quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O VEEMENTE DISCURSO DE UM MUDO - Gilberto Cardoso dos Santos



Ele discursa com gosto
Fala com convicção
Tem, além da voz potente,
Boa gesticulação
A gente vê claramente
Que o discurso veemente
Procede do coração.

Promete sem falsidade
Isso a gente pode ver
E eu sei que são coisas boas
O que está a dizer
A gente lê no olhar
Que ele não quer enganar
Promete o que vai fazer!

Fala com severidade
Contra a corrupção
Não vai haver bandidagem
Durante a sua gestão
Quem o ouve nada entende
Mas no fundo compreende
Ser boa a sua intenção.

Ele se espreme exprimindo
Seu amor pela cidade
É coerente o que diz
Com a intencionalidade
Não é só verborragia
O tom de voz denuncia
Que ele disse a verdade.

Por quantos belos discursos
Nós já fomos enganados?
É hora de dar um basta
Em discursos planejados
Pra eleger a escória
Não é de boa oratória
Que estamos necessitados.

Qual o político que não muda
Mesmo quando diz “não mudo”?
Na campanha é sorridente
Quando ganha é carrancudo
Na política é falastrão
Prometedor, enrolão
Depois esquece de tudo.

Talvez o mudo não mude
Faça o que está a dizer
A gente não sabe agora
O que pretende fazer
Falhou em sua expressão
Mas quando entrar em ação

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

SOU OU NÃO CHARLIE HEBDO? - Gilberto Cardoso dos Santos


Vendo as imagens chocantes do ataque à redação do jornal francês em 07.01.2015 e o slogan que quase de imediato foi mundialmente divulgado, pensei em ser Charlie Hebdo. Depois, li um texto partilhado por Leonardo Boff, não de sua autoria, intitulado “Eu não sou Charlie Hebdo”, com algumas ponderações interessantes. Resolvi aprofundar-me no tema, ter outras visões sobre o problema do terrorismo. Assisti um documentário sobre os ataques do Boko Haram, um grupo similar ao Al Qaeda e ao Isis que, apenas no primeiro mês de 2015 matou cerca de três mil nigerianos. A partir daí, comecei a ver mais claramente um outro lado. Vi que a charge, cujo significado é “carga” (devido o exagero que se faz nos traços), pode ter um peso muito grande na história, nem sempre positivo. No vídeo citado, Haruna Mshella, presidente de conselho paroquial, explica a origem do atual conflito vivido por sua gente:

“Tudo começou com aquelas caricaturas da Dinamarca, feitas por alguém que não conhecemos, nem sequer é cristão. De qualquer modo, em seguida começaram a vir a igrejas aqui e a assassinar os sacerdotes.”

Lembrei-me deste precedente na história das charges. O caricaturista dinamarquês, indignado com tantos entraves trazidos à democracia pelo radicalismo islâmico, expressou sua revolta através de charges do profeta Maomé. Isso provocou uma imensa revolta nos países islâmicos e uma reviravolta rotina de sua família. Teve que mudar-se para endereço desconhecido e até hoje não tem pleno sossego. Na verdade, correu um risco calculado. Conseguiu manter-se ileso até hoje, mas o que pensar sobre os incêndios em embaixadas e mais de 200 mortes consequentes? Caso as palavras de Haruna Mshella correspondam aos fatos, não devería ele também sentir-se culpado ainda que em parte pelo que ora ocorre na Nigéria? No caso do atentado francês, pessoas que nada tinham a ver também pagaram com a vida. Um dos cartunistas assassinados na França, já idoso, disse com louvável coragem estar numa fase em que já não temia represálias. Pergunto-me se ele não deveria ter levado em conta o risco que outros também correriam. Fico imaginando quantos que nunca leram esse jornal ou viram estas charges sofreram por causa delas. 

Mas se eu fosse um artista, consciente de que minha arte poderia resultar na morte ou sofrimento de inocentes, ponderaria muito antes de expressá-la. Não conheço todas as charges publicadas pelo famoso jornal e imagino que elas contenham uma mensagem que, em linhas gerais, não deva ser suprimida. Todavia, como falar ao entendimento de alguém que está cego pelo fanatismo e que, covardemente, poderá atacar a inocentes que pouco ou nada têm a ver? Confrontá-lo do modo mais agressivo, como num ato insano de vingança não me parece ser a melhor saída. Tenho o direito de atrever-me a dizer-lhe algumas verdades, buscar impor limites à sua intolerância, exigir meus direitos, mas deverei ponderar como fazê-lo, pois estou a tratar com gente movida por paixões obscuras, capaz de qualquer coisa. Uma pergunta perfeitamente cabível, norteadora da liberdade de expressão nesse caso deveria ser: O que fazer para limitar meus ataques à ala radical do Islã sem ofender aos moderados? Tem como batalhar contra tais inimigos sem multiplicá-los? Vi algumas caricaturas inteligentes, de imediato aprovadas, publicadas naquele jornal. Mas vi outras pouco ou nada criativas, puramente ofensivas. Deu-me a impressão que na falta de inspiração buscavam compensá-la com agressões fortes, ousadas, mais parecidas com demonstrações de coragem insana que de humor propriamente dito. Em referência ao atentado, o papa Francisco disse que a liberdade de expressão tem limites e que se alguém insultasse sua mãe deveria esperar um soco como resposta. Exemplo tão pessoal leva-nos a refletir sobre a necessidade que temos de levar em conta os sentimentos e a mentalidade de nossos interlocutores, principalmente quando o que lhes dizemos soa desagradável. Inteligência emocional, tato e empatia são fundamentais num mundo globalizado, de equilíbrio tão frágil.

Aplaudo a ferrenha defesa que a França, berço do Iluminismo, faz da liberdade de expressão e acho que só por isso eu deveria ser Charlie Hebdo. Mas quando vejo esse mesmo país condenar o comediante Dieudonné pelo fato dele se valer dos mesmos direitos ora defendidos, fica a dúvida se estão fazendo um uso coerente da liberdade de expressão. Em seus shows de stand up comedy, ele agride valores caros à cultura francesa. Apesar das ameaças, prejuízos e aprisionamentos parece cada vez mais disposto a atacar o que ele considera um uso hipócrita do direito de expressão. Graças a essa oposição, parece-me, é um monstro que está a crescer. Não será mais mais uma estratégia errada de combate ao terrorismo, a somar-se às muitas que França tem cometido ao longo dos anos? O futuro dirá.

Estarrecido com o assassinato de quatro importantes chargistas (e de mais 13 pessoas que só se tornaram objeto de comoção pela associação com os famosos), o mundo se mobilizou duma maneira que entrará para a história. Dias antes, em 16 de dezembro de 2014, terroristas muçulmanos do Talibã invadiram uma escola no Paquistão, deixaram 141 mortos e 131 feridos, a maioria crianças, mas na França e no mundo quase não houve alarde. Impressiona-nos como algo tão grave foi e continua sendo tão pouco divulgado. Não houve um ajuntamento de estadistas para protestar nem multidões nas ruas para dizer "nós somos os 3 mil massacrados da Nigéria, somos as crianças mortas na escola paquistanesa". Isso prova o quanto os seres humanos continuam a valer pelo que têm, pela posição que ocupam, pela localização geográfica em que vivem. A mensagem que a Europa e o resto do mundo deixam escapar é que não importa muito aquilo que os radicais estão fazendo em outras partes do globo, desde que os deixem em paz. Quanto à decisão da imprensa mundial em dar ampla cobertura ao acontecimento, tem a ver também com interesses corporativistas. Defender o Charlie Hebdo é defender-se. Mostrar a força do Quarto Poder e desestimular atentados aos  formadores de opinião são as grandes razões.


Por fim,  lembro-me do efeito positivo que as charges dinamarquesas tiveram na vida de vários muçulmanos. A ex-muçulmana Wafa Sultan, por exemplo, despertou a partir daquela caricatura. Ferrenha defensora dos ataques ao fanatismo através de caricaturas e outras manifestações artísticas, ela diz que o Islamismo precisa se abrir à critica assim como ocorreu com o Judaísmo e com o Cristianismo. Só assim ele evoluirá, diz ela. Daí minha vontade de ser Charlie Hebdo. Por estes esses e outros motivos, bate-me a dúvida se devo ou não vestir a camisa que parece ter uniformizado o planeta. O personagem Hamlet, em sua crise existencial, expôs o dilema numa frase hoje clássica. Também vivo uma crise de identidade diante de tantas cobranças e discussões em torno desse atentado. Ser ou não ser Charlie Hebdo, eis a questão. Mas estou aberto a críticas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

VEJA COM ATENÇÃO O FILME "HARODIM, Olhe mais perto" - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando um amigo e conterrâneo em cujo bom gosto confio me falou da surpresa que teve com o filme Harodim, recorri ao Google em busca duma sinopse. Pelo que li, deu vontade de nem iniciar o filme, tão fantasiosa me pareceu a trama. Mas comecei assim mesmo, a contragosto, não sem antes postar um comentário negativo, precipitado, sobre as conclusões a que imaginei iria chegar. Livro julgado pela capa.

Até então, minhas convicções acerca do 11 de setembro estavam tão firmes quanto as Torres Gêmeas antes do ataque. Isso tinha uma razão de ser: firmado nos relatos oficiais a respeito do ocorrido, e em meu próprio testemunho dos fatos (assisti, ao vivo, no instante em que os aviões bateram nas torres) sempre recusei ver qualquer coisa que cheirasse a teoria da conspiração sobre o assunto.

Trata-se de um filme parado, calmo, que agita tudo dentro de você. Como disse alguém, é algo bem diferente dos que costuma assistir.

Diversas vezes pausei o filme para rever alguma fala anterior, ou para pesquisar na net se o que me surpreendera tinha algum fundamento histórico.

Enquanto o assistia, lembrei-me da trilogia Matrix e senti-me dentro dela, tão atônito quanto seu personagem Neo. Lembrei também da série Lost, onde os fatos e personagens nunca são o que parecem ser. Vi-me dentro de um sistema fantasioso, manipulado, perdido na ilha da série, sem entender quase nada. A caverna de Platão nunca me foi tão real. Mas não concluam que comprei inteiramente a ideia do filme. Antes, me vejam como quem acordou de um pesadelo, sabe que despertou, mas o coração continua a bater forte como se fosse real. Quando uma película provoca tais efeitos, é sinal de que cumpriu bem o seu papel. Ao menos para mim e meu amigo.

Como fiquei após o filme? Vi-me repetindo a frase de Sócrates: “Sei que de nada sei”. Certamente não convencido de tudo que vi, mas duvidoso do que sabia ao ponto de querer aprofundar-me no tema vendo documentários antes preconceituosamente rejeitados. Tenho certeza que minhas certezas não acabarão no pó como o World Trade Center, mas sinto que há muito a ser revisto e devidamente compreendido. 
Veja o filme completo no link abaixo:



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O 11 DE SETEMBRO DOS FRANCESES - Gilberto Cardoso dos Santos


A charge é a maneira mais suave
e simples que se tem de protestar
Um modo inteligente de mostrar
Aquilo que nos serve de entrave
A crise que se vive é muito grave
Ataques foram feitos várias vezes
Fanáticos sem humor e descorteses
em nome de Alá e seu Mensageiro
fizeram deste sete de janeiro
O 11 de setembro dos franceses

A nossa liberdade de expressão
profundamente foi ameaçada
em uma ação covarde, inesperada


se fez sangue jorrar na redação
tentava-se calar a oposição
a algo que ameaça à humanidade
em nome da justiça e da verdade
Devemos todos nós a voz erguer
Se o mundo temeroso se encolher
podemos dar adeus à liberdade.



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

INSTANTE ÚNICO - Gilberto Cardoso dos Santos

    Foto tirada em 03.01.2015


O dia teve suas frustrações
Falta de chuva, clima muito quente
Vim à tardinha ver o sol poente
No açude seco, sobre seus torrões
Chegava a noite, vi as mutações
de sombra as nuvens já se revestindo
Belas imagens foram construindo
Na tela enorme do cine celeste
E eu me orgulhei de estar no Nordeste
Pra contemplar esse cenário lindo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

BELEZA NA EXCASSEZ -Gilberto Cardoso dos Santos

Foto tirada por Maria Andrade no Açude Santa  Rita

No açude devastado
Nutrido avança o capim
Vai transformando em jardim
O chão antes alagado
Alvas garças pequeninas
Quais damas de pernas finas
Se movem com altivez
Surpreende a natureza
Com abundância de beleza
No meio da escassez.

(Gilberto Cardoso dos Santos)

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

DEZ ANOS SEM DINAMÉRICO - Gilberto Cardoso dos Santos


[...]

Em 31 de dezembro 
Na cidade de Campina 
No ano 2004 
A depressão assassina 
Levou de forma abjeta 
A esse grande poeta 
De maneira repentina. 

Dino cansou dos embates 
No mar de sua existência 
Se jogou no Açude Velho 
Num instante de demência 
A profunda depressão 
Turvou a sua visão 
Alterou-lhe a consciência.

Tinha 46 anos 
Quando a tragédia se deu 
Na cidade de Cuité 
Logo a notícia correu 
Muita gente lamentou 
Quando se noticiou: 
Dinamérico morreu! 

E assim perdemos um vate 
Digno de fulgurar 
Na história paraibana 
Por seu trabalho sem par 
E grande amor à cultura 
decerto em data futura 
Irá se agigantar.

Dino permanece vivo 
Através de seus escritos 
Uma sala em sua honra 
Contém seus textos e ditos 
Que o cuiteense aproveite 
Se aprofunde, se deleite 
Com seus poemas bonitos. 

Até um filme se fez 
Sobre o vate falecido 
Dinamérico, o Poeta 
Foi o título escolhido 
Para o media metragem 
Merecida homenagem 
Feita ao poeta querido.

Um chapéu paira nas águas
Do filme de sua vida
Chapéu que abrigou poemas
Inspiração incontida
Ao partir o menestrel
Retirou o seu chapéu
Em sinal de despedida.


ASSISTA AO DOCUMENTÁRIO SOBRE SUA VIDA, DIVIDIDO EM 3 PARTES:









sábado, 27 de dezembro de 2014

UM QUADRO QUE NÃO VAI SE REPETIR - Gilberto Cardoso dos Santos

Foto tirada por  minha esposa de dentro da parte seca do açude Santa Rita, em 27.12.2014

O acaso fez no ocaso
Um quadro belo e fugaz
Todo dia ele faz
Imagens de breve prazo
Raios vindos do Parnaso
Fazem estrofes fluir
Mas tudo está a sumir
Vejo se desvanecer
Um tão belo entardecer
Que não vai se repetir.

Tudo na vida é assim
Totalmente passageiro
Irrepetível roteiro
Do começo até o fim
O que é caro pra mim
Um dia vai se esvair
A tristeza tem que vir
Para anuviar o ser
Como este entardecer
Que não vai se repetir

Uma profusão de cores
Convidativa ao olhar
Capaz de amenizar
Melancolias e dores
Em meio a tais esplendores
Dá vontade de sorrir
É preciso usufruir
Deste instante de prazer
Único, deste entardecer

Que não vai se repetir.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O INSULTO DE NATAL (Gilberto Cardoso dos Santos)



 O INSULTO DE NATAL (Gilberto Cardoso dos Santos)

Disseram que esse indulto
É um ato de clemência
Feito pela presidência
Mas considero um insulto
Pois de nós não é oculto
Que o sistema prisional
A nível nacional
Não recupera ninguém
Por isso não nos convém
O Indulto de Natal

Sai ladrão, estuprador
Assaltante e assassino
Quem alicia menino
Também recebe o favor
Cada ano é esse horror
E o povo é quem se dá mal
Sempre há um marginal
Que a prisão não redime
E pratica mais um crime
no Indulto de Natal.

Durante a festividade
O cidadão se amedronta
Pois sempre um bandido apronta
Na sua comunidade
se não há tranquilidade
em um período normal
essa data especial
o grande perigo traz
de topar com Barrabás
no Indulto de Natal.

Sei que os Direitos Humanos
Estão por trás do decreto
Que só se mostra incorreto
Devido tantos enganos
Se houvesse melhores planos
Pensando no social
Se a prisão, afinal
De fato recuperasse
Talvez o povo aceitasse
O Indulto de Natal

Para alguns é moleza
Na prisão permanecer
E sai pensando em fazer
Mais alguma safadeza
Tal lei provoca tristeza
No pobre policial
Que além de ganhar mal
Enfrenta muitos dilemas
E vê crescer seus problemas
No Indulto de Natal.

Há o indulto natalino
E a saída temporária:
Liberdade carcerária
Por um tempo pequenino
Contra isso eu opino
Mas a medida é legal
O efeito colateral
Sobra pra população
Que sofre com o Saidão
E o Indulto de Natal.

No Saidão, certamente
Poucos  desejam voltar
Para um terrível lugar
Tão apinhado de gente
No entanto o poder vigente
Com base em lei federal
A Pilatos faz igual
Solta a quem não deveria
E mais um problema cria
No Indulto de Natal

Eu não sou contra os direitos
Mas se o país é sério
Precisa usar um critério
Que provoque bons efeitos
Combater os preconceitos
É pra nós essencial
No seu estágio atual
Esta lei está errada
E devia ser chamada
De Insulto de Natal.




30% DOS PRESOS, BENEFICIADOS PELO SAIDÃO DE NATAL, NÃO VOLTARAM PARA OS PRESÍDIOS, DADOS DO ANO PASSADO



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A MAIOR NECESSIDADE DO NATAL - Gilberto Cardoso dos Santos



“[...] quando eu estava lendo o Sermão da Montanha e vendo os altos padrões de Jesus Cristo, os grandes valores e sem os quais já teríamos todos nos matado, quando eu li “Ame seu inimigo” aquilo fez perfeito sentido para mim.” – Mossab Hassan, ex-muçulmano, filho de um dos líderes do Hamas. 


Após espantar-me ao ouvir um intérprete do Corão explicando que comemorar o natal é mais grave que fornicar, beber ou matar; depois de saber que radicais islâmicos queimaram cerca de 1200 carros - só na França – em 2013, por ocasião dos festejos natalinos; após ler a notícia de um atropelamento intencional de onze pessoas em Dijon feito por um maometano e de um outro que feriu a três policiais no dia anterior enquanto louvava a Alá; ao ser impactado pelo assassinato de 145 pessoas numa escola cristã do Paquistão, a maioria crianças, eu comecei a desejar a presença  de Jesus em  nossas celebrações.

Sim, eu ansiei ver aquela manjedoura no centro de nossas vidas encurraladas, cercadas por tantos becos sem saída. Vi que falta a paz do primeiro presépio em nossas festividades. Há excesso de ouro, talvez, mas sabemos que muito dessa riqueza não resistiria ao acrisolamento. Precisamos urgentemente desligar os carros de propaganda, os paredões de som e a poluição sonora das igrejas para ouvir o riso ingênuo, o choro, os gemidos de dor e os roncos da fome dessa criança que se mostra onipresente e pode estar tremendo de frio ou de medo no Iraque, no Paquistão, na França ou nalguma favela do Brasil, em qualquer corpo.

Enquanto ouço Noite Feliz, que me fala de um momento utópico, sinto que desesperadamente carecemos do Messias e de sua mensagem em nossos dias, como carecemos de uma boa música. Mesmo que alguém pense que ele nunca existiu ou que foi diferente do que nos fazem pensar, urge que marque presença agora, com a humildade e amor que lhe são atribuídos, que de fato renasça a cada natal e nos lance aquele olhar que aquece o coração.
Alberto Caieiro, heterônimo de Fernando Pessoa, teve um encontro com esse menino. Diz-nos ele:

Num meio dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia
Vi Jesus Cristo descer à terra,
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
[...]


Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.


A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.


A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas,
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

[...]


Precisamos dum encontro dessa natureza com o menino Jesus. Há homens loucos em nosso dias, dispostos a estragar ou destruir nossas vidas e as deles por uma causa insana. Como os modernos cristãos, eles têm uma falsa visão do Jesus a quem dizem respeitar e a quem os ocidentais dizem adorar.
Há um ódio exposto em seus semblantes que só as carícias desse menino poderiam dissipar, suas mãozinhas talvez pudessem deter seus dedos e mantê-los longe dos gatilhos. Uma vez que não dão lugar à fria razão, somente a presença dele poderia trazer pureza e sossego ao curral imundo de suas consciências. A pensadora Ayaan Hirsi, ex-muçulmana, reconhece a  importância da cultura cristã em sua versão atual, e crê no papel positivo que ela pode ter em melhorar o mundo. Por isso, quando um destes radicais aceita Jesus, faço coro aos louvores cristãos. Gostaria de vê-los aos milhares vindos do Oriente como os magos, encurvados perante a manjedoura.

Nosso natal, tão enfeitado pelas cores da hipocrisia, vergonhosamente explorado por gananciosos empresários e igrejas, desperta o ódio e o desprezo de muitos, até de nós mesmos, quando intimamente o observamos. Enquanto cantamos e maquinalmente nos saudamos, fanáticos avançam impunes estragando o natal e o resto da vida de gente desprotegida.


Necessitamos com urgência fazer algo para que o Natal seja o que deveria ser.



 Veja o vídeo:  https://www.youtube.com/watch?v=j3CFOW7rxWg



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

VERSOS PRA MINHA MULHER - Gilberto Cardoso dos Santos


Maria “dulce” Maria
Bela na simplicidade
Minha fonte de alegria
Sossego e felicidade
Que tem todo meu respeito
Ela só tem um defeito:
“d” feito no nome AnDrade.

Quem a conhece descobre
O quanto é inteligente
Seu comportamento nobre
Mostra o quanto é prudente
Eu tive bastante sorte
Pois mulher com esse porte
Não se acha facilmente.

Acho seus olhos tão belos
Gosto de seu bom humor
E nos seus gestos singelos
Vejo expressões de amor
Digo no verso e na prosa
É uma mulher virtuosa
De inegável valor.

É minha melhor amiga 
além de esposa amada
se às vezes a gente briga
é uma briguinha de nada
que logo se desvanece
quando ela me aquece
no frio da madrugada.



domingo, 14 de dezembro de 2014

MULHERES ESTENDENDO PANO

Pintura de  Wagner di Oliveira

Mulheres estendem panos
Enfrentam grande peleja
Ventos perturbam seus planos
Mas para quem as corteja
Numa exposição qualquer
O vento sopra onde quer
Mostra o que o olhar deseja.

O pincel com sutileza
faz algo extraordinário
Um cheiro bom de limpeza
se espalha no imaginário
de ondulante magia
se reveste a ventania
no quadro extraordinário.






domingo, 30 de novembro de 2014

Black Friday no Brasil Foi feito pra enganar. - Gilberto Cardoso dos Santos


Pague cinquenta por cento
Do preço que foi dobrado
Deixe o comércio animado
Dê às vendas incremento
Vamos! Não seja avarento
Aproveite pra comprar
É hora de renovar
Com promoções nota mil
Black Friday no Brasil
Foi feito pra enganar.

Na onda do vendedor
Que quer sugar seu dinheiro
Você vai surfar maneiro
Por um preço tentador
A fila está um horror
Mas vale a pena esperar
Temos que economizar
Tal promoção não se viu
Black Friday no Brasil
Foi feito pra enganar.

Fique com a sensação
De que faz um bom negócio
Não dê uma de beócio
Aproveite a ocasião
Pois tão grande promoção
Em breve vai acabar
Mesmo se não precisar
Compre! O preço caiu!
Black Friday no Brasil
Foi feito pra enganar.

Minha sala renovei
Quarto, despensa e cozinha
Gastei tudo quanto tinha
Também me endividei
Acho que exagerei
No vermelho vou ficar
Na próxima vou me cuidar
Não caio mais nesse ardil
Black Friday no Brasil
Foi feito pra enganar

sábado, 15 de novembro de 2014

OS OLHOS DE RUBEM ALVES - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando Rubem Alves cerrou para sempre as pálpebras, eu me perguntei: Onde haverá, na face da Terra, alguém capaz de vislumbrar o mundo exatamente como o Rubem via? Quanta aptidão tinha ele em despir uma cebola e ver-lhe a alma desnuda.

Por um tempo ele viu o mundo como nós; teve vista fraca para o que é essencial. Foi pastor protestante sedento por epifanias, professor universitário obcecado pela cientificidade da expressão linguística... mas, como aconteceu com o apóstolo Paulo, escamas caíram-lhe dos olhos.

Não se sabe exatamente quando, foi elevado até o mais alto céu e teve encontro pessoal com a poesia. Aprendeu a pressenti-la em tudo. O ouro descoberto por ele, que a tudo permeava, pertencente a um reino encantado, seria distribuído entre os educadores. A “aura” das coisas, aquilo que traz transcendência ao que é comum, que sempre escapa aos olhos enfeitiçados por bijuterias. Rubem, duplamente mineiro, sempre soube cavar no lugar certo. Mas não se sabe ao certo se ele de fato encontrava ouro ou descobrira a pedra filosofal. 

O que se sabe é que sua poesia, por ser tanta, não cabia em versos e alargava a forma das estrofes. A poesia se espalhou em sua prosa, decretou posse de seu ser e contaminou todo seu discurso. Não havia mais lugar para o pastor condicionado por viseiras religiosas, para o acadêmico árido, fanatizado por uma outra Bíblia, manietado, cioso do que deveria escrever. Nascia o Zaratustra da educação, aquele que nos falaria no idioma dos anjos.

Cerrávamos as pálpebras para ouvi-lo porque gostávamos de ver o mundo através de seus olhos. Cá embaixo, nos vales de nossa rotina educacional, deleitávamo-nos como eco de sua voz, vindo das montanhas. Éramos bem-aventurados.

Resta-nos agora treinar os olhos, adoecê-los, aflitivamente umedecê-los com o ácido das cebolas, pois necessitamos encarecidamente continuar a ver as coisas como ele as via. Do contrário, assim como morreu Rubem, morrerão os educadores. Que todo professor delire ao ponto de ver a aura única, especial, que envolve a cada aluno. O príncipe no sapo, a borboleta na lagarta, o pão na pedra.

Sejamos versos e estrofes onde a poesia livremente possa se despejar. Só assim haverá vida em nossas classes. E Rubem poderá descansar em paz...

OS OLHOS DE RUBEM ALVES - Gilberto Cardoso dos Santos


Quando Rubem Alves cerrou para sempre as pálpebras, eu me perguntei: Onde haverá, na face da Terra, alguém capaz de vislumbrar o mundo exatamente como o Rubem via? Quanta aptidão tinha ele em despir uma cebola e ver-lhe a alma desnuda.

Por um tempo ele viu o mundo como nós; teve vista fraca para o que é essencial. Foi pastor protestante sedento por epifanias, professor universitário obcecado pela cientificidade da expressão linguística... mas, como aconteceu com o apóstolo Paulo, escamas caíram-lhe dos olhos.

Não se sabe exatamente quando, foi elevado até o mais alto céu e teve encontro pessoal com a poesia. Aprendeu a pressenti-la em tudo. O ouro descoberto por ele, que a tudo permeava, pertencente a um reino encantado, seria distribuído entre os educadores. A “aura” das coisas, aquilo que traz transcendência ao que é comum, que sempre escapa aos olhos enfeitiçados por bijuterias. Rubem, duplamente mineiro, sempre soube cavar no lugar certo. Mas não se sabe ao certo se ele de fato encontrava ouro ou descobrira a pedra filosofal. 

O que se sabe é que sua poesia, por ser tanta, não cabia em versos e alargava a forma das estrofes. A poesia se espalhou em sua prosa, decretou posse de seu ser e contaminou todo seu discurso. Não havia mais lugar para o pastor condicionado por viseiras religiosas, para o acadêmico árido, fanatizado por uma outra Bíblia, manietado, cioso do que deveria escrever. Nascia o Zaratustra da educação, aquele que nos falaria no idioma dos anjos.

Cerrávamos as pálpebras para ouvi-lo porque gostávamos de ver o mundo através de seus olhos. Cá embaixo, nos vales de nossa rotina educacional, deleitávamo-nos como eco de sua voz, vindo das montanhas. Éramos bem-aventurados.

Resta-nos agora treinar os olhos, adoecê-los, aflitivamente umedecê-los com o ácido das cebolas, pois necessitamos encarecidamente continuar a ver as coisas como ele as via. Do contrário, assim como morreu Rubem, morrerão os educadores. Que todo professor delire ao ponto de ver a aura única, especial, que envolve a cada aluno. O príncipe no sapo, a borboleta na lagarta, o pão na pedra.

Sejamos versos e estrofes onde a poesia livremente possa se despejar. Só assim haverá vida em nossas classes. E Rubem poderá descansar em paz...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"SOBRE INQUIETUDES - IELMO MARINHO EM VERSOS" E SEU AUTOR

Tive o prazer de receber do escritor Gustavo Santos, que além de poeta é comunicador, professor e mestrando em educação, um livro autografado  intitulado Inquietudes – Ielmo Marinho em Versos.

Trata-se de uma leitura agradável, destas que despertam o apetite em leitores fastiosos - 50 poemas ao todo - em que o autor trata de paisagens, momentos e pessoas que falam com eloquência ao seu receptivo coração.

A Gustavo Santos coube o privilégio de ser o pioneiro das publicações literárias em Ielmo Marinho e a grande oportunidade de fotografar a rica subjetividade de uma gente simples, poética em sua essência. Poesia tem que ter alma, e a alma de Ielmo Marinho adquire corpo nestas páginas belamente ilustradas.

Além de merecer parabéns pela qualidade do livro e por sua habitual simpatia, Gustavo é digno de encômios por sua ideia de fazer escambo dos livros por comida - 3 kilos de alimento não perecível generosamente distribuídos -  podendo, assim, nutrir espíritos e corpos com sua obra.

Eis dois poemas de Inquietudes – Ielmo Marinho em Versos:

DOMINGO, EM IELMO MARINHO 

Amanhece o domingo,
Ielmo Marinho se desperta.
A natureza, como sempre,
com sua excelência,
sorri um novo dia.
Nos oferece
sua exuberante beleza

Choveu, um pouco, à noite.
O verde se espreguiça,
lentamente, a acordar.
A pedra fria
espera o sol chegar.

Nós encontramos uma cultura.
Estatuetas e jarros de barro.
Valioso e insaciável,
de nosso próprio respirar!
De nosso próprio viver...

Enquanto...
Um domingo amanhecer!

Foto de Ielmo Marinho meramente ilustrativa, adquirida na internet

EU QUERO

Quero beber
da água cristalina
que chega ao povo ielmo-marinhense...
Sorrisos e gargalhadas.

Quero o abacaxi
desse povo trabalhador,
vendendo na estrada de Umari,
a rotina.

Quero a carne seca
do feijão verde
em caldeirão de barro.

Quero ter boa vista,
boa prosa,
o silêncio que encanta e contagia.

Foto ilustrativa de Ielmo Marinho, maior produtor de abacaxi do RN

O poeta Gustavo Santos distribuindo alimentos adquiridos em trocas por seus livros

Orelha do livro INQUIETUDES

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

PADRE ALESSANDRO CAMPOS NO LIXÃO DE BRASÍLIA - Gilberto Cardoso dos Santos


Estou me sentindo forçado a conhecer mais e mais sobre padre Alessandro Campos. Nas ruas de Santa Cruz, principalmente aos sábados, é impossível não ouvir

"O que que eu sou sem Jesus?
Nada, nada, nada
Sem Jesus o que que eu sou?
Nada, nada, nada"


O povo costuma fazer coro à resposta. Involuntariamente, não resisto à tentação de completar a música. Acho que aquilo faz bem à feira. Traz uma sensação de paz aos que ali circulam, a julgar pelo que vejo nos semblantes. Obviamente, alguns se irritam com o alto volume e repetitividade, mas no geral o saldo é positivo. As músicas que anteriormente tocavam nos carrinhos de cds piratas eram horríveis.

Minha sogra é fã desse clérigo. Costuma ouvir tudo que ele canta e fala. Foi quem me indicou o vídeo, gravado em um lixão de Brasília.

Ao ver a reportagem intitulada "O padre na pele do povo" lembrei do seguinte trecho bíblico:

"De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz." - Filipenses 2: 5 a 8  

Num certo sentido foi isso que o padre fez: despiu-se do luxo e glórias que a função lhe confere e buscou igualar-se aos menos favorecidos, ainda que temporariamente. Nosso mundo carece mais e mais  dos que se põem na pele dos outros para conhecer mais de perto seus dramas. A empatia parece  imprescindível nos dias de hoje.
Fico imaginando o que este líder religioso pensa ou deveria pensar vendo tantos irmãos - todos católicos - vivendo em condições tão desfavoráveis. 

Chamou-me a atenção o momento em que o padre perguntou a um dos catadores: 

- O que você encontrou aqui de mais importante?

E a resposta:

- Minha família. Foi aqui que eu conheci minha mulher.

A reportagem trouxe-me também à lembrança os seguintes poemas:

Além da Imaginação
,
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece
imaginação.


(Ulisses Tavares)

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem


(Manuel Bandeira)

Em suma, a reportagem nos traz à reflexão uma realidade para a qual pouco atentamos.Há um outro Brasil que precisa ocupar mais as manchetes. Parabéns ao padre e à TV Aparecida.