é consciência, É saber que cada instante Dessa fugaz existência Não deve ser relegado Mas vivido, aproveitado Com extrema competência. G.C: O tempo vem feito rio E prossegue na corrente Não podemos represá-lo A perda é permanente Nesta existência frustrada Talvez não tenhamos nada Nem o instante presente. Z.F: frustra-se na existência Quem vive a passividade Ou quem inverte valores Da própria identidade Um, deixa a vida passar O outro passa a andar Fora da realidade. G.C: A frustração acontece, devido a impermanência das coisas que mais amamos pois tudo perde a essência tudo finda empoeirado nos depósitos do passado e vira reminiscência. Z.F. "As coisas que mais amamos", Se esse amor for verdade, Em nós, transcendem o tempo, A materialidade, Ficam vivas na memória, No curso da nossa história Ganham a perenidade. G.C: Tentamos nos iludir eternizar cada instante mas não podemos fugir da miséria circundante há motivos pra chorar e não pra comemorar num planeta agonizante. Z.F. Um pensamento passivo Amarra os pés da ação Chorar leite derramado Adianta nada não Se há vida, há esperança E a chave da mudança Está hoje em nossa mão. G.C: O tempo é valioso mas é um frágil tesouro é como um balão de festa que acaba num estouro rumo às horas finais somos como animais que seguem pro matadouro. Z.F. Tempo é ruim pra quem perde, Pra quem na lida soçobra Mas pra quem é diligente E que nele se desdobra, Encontra um bom aliado E fica imortalizado Através de cada obra. G.C O fato é que nada temos Pois tudo nos é tirado Gastar tempo lamentando O tempo desperdiçado Pode ser fonte de tédio Pois o que não tem remédio Já está remediado. Z.F É um fato consumado: Todo bem material, É parte subtraída Na caminhada final Daqui não se leva nada, Transcende dessa morada A parte espiritual. G.C Enquanto a gente corre Ou se arrasta o tempo voa Desfrutemos cada instante
Que rapidamente escoa Sem culpa e ansiedade Buscando a felicidade Pouca ou muita, a vida é boa. Z.F Por isso, no meu Status de WhatsApp postei a frase "Só tenho o hoje" E esta em mim fixei Para que ao fim do dia Eu veja com alegria Que nada desperdicei.

G.C.
Observando gatinhos
e cachorrinhos brincando
eles se mordem, se atacam
parecem que estão brigando
nossa belicosidade
teve igual finalidade:
não estávamos arengando.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

POEMA SOBRE O CASARÃO DE PATOS



UM DIA A CASA CAI
(POEMA SOBRE O CASARÃO DE PATOS)

Há um dito nordestino
Que escutei de meu pai
Parece que o destino
Cumprir a sentença vai
Neste marco do passado
Pois se não houver cuidado
Um dia a casa cai.

Se esta casa fosse parte
de um ambiente europeu
virava obra de arte
se transformava em museu
Não ficava desse jeito
Porque lá se tem respeito
Pelo que aconteceu.

Ruínas que emocionam
Fendas que levam ao passado
Com histórias que abonam
que se tenha mais cuidado
É patrimônio local
Nordestino, nacional
Tristemente abandonado

O casarão imponente
não pode se defender
da ação do tempo inclemente
Mas nada estão a fazer
Que os fãs de Lampião
Exijam mais atenção
dos que estão no poder.

Gilberto Cardoso dos Santos - gcarsantos@gmail.com






terça-feira, 22 de novembro de 2016

MEU TERCEIRO LUGAR EM CONCURSO DE POESIA



Graças à dica de uma amiga curitibana, tomei conhecimento deste concurso de poesia promovido pela cidade onde Augusto dos Anjos passou seus últimos anos. Admirável é o trabalho feito pela gestão local para manter vivo o nome deste gênio poético. Senti-me radiante ao ser classificado entre os 20 finalistas e mais ainda quando, na última etapa, me foi concedido o terceiro lugar!

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O AMOR AO PRÓXIMO NO MUNDO VIRTUAL


O AMOR AO PRÓXIMO NO MUNDO VIRTUAL - Gilberto Cardoso dos Santos

Quase todos os cristãos e simpatizantes do cristianismo acreditam que Jesus é o autor do famoso mandamento “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Todavia, milhares de anos antes que Cristo nascesse, esse mandamento já fora mencionado em Levítico 19:18. Ali lemos:

“Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.

Jesus cristo, porém, não repetiu simplesmente o que alguém já se dissera, mas deu nova roupagem a este preceito e elevou-o à categoria de segundo maior mandamento. Diríamos, que no concerne às relações humanas, ele deveria constar como o primeiro. Esta súmula do decálogo é um resumo de mais da metade dos dez mandamentos. 

Amar ao próximo como a si mesmo é um dos camelos referidos por Cristo (Mateus 23:24), engolido todos os dias enquanto estamos presos às redes sociais, coando mosquitos ou espalhando pernilongos infectados.  O ocidente cristianizado e altamente beneficiado pelos avanços tecnológicos, tem a bíblia ao alcance do dedo onde quer que esteja; pode ler, grifar, colorir e divulgar os ditos de Jesus. Pode, se quiser, escutá-lo na voz de Cid Moreira. No entanto, apesar das advertências do Mestre, tão acessíveis hoje, continua insensível à trave no próprio olho, preocupado com os argueiros alheios.  

As redes sociais ampliaram as possibilidades de transgressão ao magno preceito sem o qual o cristianismo vira uma piada. Quase ninguém para pra pensar nos males que poderá causar com os comentários e divulgações que faz. 

O grande escritor Umberto Eco disse algo que, à primeira vista, choca quem o lê, principalmente àqueles que são vítimas do chamado analfabetismo funcional. Eis o que o autor de “O nome da Rosa”:
“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. [...] O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”.

Quando amenizamos o impacto negativo do termo “imbecis” e nos conscientizamos de que o escritor não está a nos fazer um ataque pessoal, mas a tratar duma realidade difícil de negar, somos capazes de entender melhor suas palavras e aplica-las adequadamente ao presente contexto. 

O “causar dano à coletividade” ganhou, sem dúvidas, infinitas possibilidades com o advento das mídias sociais. As oficinas do diabo, ou mentes desocupadas, têm agora um amplo espaço para forjar o que não presta.

Outro termo usado por Umberto Eco que faz eco em nossa asnice emocional é o vocábulo “idiota”. Quando vamos ao dicionário e descobrimos que significa “carente de discernimento, falto de inteligência” trazemos suavidade à suposta ofensa. Ou seja, idiota da “aldeia” (antes local, hoje global) é aquele que não reflete bem antes de postar algo; às vezes, trata-se de um fiel membro de igreja que deveria consultar a Deus antes de enviar postagens suas ou alheias. Bastaria, por alguns segundos, perguntar-se: Se fosse comigo, com algum amigo ou familiar eu faria isto? Como procederia se este, a quem denigro, votasse no mesmo partido que eu, ou fosse de meu íntimo convívio? Como me sentiria se acaso eu fizesse alguma bobagem “dessas” e fizessem o mesmo com minha imagem ou palavras? Porventura não me sentiria eternamente grato para com aqueles que de mim tivessem misericórdia?

Todavia, muitos se dispõem a divulgar coisas nocivas, como se com isso fizessem um bem à coletividade e estivessem a zelar pela moral pública. Muitas vezes, porém, dão um zoom em algo que de tão pequeno passaria despercebido – os mosquitos referidos por Cristo -, ou criam factoides destituídos de qualquer solidez. 

Como fica a situação do suposto culpado cuja inocência vem a ser provada? Será que os mesmos que divulgaram seu crime terão a preocupação de desfazer o malfeito? Digamos que tentem retratar-se de alguma forma; será que buscando reparar o dano feito ao semelhante conseguiriam apagar a influência negativa que tiveram? Obviamente que não! Quem não quiser, pois, ser merecidamente adjetivado como imbecil ou idiota deve ponderar bem o que posta e o que diz.

Uma das coisas que tornam a Bíblia digna de ser lida é a doutrina da misericórdia. Jesus, segundo os evangelhos, era extremamente misericordioso. Sempre lançou um olhar bondoso e acolhedor às prostitutas e demais pecadores de seu tempo. Não conseguimos imaginá-lo compartilhando um vídeo da adúltera Maria Madalena no Facebook ou Instagram. Jamais escreveria nos comentários: “Que vergonha!”

Vivemos numa sociedade que foi condicionada a crer que haverá um severo dia de juízo. Os que levam tal crença a sério deveriam ponderar bem suas peripécias virtuais. Um escritor bíblico nos diz: 
Porque o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia; a misericórdia triunfa sobre o juízo. (Tiago: 2:13)

Exercer a misericórdia, em essência, significa amar o próximo a si mesmo. O “Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam”, enfatizado por Jesus, é outra maneira de dizer “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

O modo certo de lidar com delitos pessoais de gente como a gente, sujeita às mesmas paixões que nós, não é divulgando “cenas do crime” nos espaços virtuais. Há trâmites legais a serem seguidos e gente que estudou e ganha para tratar destas questões. Deixemos o caso com as partes envolvidas.  Não somos chamados a ser juízes, a emitir sentenças severas, mas a colocar-nos no lugar de quem errou e exercer misericórdia - a amar nosso próximo como a nós mesmos. 

Uma maneira de nos imunizarmos contra o vírus da idiotice é dar ouvidos às palavras dos grandes mestres como Jesus, Buda e os bons filósofos. Confúcio, por exemplo, ensina que devemos ser exigentes conosco mesmos e benevolentes com os demais.

Já imaginaram que céu virtual nós teríamos caso seguíssemos estes conselhos? Com certeza a felicidade estampada na linha do tempo seria bem mais real. Jamais criaríamos infernos para os outros. As “redes”, em cujas malhas muitos hoje se acham presos e que servem de armadilhas para muitos, se transformariam em lugares de repouso, berços de poesia, embaladas ao som de vozes nascidas em consciências tranquilas.

Jamais esqueçamos quando estivermos a navegar que estamos todos no mesmo barco; que todos somos irmãos, queiramos ou não e que, mesmo quando profundamente indignos, ainda somos dignos de misericórdia.

Um abraço fraterno a todos os que me leem.


Santa Cruz, 21.11.2016




sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MEU TÍTULO DE MESTRE - Gilberto Cardoso dos Santos

MEU TÍTULO DE MESTRE

“Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la? E achando-a, a põe sobre os seus ombros, jubiloso; E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.” Lucas 15:4-6

Hoje recebi o titulo de mestre. Está sendo um dia memorável em minha vida simplória. Alguns amigos sugeriram que escrevesse algo a respeito. Mas o que dizer quando somos dominados por sentimentos que nos parecem indizíveis? Sentimos ânsia de verbaliza-los, dar-lhes corpo, mas nos sentimos inábeis.
Estou, naturalmente, muito feliz. Sinto-me como aquele personagem bíblico do livro de Isaías que viu o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficou satisfeito (Isaías 53:10-11). Nadei, nadei, vi nadadeiras escuras ao longo do trajeto, mas atravessei mares dantes não navegados, resisti ao canto da sereia do comodismo e não morri na beira da praia, apesar das ondas contrárias. 
Compareci ao momento de apresentação do TCC como ovelha levada ao matadouro. Todavia, para minha grata surpresa, o trabalho foi bem aceito, apesar das necessárias sugestões de acréscimos, correções e supressões. Alegrei-me, em especial, pelas congratulações que recebi dos mestrandos e de outros educadores presentes à sessão. Os membros da banca, com suas incisões pertinentes secundadas por bálsamos de elogios, muito contribuíram para a alegria do momento. 
Concluir um mestrado é como chegar ao topo de uma elevada montanha após cansativa e perigosa escalada. Todavia, compensa chegar ali e respirar o ar próprio das altitudes, é impagável poder observar a paisagem ao redor a partir de um novo ângulo. Quando ali chegamos, temos noção do quanto nos elevamos, mas vislumbramos que há montanhas mais altas diante das quais temos a sensação de termos escalado um insignificante monte.
A alegria do momento é passageira, pois é necessário descer dali, voltar à vida comum da planície, encarar a íngreme escala descendente; ainda que, no calor do momento, nos sintamos como Zaratustra, julgando que voltaremos ao vilarejo, imbuídos duma missão especial. Mas demoremo-nos ainda um pouco no alto. Que o sol se detenha por um instante, como aconteceu sob as ordens de Josué.
As palavras que ora escrevo representam um convite à alegria, à minha alegria. À semelhança do homem da parábola posta na epígrafe, ganhei algo mui precioso e quero que comemorem comigo.
O personagem da estória bíblica encontrou uma ovelha preciosa e eu também achei a minha ovelha. Explico.
Alberto Caieiro, uma das vozes de Fernando Pessoa, diz:
“Sou um guardador de rebanhos, O rebanho é os meus pensamentos”.
Entregue aos devaneios poéticos, tinha, antes de dar início a este mestrado um rebanho solto, desordenado; pensamentos que, à semelhança do ocorre com todos, circulavam a esmo na memória, entrando e saindo dos prados do inconsciente. Para fazer este mestrado, tive que ordenar minhas ovelhas, fazê-las submissas, encurralá-las tosquiá-las, enfileira-las de modo a torna-las satisfatórias  às exigências acadêmicas; ovelhas novas precisaram ser geradas e outras necessitaram ser sacrificadas. Obtive, finalmente, a ovelha por excelência, a minha Dolly, e quero que todos os que por mim torceram; todos que de um modo ou de outro me auxiliaram nesta caminhada; todos aqueles que, desprovidos de sentimentos de inveja ou de censura conseguem felicitar-se com êxitos alheios; a estes altruístas, digo: rejubilem-se comigo, pois achei a minha ovelha por excelência, vivamos este momento marcante em minha breve passagem por este mundo.
Um pouco antes de seguir para a defesa do TCC, vi-me inspirado a escrever o seguinte poema:
“A ninguém chameis de mestre”
Disse o Sábio Pregador
Se até os que têm mestrado
Têm limitado valor
Imagine o advogado
Médico ou juiz exaltado
Que é chamado de doutor!

Oxalá o vírus do orgulho, da tola exaltação não venham a estragar o bom funcionamento do Windows Xp de minha mente. Que eu jamais me esqueça da máxima de Emerson, o filósofo, que disse: “Cada pessoa que encontro é superior em algum aspecto sob o qual eu aprendo algo.” 

Espero continuar a poder enxergar  os dons de cada um que, quando bem utilizados e exercitados, os transformam em mestres dignos de respeito e admiração; a ler nos traços em braile da mão de um agricultor os títulos que a vida lhe concedeu.


Obrigado a todos – amáveis colegas de mestrado, diletos amigos próximos e distantes, imprescindíveis familiares, idolatrados professores - que sempre torceram pelo meu sucesso!

Drª Valdenides, orientadora, Dr. Sebastião e Dr. Manoel Freire 
 

Na plateia, Luma: poetisa, atriz e mestra.






Hélio Crisanto, um dos objetos de estudo do meu TCC, declamando.





Assinatura do certificado de mestre.

Santa Cruz, 18.11.2016

RECADO AOS MESTRES E DOUTORES